O que responder quando dizem que você é quieto?

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“Nossa, você é quieto, né?”

“Ah, ela é muito quieta mesmo”

“Nossa, você deveria falar mais”

Pelo que eu leio e ouço, é comum introvertidos sentirem-se incomodados quando alguém se refere a eles como pessoas quietas. Quieto, nesse caso, parece ser o nome de um defeito, de um problema, de um desvio que pode ser corrigido se você quiser e se empenhar o suficiente em mudar.

Primeiro, vamos entender a parte dos que nos chamam de quietos. Um pouco de empatia é importante.

O silêncio assusta

Quando interagimos com alguém — independente de introversão ou extroversão — queremos conhecer a pessoa e compreender como ela reage ao que falamos, pensamos, acreditamos, etc.

Muitas das interações ocorrem com: criação de expectativa e confirmação ou frustração.

Se minha expectativa é atendida, confirmação.

Se minha expectativa não é atendida, frustração.

Se eu falo para alguém “você sabia que eu tenho um blog?” eu criei uma expectativa, a de que a pessoa irá reagir de determinada maneira. Se ela reage, significa que a imagem que eu criei sobre ela está correta e eu realmente estou começando a conhecê-la.

Se a pessoa age de uma forma que eu não esperava, significa que eu ainda não a conheço. Se eu não a conheço tão bem a ponto de prever sua reação, é um sinal de que eu devo investir mais em conhecê-la.

Mas e quando a pessoa não reage? E quando a pessoa se esquiva?

E se eu falar: “sabia que eu tenho um blog?” e a pessoa responder com um sutil sorriso e dizer: “legal” — o que eu devo entender disso? Quer dizer que ela gostou de saber que eu tenho um blog? Mas por que não pediu o endereço? Será que ela sorriu só pra parecer simpática?

Talvez dentro da pessoa esteja ocorrendo um mar intenso de reações sobre minha pequena informação de ter um blog, mas externar tanta reação pode ser demasiado difícil para ela. Inclusive a reação de pedir o endereço do blog. Talvez na cabeça da pessoa esteja passando o seguinte:

Ela quer que eu acesse o blog? Mas por que ainda não me passou o link? Eu já disse que gostei de saber, o que mais ela quer que eu diga? Será que ela quer que eu grite NOSSA QUE LEGAL VOCÊ TEM UM BLOG PUXA EU SOU FÃ DE BLOGUEIROS ME DÁ UM AUTOGRAFO??? Eu sorri e disse que achei legal, isso deveria ser suficiente, não?

E aí alguém toma a iniciativa e diz: “você é quieto”, ou, “por que você é tão quieto?”.

Eu ouvia constantemente a seguinte frase: “Daniela, eu não sou adivinha. Eu não consigo saber o que você está pensando”.

E foi assim que eu aprendi, um pouco, a começar a dizer o que eu penso.

De fato, para calibrarmos nossa interação com o outro precisamos de algum feedback. Porém quanto mais introvertida for a pessoa, maiores as chances de seus gestos e expressões serem contidas. O que dificulta bastante o fluir da interação.

O extrovertido não enxerga o que para nós é óbvio.

Se para o introvertido um sorriso acompanhado de “legal” é um sinal suficiente de interesse, para o extrovertido não é. O extrovertido fica frustrado com uma reação tão contida. Uma reação que, na cabeça dele, não informa coisa alguma. E na tentativa genuína de nos conhecer melhor e de saber como agradar, ele vira a falar ou a fazer perguntas sem parar. Enquanto que para ele isso é perfeitamente normal, é uma forma de fazer sair algo de nós que seja compreensível para ele, para nós essa reação é assustadora e intimidadora.

A anatomia do “você é quieto”

Por que alguém aponta que você é quieto? O que a pessoa espera e quer com isso?

Aqui cabem várias explicações, mas as que eu já pude observar são:

1) A pessoa que te aponta como quieto quer realmente te conhecer. Ela quer compreender o motivo do seu silêncio. Nem todo “você é quieto” é gozação e humilhação;

2) Algumas vezes esta pode ser uma forma de pedir que você fale mais para que o outro consiga te entender e te conhecer. “Você é quieto” pode ter outros significados, como “converse comigo”, “confie em mim”, “o que você quer dizer com isso?”.

E, finalmente, o que responder?

Evidente que eu não tenho uma fórmula mágica, dada a quantidade de situações em que uma pessoa pode dizer que você é quieto.

Em situações genuínas, como as descritas acima, você pode sempre tentar atender as necessidades do outro — se isso for confortável para você. Como eu mesma disse, após tanto me cobrarem para falar mais — e era uma cobrança justa — porque não conseguiam ler os meus pensamentos, eu me esforcei e comecei a falar mais. E claro, por falar mais, me refiro a ser clara. Falar de modo que outro entenda o que eu quero, espero, penso, sinto, necessito, etc. Talvez você também precise fazer isso.

Mas talvez não, talvez você tenha parado aqui no texto porque quer se livrar dos casos que eu não pontuei no texto. Os casos em que as pessoas te apontam como quieto com a finalidade de se desfazerem de você e da sua característica, de indicar que sua quietude é um defeito, que você é um desajeitado social e etc.

Em situações como esta é mais do que pertinente o silêncio. O melhor é deixar a pessoa satisfeita com as convicções dela. Tentar explicar é se decepcionar ainda mais. A pessoa que aponta em tom de gozação sua característica não está aberta ao diálogo.

Para outras situações, principalmente em que pessoas que não te conhecem perguntam “por que você é quieto?” uma reação padrão que você pode adotar é: sorria e responda: eu sou reservado.

“Você é quieto?”

:) eu sou reservada.

Coloque esta resposta em seu piloto automático e você não terá mais problemas com pessoas te interrogando sobre sua introversão.

Sim, eu faço isso. :)

A maioria das pessoas compreende bem que ser reservado é diferente de ser quieto. Ser reservado ainda causa uma boa impressão. O reservado costuma estar comprometido com suas tarefas, sua rotina, seus amigos e familiares. O reservado é confiável. O reservado é um bom ouvinte mas também é um bom comunicador. O reservado é um bom amigo.