O perigo de transformar um candidato em meme

No meio do ano passado, quando estive nos Estados Unidos para fazer um curso, Donald Trump era considerado uma piada. Jornalistas, políticos e meus amigos americanos mais interessados em política previam que, assim que as eleições se encaminhassem para sua fase séria, com as caucuses e as prévias eliminando os aventureiros, Trump estaria fora da disputa e daria lugar a candidatos com mais postura presidencial.

Passado quase um ano, depois de ter virado gif, cartoon, game, peruca de brinquedo, personagem cativo de Jimmy Fallon, o #Drumpf de John Oliver e toda espécie de meme imaginável, Trump está ainda mais forte. Salvo alguma virada inacreditável, será o candidato republicano para 2016. A ridicularização do personagem Trump, que deveria ter enfraquecido sua candidatura, parece ter jogado a favor dele. O que houve?

Vou arriscar um palpite: os memes satirizando Donald Trump não colam nele porque ele já é um meme, e é exatamente isso que seus eleitores veem e admiram nele.

Como muitos sabem, o conceito de meme é alguns anos mais antigo que a internet comercial. Foi cunhado em 1976 por Richard Dawkins em seu livro “O Gene Egoísta”. Para Dawkins, o meme atua na cultura como o gene atua na biologia: é a partícula que passa de geração para geração por meio de linguagem. Memes são o que fazem uma música virar hit, uma palavra virar gíria ou um jeito de se construir uma casa ser o mais comum.

Assim como genes, memes mais adaptados a seu meio tendem a sobreviver por mais tempo. Determinados elementos de linguagem, como palavras de fácil assimilação, fazem que um meme passe adiante como um refrão pegajoso de música pop.

Uma análise do discurso de Trump feita pelo Nerdwriter mostra que 78% das palavras usadas por ele são monossílabos, empregados em frases curtas que quase sempre terminam em expressões de impacto. Uma matéria do Boston Globe mostrou que o vocabulário usado por Trump equivale ao de um estudante da quarta série, enquanto o discurso de Hillary Clinton equivale ao de um aluno da sétima e o de Bernie Sanders, ao de um secundarista.

O discurso simples e politicamente incorreto de Trump cai nos ouvidos de certos eleitores como uma resposta às palavras cuidadosamente escolhidas, à empolação e ao “veja bem” dos discursos tradicionais. Trump é o candidato que “tells it like it is” e, quanto mais despolitizado ou decepcionado com a política for o cidadão, mais receptivo a essa retórica ele fica.

A tentativa de se opor ao pensamento de Trump, vinda de liberais do showbiz como Jimmy Fallon, só reforça a posição de quem opta por ele: se as distantes celebridades intelectualizadas zombam do homem, é porque estão com medo.

Não dá, claro, para afirmar que Trump cresceu somente por ter virado esse meme incontrolável. Mas certamente isso contribuiu para o fato de ele ter sido o candidato que mais ganhou mídia espontânea em 2015: cerca de 2 bilhões de dólares. Mais que o dobro do espaço conquistado por Hillary Clinton. Mais do que Kim Kardashian, Kanye West e Taylor Swift conseguiram, somados, no mesmo período.

O que me faz pensar no Brasil de 2018 (ou 2016, ou o dia cada vez mais incerto da próxima eleição presidencial). A radicalização e a repulsa ao político tradicional estão no ar, representadas por figuras tão folclóricas (e racistas, misóginas e homofóbicas) quanto Trump.

Aqui, como nos Estados Unidos, a paródia, especialmente se executada por figuras notadamente liberais ou esquerdistas, como Marcelo Adnet, Laerte, Gregório Duvivier e o Porta dos Fundos, também poderia acabar servindo de combustível para candidaturas ultraconservadoras conquistarem mais espaço do que mereceriam.

Devemos ceder à quase irresistível tentação de zombar com esses sujeitos? Eu acho que não. E acredito que um caminho mais produtivo que promover o que a gente rejeita é compartilhar as pessoas e políticas nas quais a gente realmente acredita.