Paga?

Agora vai. 2015, uhu! Não, agora vai mesmo. Agora é assunto, o nosso assunto é assunto. Adoro seu site! Seus textos mudaram minha vida. Adoro seus textos. Jornal: adoramos seus textos e queremos te convidar pra uma colaboração. Quanto paga? Ah, não paga, é convidado. Não, obrigada. Adoramos seus textos e queremos fazer uma parceria. Paga? Ah, não paga, é parceria. Clara, muito obrigada. Obrigada você, é maravilhoso ouvir isso. Queremos publicar seus textos. Paga? Não, a gente só dá link. Aí vem um e pega seu texto, coloca no site e ainda dá chilique quando você reclama. Paga? Não, mas tem anúncio. Você mudou a minha vida. Obrigada. Vocês também mudam a minha. Tevê: fulano quer te entrevistar. Bora. Erra o nome do meu site três vezes. Corrijo. Repete clichês. Respondo com as sobrancelhas. Tevê não paga, tevê é favor. Jornal: queremos texto! Eu: quero dinheiro. Não tem. Não temos esse budget. Queremos que seu blog venha pra cá! Paga? Não paga. Mas se tiver anunciante a gente divide. Saudades 2004, 2005, 2006, 2007 até 2008, quando dava pra viver disso, viver bem disso, viver feliz com frilas, com capas, com pautas. Paga? Não paga mais. Temos 126 reais pra essa matéria. Que legal, então leva alguém pra jantar. 126 reais? Que quebrado é esse? Vídeo paga. Texto paga menos. Vídeo paga mas demora 2 meses pra entrar. 2 meses depois: só ano que vem. Capa de revista paga? Na minha época pagava. Não é mais a minha época? Não. O mercado morreu. 126 reais.

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Paga? 
Risíssimos.

Arruma um emprego de verdade. Escrever não é mais emprego. 15 anos depois, 7 livros depois, uns roteiros depois, um site e uma vida inteira de dedicação depois, várias vidas depois: escrever não é mais emprego. Você ter que fazer outra coisa porque não consegue ainda é diferente de ter que arrumar outra coisa porque não consegue mais.

Vou arrumar outra coisa, não consigo mais.

Vou trabalhar no shopping.

Vou passear com os cachorrinhos do bairro.

Vou vender falafel da vovó.

Vou voltar pra trás do balcão do bar, lidar com bêbado até às 7 da manhã.

Escrever não é mais emprego, para de reclamar, 15 anos da sua vida no ralo, vai trabalhar de verdade.

Escrever só é emprego se você fala o que querem.