O Futuro e as Pessoas — o que vimos na palestra da Box 1824

Se conectar às pessoas é entender o futuro.

Por Rodrigo Oneda Pacheco.

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Entre os dias 21 e 25 de Novembro, estará rolando a 12ª Ed. do Inova LaB — uma experiência que integra universitários e grandes empresas da moda catarinense focados em resolver desafios reais, buscando o melhor da inovação e da colaboração.

E no último dia 22 de Novembro, rolou a palestra do Moreno Sereno, responsável pelo planejamento estratégico e pesquisa sobre consumidores na Box1824, uma das empresas destaques no mercado da economia criativa brasileira.

Uma abordagem ampla sobre vários detalhes de como marcas, pessoas e comunidades se relacionam atualmente e como essa combinação pode gerar ainda mais impacto no futuro como um todo.

Além de falar da própria Box 1824, claro.

Vou tentar descrever aqui, com alguns comentários em específico, o que ele abordou nessa apresentação, caso você deixou escapar algum detalhe ou simplesmente perdeu a chance de acompanhar esse encontro.

O que é a Box 1824

Resumidamente, a Box 1824 é uma empresa focada em desenvolvimento de pesquisas de tendências em consumo, comportamento e inovação.

É também conhecida como a responsável por vídeos legais na internet que mostram e evidenciam os resultados da suas pesquisas combinando uma boa narrativa, trechos de filmes diferentões e uma trilha sonora bacana que faz o consumo dos seus produtos ser muito mais atrativo.

Basta você acessar o canal da empresa no Vimeo e assistir. Vale a pena.

A hiperconexão e a novas tecnologias

O primeiro ponto que eu gostaria de trazer para este post refere-se a base que o Moreno deu na sua apresentação.

“Comportamento é olhar para a tecnologia.”

Muito se fala das tendências tecnológicas e como isso poderá impactar no nosso futuro. Para muitas (e muitas mesmo!), essa mudança é algo do futuro e poucas entendem que o impacto desta evolução é muito mais atual do que elas imaginam.

Assim foi o início da construção do raciocínio do Moreno e que faz muito sentido. Por mais que as tecnologias possam ter diferentes importâncias e interpretações quando isoladas, juntas elas têm o poder de transformarem o mundo.

As tendências que ele trouxe provavelmente já são conhecidas por você, mas vale o registro. Apenas trago os pontos de acordo com a própria ordem apresentada no telão para que fique o registro, veja:

1 — Networks: as redes.

2 — Sensor: sensores inteligentes.

3 — Blockchain: cadeia para transações criptografadas.

4 — Robotics: robótica.

5 — Synthetic Biology: biologia sintética.

6–3D Printing: impressão 3D.

7 — Artificial Intelligence: inteligência artificial.

8 — Virtual reality: realidade virtual.

Novas tecnologias que já impactam a nossa rotina. Foto: Rodrigo Oneda Pacheco

O mais interessante de observar esses novos recursos é que, a soma dessas combinações acabam gerando inovações disruptivas em vários mercados.

Seja no transporte, na alimentação, na medicina, na economia, no entretenimento e muitos outros. Essas disrupções já são realidades e estão ganhando cada vez mais espaço daqueles que não estão se reinventando atualmente.

E uma das principais características que demonstra toda essa mudança é o fator exponencial desse impacto. Se desde então, a mentalidade dos mais diferentes modelos de negócios e relacionamentos estava linearmente projetado, hoje o cenário tende a ir para o caminho da singularidade.

Ou seja, as pessoas começam a ter um desapego ao pensamento linear e partem para a premissa de que o impacto capaz de fazer mudanças relevantes na sociedade vem do pensamento exponencial .

E toda essa combinação de novas tecnologias tem como consequência a conexão entre as pessoas.

Essa conexão gera novos formatos de relacionamento, permitindo que qualquer pessoa tenha acesso a outras tantas pelo mundo de forma muito mais rápida e acessível.

O resultado disso tudo? São as ações cada vez mais diretas, ponto a ponto, peer to peer (peer2peer) que acabam evidenciando a mudança de padrão de consumo e a conscientização de como estamos convivendo atualmente.

Quantas vezes você usa uma furadeira por mês? Ou por ano?

Se tem uma coisa que representa muito essa mudança de padrão de consumo é o fato de você não se sacrificar para poder ter acesso a bens de consumo mais cotidianos.

A pergunta sobre a furadeira exemplifica bem todo esse contexto. Muitos objetos, como uma furadeira, são raramente usados por famílias comuns em suas casas ou apartamentos, mas que costumam ter um valor de aquisição relativamente alto perto da sua real utilização.

Ou seja, você compra algo caro, usa uma vez ou outra e acaba deixando aquele objeto parado e sem qualquer função adicional, nos fundos da sua garagem ou dispensa.

É dentro deste contexto e de outros cada vez mais comuns nas nossas vidas que o senso de posse foi perdendo o sentido e ter acesso àquilo que precisamos acaba importando muito mais para nós.

Posse vs Acesso: o meu objetivo é ter um furo na parede e se eu tiver o acesso a uma furadeira ao invés da posse, já estarei satisfeito.

O mesmo raciocínio já é feito por muitas (inclusive eu) pessoas pelo mundo em relação ao carro. Enquanto há alternativas de transportes que me permitem ir de um ponto ao outro sem eu ter a necessidade de possuir qualquer automóvel, vou vivendo a vida sem me endividar com financiamento ou altos custos de manutenção e depreciação que um carro impõem.

Um dos principais fatores negativos de um carro é o seu custo altíssimo (pelo menos para mim) para mantê-lo hoje em dia. Entendendo que a compra de um não fará grandes diferenças na minha vida, eu prefiro optar por meios alternativos para me transportar e assim me satisfazer da mesma forma.

Ou seja, prefiro ter o acesso a opções do que me privar da posse de uma única possibilidade — e pior, ser o único responsável por pagar por isso.

Se você tá pensando em comprar um carro em 2018, vá em frente. Mas antes, veja esse site.

O que faz isso tudo ter ainda mais sentido? A hiperconexão.

A capacidade de relacionamento é infinita num mundo conectado. E a nossa comunidade está extremamente conectada hoje em dia.

O poder dessa hiperconexão nos permite gerar novas possibilidades de interações, inclusive interações comerciais.

Essas possibilidades têm um característica muito forte: o protagonismo das pessoas no processo de geração de valor.

Isso permite gerar um ambiente propício a novos estímulos e capacidades que surgirão a todo o momento e que serão capazes de resolver qualquer tipo de problema. E o melhor, muito mais rapidamente do que muita empresa por aí.

Com isso, as novas formas de trocas e, em grande parte, sem intermediação de terceiros, permitirá que grandes indústrias e estruturas mais sólidas de mercado sejam reinventadas — pelo menos aquelas que se sentirem provocadas a isso.

E um outro ponto super reforçado que sintetiza toda essa nova postura de colaboração, trocas Peer2peer e relacionamento em rede é a abundância.

Estamos saindo de uma era de escassez e entrando em uma era de abundância

Ou seja, a lógica da cooperação cria cada vez mais espaço e muitas coisas começam a fazer ainda mais sentido para as nossas relações e necessidades.

Peter Diamandis, o autor da teoria da abundância, explica que o nível de abundância não significa viver de luxo, mas sim, ter a plena capacidade de ter acesso a tudo que for necessário para uma pessoa — na premissa de que as necessidades básicas desta pessoa estão sendo atendidas.

E para explicar isso, surge o que chamo de “pirâmide da abundância”, que tem três níveis. No inferior, encontram-se a comida, a água e a moradia, ao lado de outras questões elementares para a sobrevivência. No segundo, ficam os catalisadores de maior crescimento: energia, amplas oportunidades de educação e acesso à comunicação e à informação. O nível mais alto está reservado à liberdade e à saúde, duas condições básicas para que qualquer indivíduo consiga dar sua contribuição à sociedade.

Pirâmide da Abundância — Peter Diamandis

E se analisarmos os avanços tecnológicos, veremos que o potencial da abundância é infinito.

Pare para pensar: quanto vale um produto hoje? Por que as pessoas não compram mais CDs/DVDs e começaram a consumir serviços como Spotify e Netflix?

Essa é a lógica da abundância. Você ter acesso à produtos e serviços de forma ilimitada, sem a necessidade de possuí-los e deteriorar seus recursos, mesmo atendendo os seus desejos e ainda permitir que outras pessoas possam usufruir destes produtos.

Ou seja, criam-se tecnologias de alto valor agregado isoladamente mas quando se somam, esses valores quebram rígidas estruturas de indústrias e mercados que até então estavam consolidados nos seus formatos de atuações.

Exemplos como a Uber são os mais conhecidos nesse novo ecossistema.

Apesar dos problemas que a empresa passou neste 2017, eles puxaram uma nova forma de consumir na indústria automobilística — uma das mais tradicionais do mundo.

A Uber pode deixar de existir, mas a combinação de tecnologias peer-to-peer, móvel, armazenada em nuvem, georreferenciada, individualmente reputacionada, precificada dinamicamente, paga automaticamente, gerenciada por machine learning a partir de análise de big data, (e talvez logo via carro autônomo) e resumida em apenas um botão “solicitar” carro não só vai continuar existindo, como será cada vez mais presente.

Basta analisar a famosa lista Fortune 500 que é sempre citada em palestras futurísticas e rodas de conversas de entusiastas da inovação. As maiores empresas listadas nesta lista até 2020 ainda nem foram criadas.

E para reforçar esse universo, um termo que concretiza essa mudança ligada à abundância é a chamada GIG Economy, conhecida como economia sob demanda. Ou seja, uma relação de trabalho sem vínculo e temporário que é remunerado por uma fórmula variável.

Essas novas formas de relacionamento entre empregador e empregado estão se tornando cada vez mais fortes no mundo. E o Uber está sendo visto apenas como a ponta do iceberg.

Um estudo feito pelo JPMorgan Chase Institute revela que o número Gig Workers nos Estados Unidos cresceu 10 vezes desde 2012 e que 4% de adultos já trabalhou, ao menos uma vez, nesse mercado. Um outro estudo, da Intuit Research, prevê que até 2020 a Gig Economy compreenderá 40% dos trabalhadores americanos.

O que se percebe dessa movimentação é que a independência e a liberdade de escolha da população por suas relações de trabalho exigirá mudanças de grandes indústrias definitivamente. E se há pouco mais de 10 anos não existiam operadores de drones, motoristas de Uber ou Youtubers, o que mais surgirá daqui em diante como novas profissões do futuro sustentadas pelas novas tecnologias?

Mas nem tudo são flores, principalmente se tratando de humanos.

Se de um lado, as pessoas estão começando a intensificar suas relações comerciais em função das novas tecnologias, por outro essas relações nem sempre são bem aceitas por todos.

A exposição da Internet e a liberdade na rede

Se tem uma coisa que o ser humano não consegue fazer muito bem é lidar com a liberdade. Parece que é preciso, considerando várias circunstâncias, ter alguma regulamentação sobre algo para deixar tudo em ordem e o cara não se perder.

E quando a gente lê comentários na internet sobre qualquer coisa que confronte a opinião de alguém, a gente vê que o respeito é um dos valores menos praticados na economia aberta.

Obs: eu até já escrevi sobre as bolhas que estamos vivendo e como elas podem ser prejudiciais quando não conectadas a outras bolhas da sociedade.

O alto fator da rede, quando conectada, expõe problemas sociais que o Estado não é capaz de resolver de forma eficiente. Assim, muitas movimentações sociais e iniciativas independentes começam a criar corpo cada vez mais intensos nesses contextos.

E a mídia é um outro exemplo de uma indústria que precisará de uma renovação.

Se todo mundo pode ser um canal de comunicação e, a cada novo segundo, alguém produz conteúdo capaz de informar outras pessoas, essa perspectiva pode criar uma confiança nas pessoas que os grandes veículos de mídia não conseguem.

A Mídia NINJA é um dos maiores exemplos.

Tudo isso representando um ambiente democrático e acessível para a grande maioria de pessoas em qualquer canto do planeta. A liberdade na internet é democrática em todos os sentidos e a consequência disso pode ser incrivelmente positiva mas também decepcionante.

Concluindo — Os eixos da Box 1824

A palestra termina com a sintetização a respeito de 3 movimentos legais que eles estão trabalhando capazes de resumir as inúmeras possibilidades de tendências de consumo para os próximos anos.

Youth Mode

O jovem vira um estado de espírito e qualquer pessoa, de qualquer idade, podem ter esse comportamento.

Ou seja, a limitação demográfica acaba se torna inviável e as marcas começam a pensar que seus produtos e serviços possam ter usados por qualquer pessoa que tenha um estado de espírito jovem dentro de si.

Por muito tempo, a idade esteve amarrada a uma série de expectativas sociais. Mas quando o jovem da geração Boomerang retorna para o ninho vazio e a aposentadoria fica mais distante a cada dia, o vínculo entre idade e expectativas sociais começa a se desfazer.

No fim das contas, apelamos para a aptidão tecnológica para separar jovens dos mais velhos — apesar de que mães também se viciam em Candy Crush.

Fonte.

Unclassed Shopping

A maneira de se analisar influências de comportamento e consumo não segue mais necessariamente a lógica top-down da pirâmide de renda da sociedade.

Esse pilar evidência os padrões de comportamento e de consumo baseados em classes sociais diferentes. Provavelmente você, de classe média, ouve seu funk criado nas vielas da Rocinha ou um sertanejo escrito no sertão de Goiás.

Quem insistir em delimitar suas possibilidades com base apenas em padrões verticais, hoje, não está fadado ao fracasso, mas a um destino muito pior: à obsolescência.

A ascensão das classes mais ‘baixas’ da nossa sociedade, evidenciada pelas políticas públicas dos anos de PT no Governo do Brasil, mostram que os padrões de consumo estão diminuindo cada vez mais as distinções de classe social.

Não é só rico que ouve música clássica. Não é só pobre que ouve funk de favela.

E quando você caminha por barracões de grandes favelas brasileiras, você poderá se surpreender que o padrão de consumo destes ambientes é bem maior do que imaginamos.

Bons televisores, Playstation 4, smartphones e por aí vai. Eu mesmo já tive a oportunidade de conhecer um ambiente assim em uma favela no Morumbi, em São Paulo e lembro de conhecer uma família que tinha uma TV de LED e aparelho de DVD (com filmes, inclusive) para assistir — isso era em 2002 e aqui em Blumenau não tínhamos nada disso.

O ponto interessante desse cenário é que muitas pessoas que moram em áreas mais limitadas, como as favelas nos grandes centros, consomem produtos assim como uma forma de ascensão cultural.

É como se essa galera adquirisse esse tipo de padrão para se sentir parte de uma sociedade como um todo.

Post Gender

E por fim, o olhar para o indivíduo.

Uma fato curioso que o Moreno levantou na palestra e eu não sabia.

O Facebook possui 56 tipos diferentes de classificação de gênero para você escolher.

Essa tendência evidencia a inclusão do diálogo, da empatia e da notoriedade das minorias da sociedade.

Aquele papo que a tecnologia evidencia coisas boas e ruins, este é um exemplo perfeito para isso. Enquanto há pequenos grupos se movimentando para várias defesas de causas diferentes e outras necessidades, por outro lado há aqueles que não aceitam essas diferenças e se baseiam em fundamentos religiosos, morais e etc., para argumentarem contra a esse movimento.

A questão é que esses grupos (e eles são inúmeros, potencializados pela rede, sua força se torna infinita), também determinam padrões de comportamento e consumo no mundo moderno.

Ou seja, isso apenas reforça que cortes demográficos não representam as intenções de consumo das pessoas. Os detalhes precisam ser mais estudados e aprofundados.

Se as pessoas estão gerando muito mais informações e o poder da rede está definitivamente construindo novas relações de consumo, trabalho e relacionamento em geral, a pergunta para as marcas é a seguinte:

Como se tornar relevante na lógica da rede?

Como interpretar que a lógica das relações comerciais mudou e que as pessoas são muito mais capazes de gerar benefícios entre si do que ter alguma dependência de algum intermediário para isso?

A lógica da promessa não entregue é substituída pela produção que as próprias pessoas são capazes de fazer na economia em rede.

E isso interfere diretamente na lógica da concorrência e sigilo pois essas variáveis começam a ser contestadas pois a troca e o crescimento em rede se torna mais fluído, orgânico e sincero. Todos ganham quando há alguma troca.

Assim, o papel das empresas começa a ter um significado ainda maior: emponderar as pessoas

Pois no fim de tudo isso, a produção não é só minha. É de todos. E a sensação da abundância será cada vez mais inevitável.

Se conectar às pessoas é entender o futuro.