POROROCA

Passei a noite olhando para o teto. Na exata posição em que eu estava quando você saiu sem se despedir. Foram minutos ou horas ininterruptas ali. Não sei mensurar porque a angústia afeta a noção de tempo. E ali deitado, olhando o mesmo ponto, questionei se o branco traz mesmo paz. Só senti aflição. Um aperto no peito, um grito surdo e uma fraqueza que me tomou e me impedia de mexer os olhos. Apenas conseguia fechá-los numa tentativa vã de dormir para calar todos os pensamentos que insistiam em sapatear na minha cabeça.
Ás vezes sentia raiva. Ás vezes, tristeza. Ás vezes abaixava a cabeça e concordava com tudo o que havia me dito. Ás vezes eu tinha todos os argumentos do mundo para te dizer o quão cruel você foi. Que você está sendo. Ou que talvez você seja.
Senti o dia passar como o segundo eterno entre o soco e o nocaute. Meu corpo lentamente caindo no chão. Cada décimo de segundo mais devagar que o outro. E cada vez mais dor, consciência da derrota e o chão se aproximando… Se aproximando… Aproximan… Chegou. Os juízes começaram a contagem. Três…Dois…Um… E eu prostrado não entendendo pra que contar se a minha cara é um estandarte do meu fracasso.
Jurei que não ia te escrever. mas minha cabeça segue fritando versos sem virgulas sem chance de respirar refletindo o meu sufoco. Enquanto eu tento aqui desesperadamente fugir da raia. E da raiva. Me lembrei de todas as vezes em que te escrevi, jogado sob a lona vomitando todos os meus sentimentos, para que você visse com clareza o mais profundo de mim. Mas continuo me sentindo como uma tartaruga presa num engradado de refrigerante. Uma baleia jubarte com o estomago embrulhado de plástico.
E no meio de toda esta gororoba nos tornamos… Pororoca. O encontro entre a água doce e a salgada. Universos opostos se sobrepondo. O confronto entre os deuses amazônicos e as lendas do Atlântico. Uma onda muito louca em que peixes domados pelo tesão seguem a correnteza e surfistas chapados seguem a maresia. O fluxo do rio jamais muda ou se rende à imensidão azul do mar. E ano após ano o combate se repete — sem nunca haver um vencedor.
Talvez esta seja a analogia perfeita para o nosso fim. Ou quem sabe a razão do nosso eterno recomeço. Ou de alguma forma estapafúrdia esta seja uma das explicações mais absurdas para este amor.
Aliás, nem sei mais se podemos chama-lo assim. Não que eu saiba de muita coisa. Eu não sei se há como reverter o aquecimento global. Não sei se podemos salvar as baleias. Não sei se posso reivindicar a revanche pelo cinturão. Muito menos sei se um dia o Sertão vai virar mar. Fujo da pretensão de crer que sei de algo. Contra toda a sabedoria dos mitos me recuso a escutar a razão. Deve ser por isso que sempre a perco junto das minhas chaves. Devo estar errado, mas não desisto.
Esta é a única razão pela qual deixo essa historia sem final. Não cabe a mim escrever estas linhas. Aceito minha insignificância diante das lacunas abertas no embate do Destino com o Caos. Nestas águas revoltas, durmo com os camarões e deixo a onda me levar. Hoje é dia da caça, amanhã do caçador.
