40 anos de Mostra Internacional de Cinema: uma celebração

Jornalista e crítico de cinema, Rubens Ewald Filho faz uma análise sobre a importância da Mostra Internacional de Cinema São Paulo para a cultura brasileira.

Por Rubens Ewald Filho

Era uma vez um jovem jornalista, armênio, naturalizado brasileiro, que usava o nome artístico de Leon Cakoff e que tinha um sonho: conhecer o lendário Festival de Cannes, na Côte D´Azur francesa, encontro de todos os mais famosos cineastas e estrelas.

Escrevendo para o então importante Diário da Noite, dos Diários Associados, ele retornou mais determinado do que nunca. São Paulo deveria ter um Festival como aquele. Sua ousadia era tanta que foi propor ao lendário diretor do MASP, Pietro Maria Bardi, a criação de um evento parecido, ainda que mais modesto chamado de Mostra Internacional de São Paulo.

Mostra porque, mais importante do que a competição, era a exibição de filmes de todo o mundo. Festival tinha a conotação mais de festas e estrelas.

E foi de uma sala pequena do MASP, quase um porão, que 40 anos depois sua herança não deixa dúvidas: a Mostra é o maior evento do gênero da América do Sul e continua a desenvolver a proposta de Leon — falecido em 2011, aos 63 anos de câncer.

O trabalho é agora desenvolvido por sua mulher, Renata de Almeida, e sempre fiel à sua proposta: ter a participação dos grandes nomes do cinema. Este ano o cartaz da Mostra e o filme de abertura são em homenagem ao grande nome do cinema italiano Marco Bellochio e a Aula Magna será com o diretor americano premiado com o Oscar William Friedkin, de Operação França e O Exorcista.

De certa forma, a mostra se tornou uma lenda, fomentada pelos cinéfilos que costumeiramente vêm do interior ou tiram férias nesse período do ano para não perderam os filmes mais importantes — e que muitas vezes competem entre si para ver quem mais assistiu filmes.

Durante mais de duas semanas, São Paulo é o paraíso dos fãs da sétima arte, que terão a chance de assistir na Mostra os filmes mais recentes e inéditos, muitos deles indicados para o Oscar do ano seguinte. Mas também poderão saudar a obra dos maiores cineastas do mundo. Como, por exemplo, o genial sueco Ingmar Bergman, numa exposição chamada Por Trás da Máscara: 50 Anos de Persona, que veio diretamente da ilha de Faro, onde o cineasta morava na Suécia, e esta no Itaú Cultural. Assim você irá reencontrar sua obra-prima Persona, estrelado pelas musas Liv Ullman e Bibi Andersson.

A Mostra também se tornou lendária pelas posições de Leon. O primeiro filme vencedor da Mostra, foi do cineasta Hector Babenco, Lucio Flávio: Passageiro da Agonia e esse fato acabou ajudando a liberar o filme da censura. Tristemente, ano passado o filme de abertura foi o último de Babenco, autobiográfico, Meu Amigo Hindu (ele faleceu em 13 de julho deste ano). Mas o maior feito foi apresentar na Mostra O Império dos Sentidos (de Nagisa Oshima, de 76), um drama japonês que foi o primeiro grande filme de arte a ter cenas de sexo explícito. A censura brasileira tentou impedir sua exibição na Mostra, mas León conseguiu a liberação, que depois prosseguiu nas salas de cinema e foi o começo do fim da Censura no Brasil.

Qualquer fã da Mostra tem outras historias lendárias para contar, desde o esforço do casal em trazer o melhor de Cannes até a luta para vencer o câncer. Testemunha dessa bravura e de sua fiel amizade, participo da Mostra esses anos todos e agora em 2016, faço uma homenagem a ele apresentando um longa documentário sobre sua cidade natal, a infeliz Alepo, no filme Somos Todos Emigrantes, sobre o genocídio na Síria.

Mas o grande feito da Mostra é, justamente neste ano tão difícil, de crise econômica, ter conseguido financiamento para um evento de qualidade, com os mais variados e expansivos. São mais de 300 filmes clássicos ou inéditos, que serão apresentados em 42 salas de São Paulo e em 35 lugares de exibição.

Mas não fica por aí. A Mostra terá retrospectivas sobre dois dos maiores cineastas poloneses: o recém falecido Andrewz Wajda, de quem será mostrado seu filme mais recente; o outro será o lendário Decálogo, de Kiewslowski. Ainda teremos homenagens ao critico José Carlos Avellar, o ator Antônio Pitanga, a atriz Maria Alice Vergueiro, o falecido diretor Aloysio Raulino. Sem esquecer de mesas redondas, entrevistas com realizadores estrangeiros que vieram apresentar seus filmes, debates sobre roteiro, cinema brasileiro, lançamento de livros (o chamado Memórias do Cinema vai registrar depoimentos autobiográficos de críticos e artistas como Flavio Tambellini, Guilherme Weber, Eliane Caffé e outros).

Este ano é, antes de tudo, uma celebração dos 40 anos do evento do gênero mais antigo e respeitado do Brasil. Afinal, já ninguém mais duvida que a Mostra é uma autentica festa do melhor do cinema.

O Itaú é patrocinador oficial da 40ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo e acredita no poder transformador das histórias contadas na tela do cinema. Durante o evento, aproveite para desbloquear a sua laranjinha e vá pedalando entre uma sessão e outra.

Incentivar a cultura #issomudaomundo 😉🎬🎥


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