Alê Abreu: “O Menino e o Mundo me encheu de coragem para criar um filme diferente”

Único representante do Brasil no Oscar 2016, o diretor Alê Abreu conversou com a gente sobre a recepção do filme no exterior e todos os esforços para conquistar os votos da academia ;-)

Com pingos de tinta nos cabelos, perguntou o inquieto Alê Abreu: “É com você que eu tenho uma entrevista agora?”. Diretor de O Menino e o Mundo, único representante do Brasil no Oscar 2016, o artista nascido na cidade de São Paulo não para nem por um minuto. Arruma uma cadeira aqui. Corre para pegar um papel ali. Conversa sobre os novos projetos. “Vamos fazer fotos? Preciso me arrumar. Estava pintando o escritório e estou com o cabelo cheio de tinta. Vou parecer ainda mais grisalho nas fotos com essa tinta branca”.

Em processo de divulgação do filme no exterior, o diretor e animador que já trabalhou em outras películas, como Garoto Cósmico (2007), recebeu nossa equipe para uma conversa na produtora Filme de Papel, localizada na Vila Madalena, em São Paulo. Entusiasmado com a boa recepção do filme, Abreu falou sobre a emoção de ter sido indicado ao Oscar de Melhor Animação, o processo de construção do trabalho e todos os esforços para conquistar os votos da academia.

O que você estava fazendo quando recebeu a notícia de que O Menino e o Mundo foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Animação e como reagiu?

No dia do anúncio eu não estava em São Paulo. Estava sozinho em uma casa de campo na Serra da Mantiqueira. Sendo honesto, até a noite anterior eu tinha absoluta certeza de que o filme não seria indicado, mas acordei com um sentimento muito forte pela manhã. Lembro que estava terminando de pintar a casa e quando começaram a anunciar os indicados na categoria de “melhor animação” e eu parei tudo, estava com tinta no cabelo, e corri para assistir. Então eles falaram: “AnomalisaO Menino e o Mundo…”. Demorei alguns segundos para entender o que estava acontecendo. Como eu estava vendo a transmissão pelo Youtube, com o Facebook aberto, na mesma hora o barulho de nova mensagem começou a apitar: “Bip… Bip-bip… Bip-bip-bip… Bib-bip-bip-bip-bip”. Uma verdadeira avalanche digital de pessoas me parabenizando.

Você lembra quem foi a primeira pessoa com quem você conversou?

A primeira pessoa que eu mandei uma mensagem foi para o meu irmão. Como ele estava viajando com o meu para pelo Sul, acabei mandando para os dois. À noite encontrei a minha esposa e a equipe de produtores do filme em um bar. Lembro que as pessoas que estavam na mesa do lado vieram me parabenizar. Em determinado momento todos levantaram e começamos a comemorar juntos. O bar inteiro aplaudindo pela conquista. Foi emocionante.

Você acredita que o filme foi de alguma forma “ignorado” pela imprensa e público na época do lançamento e descoberto com o anúncio do Oscar?

Eu acho que ele foi “redescoberto” com o anúncio do Oscar. É incrível como essa indicação jogou um holofote muito forte no trabalho, merecida. Lembro que o filme ficou sete meses em cartaz e diversas pessoas com quem eu conversava sequer tinham ouvido falar dele. Agora todo mundo conhece o filme e isso é maravilhoso. Com isso eu já sinto que o filme é um vitorioso. Só o fato dele ser reconhecido já é uma conquista imensa.

Vocês iniciaram uma campanha financiamento coletivo para promover O menino e o mundo no Oscar e o valor mínimo — de 100 mil reais — foi atingido. Além da questão do financeira, quais são os principais desafios para promover um filme durante a corrida do Oscar?

O mais importante durante uma competição como o Oscar é fazer com que as pessoas que participam da academia, quem vota, consiga assistir ao filme. Esse valor — 100 mil reais — é o custo mínimo que a nossa distribuidora internacional pediu para que o filme pudesse chegar até os membros da academia. São custos de divulgação, anúncios em publicações como o The New York Times, na [revista] Variety ou mesmo a realização de eventos para apresentar o filme. A simples entrega de um DVD do filme para um membro da academia está inclusa nesse pacote. Nós precisamos fazer com que o filme “exista”.

O Menino e o Mundo concorre com filmes elogiados como Divertidamente e Anomalisa. Além de ser a única animação 2D deste ano, o que você considera ser a principal característica do filme em relação aos demais concorrentes?

O Oscar 2016 tem uma coisa de diferente em relação aos outros anos. Ele tem um leque incrível de filmes. Nós temos filmes de países diferentes, cinematografias diferentes e técnicas diferentes. Você tem um stop motion [Shaun, o carneiro] que vem da Inglaterra. Uma filme que reforça a cultura japonesa de animação [As memórias de Marnie] dirigido por um grande estúdio que é o Ghibli. Você tem o Anomalisa, que é filme de um roteirista [Charlie Kaufman] e o Divertidamente, da Pixer, uma empresa que sempre tem um lugar garantido no Oscar. O que há de diferente n’O Menino quando eu comparo com todo esse universo é o fato de que ele é um filme muito mais radical. Um filme feito sem roteiro. Filme de um boneco palito. Sem diálogos e que tem um pano de fundo social muito forte. Um filme de autor. Um filme de arte. Ele mistura muitas técnicas, como colagens, lápis de cor. Mais do que entretenimento, O Menino e o Mundo é um filme que gera debate.

A música tema do filme, Aos olhos de uma criança, conta com produção do rapper Emicida. Eu queria que você comentasse um pouco sobre a construção da faixa.

O convite para o Emicida surgiu quando a gente chegou ao final do filme, nos créditos, e percebemos que faltava um pouco da língua portuguesa. O filme é tão árido, abstrato, e queríamos que as pessoas de alguma forma botassem os pés no chão, de volta à realidade, quando o trabalho chegasse ao fim. Pensamos em canções de protesto que serviram de inspiração para o filme. Músicas dos anos 1960 e 1970. Mas pensamos que seria muito localizado, muito voltado ao período da ditadura. Então decidimos trazer algo que representasse a música de protesto nos dias de hoje e nada melhor do que do que o rap. De cara convidamos o Emicida. Fizemos uma sessão para ele com o último corte do filme, ele assistiu, e só disse: “valeu”. Uma semana depois ele gravou essa música em um voo, gravou no celular, sem batida, lendo pra gente os versos. Na hora que eu ouvi eu pensei: “é isso! não tem o que mudar”.

Como o filme mudou a vida de cada um de vocês?

O Menino e o Mundo me tirou de um lugar onde eu estava e me encheu de coragem para criar um filme de uma maneira diferente do que eu vinha fazendo. Diferente do que a indústria costuma dizer que é certo. As coisas podem ser de outro jeito. Você pode inventar o seu jeito de fazer filme. Com O Menino, eu tenho a certeza de que posso realizar aquilo que eu acredito, existe lugar no mundo para a minha palavra.

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