O Enigma do Tempo

Por Marcelo Gleiser

Professor titular de física, astronomia e filosofia natural no Dartmouth College, EUA, Marcelo Gleiser preparou uma curiosa reflexão sobre o tempo ;-)

Todo mundo acha que o tempo anda com pressa, passando rápido demais. Volta e meia, recebo perguntas de pessoas aflitas, se achando meio que injustiçadas. Brinco que a percepção da passagem do tempo obedece à uma equação: quanto mais velhos, mais rápido o tempo passa.

Para uma criança, uma tarde parece ter duração infinita; para uma pessoa de 50 anos, desaparece num piscar de olhos. (Matematicamente, podemos dizer: a percepção da passagem do tempo (P) é inversamente proporcional à idade da pessoa (I), ou P ~ 1/I.)

Mas é isso mesmo? Será que o tempo anda passando mais depressa? E afinal o que é o tempo?

Existem vários tipos de tempo. O tempo psicológico, que tem a ver com a nossa experiência subjetiva de sua passagem; o tempo físico, que é como a ciência define o tempo; o tempo cósmico, ligado com a expansão do universo. Existem outros, mas esses já bastam. A nossa percepção psicológica do tempo, que é a que aflige as pessoas, tem a ver com como vivemos. Se sempre na rotina, na repetição das tarefas do dia-a-dia, o tempo acelera. Ou seja, para expandir o tempo, seja criativo, invente novas atividades, faça aventuras, crie oportunidades para que a vida possa lhe surpreender.

Na física, o tempo é uma medida de transformação; se nada muda, o tempo não é necessário. Sendo criaturas com o privilégio de perceber isso, fomos levados, desde os primórdios da civilização, a desenvolver meios para captar e medir a passagem do tempo: ampulhetas, relógios com pêndulos, à corda, à pilha, até os atômicos, os mais precisos, baseados na radiação emitida por elétrons quando pulam dum nível de energia a outro em átomos. Criamos calendários para organizar o tempo, dividindo-o em intervalos compreensíveis: minutos, horas, dias, anos, décadas. O dia, por exemplo, vem da rotação da Terra em torno de si mesma, o que demora cerca de 24 horas. (Mais precisamente, 23h56m4.1s, em termos da rotação completa da Terra em relação às estrelas. Existem vários tipos de dia, na verdade.)

“O Cazuza tinha razão, o tempo não para. Sabendo disso, o melhor é conviver com ele sem angústia, escapando da rotina, celebrando a vida”

Contrariando o que tantos pensam, na verdade a duração do dia está aumentando, na taxa de 1,7 milionésimos de segundo por século. É bem verdade que é uma pequena mudança, mas vai contra a percepção de que o tempo (ou a duração do dia) anda acelerando. Essa mudança acumula: por exemplo, cerca de 620 milhões de anos atrás, o dia durava apenas 21h54m. Esse efeito vem do fenômeno das marés, que causa tanto um afastamento progressivo da Lua quanto uma diminuição da rotação da Terra.

O Cazuza tinha razão, o tempo não para. Sabendo disso, o melhor é conviver com ele sem angústia, escapando da rotina, celebrando a vida. Por exemplo, parando de vem em quando para olhar para o céu, para a Lua, e refletindo sobre nosso lugar nesse vasto e misterioso universo, que nos reserva ainda tantos mistérios.


A vida não é medida em minutos, mas em momentos 😉 Veja nossa mensagem de fim de ano:


Marcelo Gleiser é professor titular de física, astronomia e filosofia natural no Dartmouth College, EUA. Seu livro mais recente é “A Simples Beleza do Inesperado”. Você pode segui-lo no Facebook e no Twitter

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