Oscar 2016 — Mais polêmico do que nunca

Por: Rubens Ewald Filho

A intenção parecia boa. Tornar a festa de entrega do Oscar, realizada no dia 28 de fevereiro, um exemplo de diversidade racial depois da decepção em 2015, quando nenhum ator negro foi indicado (apesar de grandes trabalhos, como no filme Selma).

Prepararam tudo direitinho: a atual presidente da Academia é negra, Cheryl Boone Isaacs, assim como o produtor do evento, o diretor Reginald Hudlin, e o apresentador, o ótimo Chris Rock. Só esqueceram o essencial: o voto é secreto e novamente nenhum negro foi indicado. O único filme com temática negra, Straight Outta Compton — A História do N.W.A., foi indicado apenas na categoria de melhor roteiro, no caso, para dois brancos — Jonathan Herman e Andrea Berloff.

Um parêntesis: É sabido que no Brasil, filmes com atores ou temáticas negras são fracassos de bilheteria. A ponto de não serem valorizados. Este N.W.A., por exemplo, foi totalmente ignorado pelo público brasileiro.

De qualquer forma, foi armado o circo, esquecendo o essencial. A maioria dos seis mil sócios votantes da Academia são homens, com mais de 60 anos e não se muda isso de uma hora para outra. Por isso, se justifica que até hoje apenas uma mulher tenha sido premiada com um Oscar — Guerra ao Terror, em 2009, para Kathryn Bigelow. E ainda assim foi um erro, deveria ter ganhado o ex-marido dela, James Cameron, por Avatar.

Mas não é justo chamar a Academia de racista. O passado demonstrou isso. Já em 1939 eles davam um Oscar para uma atriz negra, Hattie McDaniel, por E o Vento Levou. Racista é a cultura norte-americana. Vejam o caso do candidato, e aparente favorito, Donald Trump, que deseja expulsar os imigrantes mexicanos. Justamente no momento em que os prováveis vencedores do Oscar de melhor filme e direção (Alejandro Iñarritu) e fotografia (Emmanuel Lubezki) são por O Regresso. Um pelo segundo ano consecutivo, outro pelo terceiro, ambos, possivelmente, quebrando recordes.

Sempre que me perguntam sobre o Oscar, faço questão de confirmar que ele é honesto. Você não pode comprar um prêmio. Explico: A Academia não tem a estrutura de um órgão político, os votantes (que não podem se oferecer para entrarem para a Academia, tem que ser convidados), moram em diversas partes do mundo e nunca se encontram. Votam pelo correio ou, agora, por e-mail. Não se conversam e, por isso, não pode haver negociatas, troca de favores. Como sucede com frequência em Festivais de Cinema. Ou assembleias de políticos. Justamente por isso que a Academia é honesta. O que não impede que seja também com frequência injusta. Tem uma enorme tradição de dar o Oscar errado, no ano errado, para a pessoa certa. E os prêmios, ainda mais os chamados especiais ou honorários, são consolações por falhas passadas.

Os exemplos são inúmeros. De Greta Garbo a Hitchcock, a casos mais recentes, como este ano, Gena Rowlands e Spike Lee (que já está com o prêmio e agora diz que não vai à festa — mas que também não fará boicote. É que logo após o escândalo das ausências, a situação ficou mais feia, com ameaças de impedir o voto dos mais velhos — muitas vezes cineastas lendários ou aposentados. O que seria ainda mais criminoso e injusto.

Certamente abrir mais os convites para jovens e minorias, estrangeiros e mulheres poderia ajudar, mas a discussão foi muito mal conduzida e é possível que a festa deste ano tenha reclamações, bate-boca, acusações e ausências (de gente conhecida e ofendida). Além de ousadias — como Lady Gaga concorrendo como autor de melhor canção -, fato é que existe uma serie de circunstancias onde não basta apenas arejar algumas regras.

Muito mais grave é o sistema de votação, que não é o tradicional, mas um emprestado dos australianos, muito confuso, aonde o votante vota em dez figuras, mas apenas as duas primeiras têm peso ao final.

Não deixou de ser um tapa na cara da Academia o fato de que O SAG — o Sindicato dos Atores -, em sua premiação anual, tenha votado nos negros que mereciam o prêmio, demonstrando que era muito fácil serem justos.

Coisas mais evidentes podem ser mudadas para um melhor resultado. Por exemplo, essa tolice de mudar o número de finalistas de melhor filme a cada ano, em vez de deixar o número fixo que deveria ser 10. Com apenas oito concorrentes, é normal para o espectador achar que este foi um ano mais fraco, com menos filmes merecedores do prêmio. Também é igualmente absurdo a Academia negar o espaço e a honra para filmes de gênero, ou seja, renegar o Terror, a Ficção Cientifica, a Fantasia.

Por que Star Wars — O Despertar da Força, já o filme de maior bilheteria em todos os tempos nos Estados Unidos e caminhando para recorde ainda maior mundial, só ficou finalista de prêmios técnicos? Assim como Mad Max: Estrada da Fúria, consagrado em Cannes, ou os filmes de super-heróis da Marvel. São eles que sustentam a indústria e, por tabela, a Academia. Isso também é rejeição.

Curiosamente, este ano da fúria havia começado tranquilamente, sem filmes favoritos, sem expectativas de confrontos. Quando quer, a Academia até saber ser justa e ousada, como agora, quando selecionou um filme brasileiro, outro que havia sido ignorado por nós, a animação O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, um filme delicado e poético, já de 2014, que ficou finalista da categoria e já tem 45 prêmios internacionais (inclusive o Annie, o Oscar de categoria, como produção independente). A ironia é que só agora, por causa do Oscar, está sendo descoberto por aqui.

E o prêmio vai para… Aproveite para assistir os filmes no Espaço Itaú de Cinema. Cliente Itaucard compra sua entrada no cinema com 50% de desconto. Acompanhe a cobertura do Oscar 2016 pelas redes sociais do Itaú. Durante a cerimônia, Itaú e Omelete trazem as principais novidades do tapete vermelho para você.

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