Público vai se identificar com as sensações que a Bienal de SP transmite, diz curador

Saiba como é o trabalho de curador na principal mostra de artes do Brasil, que esse ano trata das expressões artísticas frente às incertezas do mundo.

Jochen Volz é um simpático alemão que desde 2004 vive no Brasil. Com seu português impecável e um olhar afiado para como a arte contemporânea abarca questões de nosso tempo, ele foi diretor do Instituto Inhotim e agora é o curador da 32ª Bienal de São Paulo, que está aberta e de graça até 11/12, no Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera (SP). Visite!

Volz comanda uma equipe bem internacional, que conta ainda com Gabi Ngcobo, Júlia Rebouças, Lars Bang Larsen e Sofía Olascoaga, curadores que trabalham próximos aos artistas montando uma Bienal que se desdobra como um “jardim” pelo amplo Pavilhão, ajustando obras que tratam das diversas questões em torno da “Incerteza Viva”, tema da exposição sobre o qual ele bateu um papo com a gente. Incentivar a cultura #issomudaomundo

No manifesto da exposição vocês falam em “desvincular a incerteza do medo”. Mas a incerteza aborda temas como crises ambientais, xenofobia… Como tirar o medo de questões tão sérias?

A sensação de incerteza à frente dos nossos tempos é muito presente. Ao invés de ficarmos paralisados e não fazer nada, é importante encontrarmos caminhos para tornar essa constatação da incerteza em ação. Isso só funciona se a gente tira o medo. Porque com medo não se faz nada.

Há pouco espaço em nosso mundo para se falar da incerteza hoje. As discussões políticas ou midiáticas sempre fazem o contrário, falam em tom de certeza sobre as coisas, e isso é bastante pretensioso! Eu acho importante dar esse espaço para refletir sobre a incerteza, ao aprendermos a viver com ela, desvinculamos do medo. Acabamos entendendo que muitas coisas não têm controle, e que eu não preciso ficar com medo o tempo inteiro. Isso para mim é tornar a incerteza em ação.

E partindo do tema proposto, “Incerteza Viva”, como vocês comissionaram o trabalho dos artistas?

Os artistas não foram convidados para ilustrar uma teoria ou uma afirmação. Ao contrário, acho que a partir da discussão com os artistas, dos diálogos sobre as ideias que eles estavam desenvolvendo, nosso tema se firmou mais cada vez. Os artistas é que pautam a gente.

O curador Jochen Volz mora no Brasil desde 2004 e já trabalhou no Instituto Inhotim e para a Bienal de Veneza
“A 32ª Bienal de São Paulo — INCERTEZA VIVA se propõe a observar as noções de incerteza e as estratégias oferecidas pela arte contemporânea para abarcá- la ou habitá-la. Enquanto a estabilidade é compreendida como uma cura para a angústia, a incerteza geralmente é evitada ou recusada. As artes, contudo, sempre jogaram com o desconhecido.” — leia aqui o manifesto completo da 32a. Bienal de SP

Mas a curadoria também fornece insumos para os artistas, não?

Claro, a gente dá insumos, a gente provoca, a gente quer que as obras se desdobrem em algo mais. Normalmente a discussão começa a partir de uma pesquisa já desenvolvida ou de uma questão presente. E a partir disso a gente enfia o dedo, quer mais (risos).

É um diálogo. Eles influenciam no resultado da exposição, e nós um pouco nos desdobramentos das obras. Mas não é manipular, é mais uma discussão.

Tanto na equipe de curadoria quanto na lista de artistas, há um grande aspecto internacional na Bienal, não?

Até 2004 a Bienal de SP tinha um modelo de trabalhar com representações nacionais: cada país apresentava um artista oficial a ser representado no evento. A partir de 2006 isso mudou, a Bienal deixou de ser uma “janela pro mundo”, mas tornou-se uma plataforma para gerar discussões, diálogos e práticas entre artistas do mundo todo.

Acho que a Bienal nasceu e se entende muito como uma plataforma internacional, e isso é muito importante.

Jochen e a equipe de cocuradores: Júlia (Brasil), Gabi (África do Sul), Lars (Dinamarca) e Sofía (México)

A exposição foi montada no Pavilhão da Bienal inspirado em um jardim. A ecologia é a questão mais preponderante da “Incerteza Viva” do evento?

Quando a gente fala do jardim, o que me interessou foi usar o modelo do jardim na exposição baseado nessa ideia de que num jardim não se pensa em dimensões: pensa-se em escala, que é um pouco diferente. Você nunca vai reclamar que num jardim, ao lado de um bambuzal um jardim de pedras parece ridiculamente pequeno. Você vai aceitar que cada um tem seu tamanho, sua escala. É possível coexistir obras bem menores ao lado de obras gigantes, o pensamento é um pouco mais orgânico, era algo que a gente queria muito fazer.

O tema da ecologia está muito presente, talvez seja a questão mais gritante. Desde Franz Krajcberg, que fez uma série de trabalhos baseados em troncos de árvores encontrados em florestas queimadas, até Ruth Ewan com “Back to the Fields” (de volta ao campo), um calendário produzido na revolução francesa a partir das atividades agrícolas do ano, por exemplo.

Instalação da inglesa Ruth Ewan alterou calendário francês para estrutura com aspectos do clima e da agricultura

A ideia dessa exposição era ser um pouco um grito pela saúde do planeta, parafraseando o próprio Krajcberg. Mas há outros temas, como as formas de conhecimento diversas, o fato de que um conhecimento só não é mais suficiente para superar as questões do nosso tempo. É importante entender formas de conhecimento complementares, e não excludentes, pensar no quão importante é se apropriar de conhecimentos e culturas indígenas, de conhecimento do corpo, espirituais. Só a ciência não vai nos salvar, a gente precisa um pouco mais. E nossa ideia foi diversificar, trazer essas nuances.

Uma narrativa linear, eurocentralizada não funciona mais. Cada vez mais a gente percebe que a história do mundo é muito mais complexa, tem muito mais narrativas e histórias que precisam se coexistir. Eles podem se contradizer o tempo inteiro, mas a contradição faz parte do nosso mundo, no nosso tempo.

Como estrangeiro, você acredita que o Brasil é um local urgente para essas discussões?

Eu acho. O Brasil é um país que pelo tamanho, pela biodiversidade, pela diversidade climática e de espécies e de culturas, é o lugar ideal para falar disso. Mas também é um lugar que destrói muito o ambiente. Por exemplo, a construção de hidrelétricas, enquanto o Hemisfério Norte está desmontando barragens, aqui ainda se constrói. Enquanto na Europa a gente tem uma ideia de agricultura diversificada, o Brasil totalmente embarcou na monocultura. Isso, claro, não é culpa dos brasileiros. É um jogo de poder e capital mundial, mas o Brasil é um lugar muito bom pra se falar disso, porque as questões são muito aparentes.

Jochen entre as esculturas de tronco e madeira calcinada do polonês Frans Krajcberg, que vive em Nova Viçosa (BA)

Qual a expectativa da curadoria em relação à percepção da Bienal pelo público?

Primeiro, é importante a nossa tentativa de abertura, de ser arte para todos, isso é um desejo muito forte. Fizemos uma mostra bastante consciente, é uma Bienal com quantidade de público muito alta, um evento que traz um contato inicial com a arte contemporânea pra muita gente, com usuários não muito frequentes de museus.

É importante pensar em como criar uma linguagem e como formalizar a arte sem que não seja necessário se inteirar de uma teoria, ter lido algo. Eu acredito que o público vai encontrar aqui sempre algo que tenha correspondência com o que vive. Seja numa sensação particular, um sentimento com o que cada um está vivendo. Se isso acontecer, já está muito bom, pois é a partir disso que uma obra já começa a mover o pensamento, transformar questões…

Hoje em dia, em numa sociedade que quase sempre se divide, tudo é radicalizado. É muito importante, então, criar um espaço em as facetas que existem os extremos fiquem aparentes, esse é o papel da cultura. Espero que a Bienal consiga contribuir pra isso.

Neste sentido, a Bienal é um bom momento para observarmos a relação das pessoas com a arte contemporânea, não é?

Há muitas maneiras de se apropriar ou entrar numa obra de arte contemporânea. Primeiramente, a maioria das obras está numa linguagem contemporânea, a arte feita pelos nossos contemporâneos, então a gente se reconhece, sendo usuário de museu ou não. Importante entender isso não como um momento elitista ou difícil: é fácil, aberto, está tudo aí!

Que obras da exposição você acredita que melhor sintetizam o pensamento desta Bienal?

Temos alguns trabalhos históricos, como o de Viktor Grippo, pela terceira vez na Bienal. São duas obras desenvolvidas em 1977 para a Bienal; mostrados mais uma vez em 98. A a gente sentiu que, depois de tantos anos, seria necessário mostrar de novo as mesas de batata ligadas à energia, uma linda analogia entre o potencial energético de uma batata só e de muitas, fazendo a comparação entre uma única consciência e a consciência plural de uma comunidade.

Tem um outro trabalho lindo, também dos anos 70, de Leon Hirszman, o “Cantos de trabalho”. Ele registra o momento no qual a manufatura, a tradição, os direitos de trabalhadores estão sendo prejudicados pelos governos, pelo capitalismo, acho importante voltar a esse trabalho.

As batatas elétricas do argentino Víctor Grippo, expostas pela terceira vez na Bienal de São Paulo

Tem a obra de Carla Filipe, baseada numa pesquisa de plantas alimentícias não-convencionais, pensando em como esse trabalho talvez fale de um conhecimento esquecido, ou extinto, e a importância da arte em trazer esses conhecimentos de volta.

A pista de skate da Koo Jeong A, lá fora, que busca participar ativamente da vida do parque, um trabalho proposto para um grupo de usuários importantes do parque, os jovens skatistas. Tem muita coisa.

Não deixe de visitar a 32ª Bienal de São Paulo, é de graça, aproveite durante seu passeio no parque do Ibirapuera! Enquanto isso, leia mais sobre cultura aqui com a gente ;-)

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