Um brinde ao tempo

Por Elza da Conceição Soares

Itaú
Itaú
Dec 9, 2016 · 3 min read

Dona de um dos melhores discos de 2016 segundo o New York Times, a cantora Elza Soares escreveu uma delicada reflexão sobre a própria carreira e o tempo ;-)

O que é o tempo? Não sei. Tem dias que ainda nem nasci. Tem dias que me lembro como se fosse ontem, das brincadeiras na rua. Dos barracos de Moça Bonita em Padre Miguel. De cantar o hino, rouca, louca, nos Jogos Pan-Americanos de 2007. De tantas lembranças que nem perco tempo em lembrar. Tempo me lembra idade e idade eu já deixei de ter faz tempo.

Tenho curvas no corpo preservadas como há tempos atrás. Tenho marcas na mente que me fizeram enlouquecer a ponto de renascer nos últimos tempos. É lógico, meu bem. Uma mulher que viveu tanto em tão pouco tempo, tem marcas que não dá pra apagar. Pois é, né. Pouco tempo sim. Se medir em anos perco a conta. Se contar em tempo, é coisa pouca.

A vida é um sopro. Levar tudo a sério demais é perder tempo. Quando quis, amei. Quando amei, sofri. Quando sofri, cantei. Cantei até o fim e no fim, recomecei. Aliás, recomeçar é algo que faço bem. Talvez por não fatiar o tempo em anos. Nem sei a data que nasci. Não comemoro essas fatias. Desde menina foi assim. Sem aniversários. Os amigos se lembram, festejam, batem palmas. Eu vou dormir.

Sobre os amores? Não namoro a idade. Namoro o namorado. Nunca tive problema com isso. Meu coração não marca data, nem passo, nem nada. Meu coração marca momentos. Se o amanhã já foi e o ontem ainda nem chegou, my name is now*. Sentimento não usa calendário, meu bem. Preocupação com outro tempo que não seja o agora te inibe de viver o já e o já é um tesão.

A delícia de atravessar o tempo é observar o que muda depois de tantos anos. Ser mulher, preta, pobre e cantora naquele tempo, era uma ousadia. Agora, no meu tempo, no seu tempo, é felicidade pra se orgulhar. Sim. Não é fácil como não era lá atrás, mas somos juntas, juntos, juntes e podemos gritar, fazer barulho, ligar 180, denunciar. Levantar a mão cheia de dedo sujo pra cima mim, jamé mané. Pede o telefone e disca. Grita seu direito, chama a amiga preta, branca, ruiva, deem as mãos e lutem. Chama o cachorro e grita “peguixx guixx guixx”. O tempo me deu voz. O tempo nos deu vez.

Mas quanto tempo? Quanto ao tempo? Que tempo falta? Me falta tempo pra me preocupar com isso. Viva, viva. Viva. Viva sem tempo.

*Meu nome é agora


A vida não é medida em minutos, mas em momentos 😉 Veja nossa mensagem de fim de ano:


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