A Fotomontagem como Discurso Crítico

Annateresa Fabris


Texto por Manuela Rodrigues e Julio Boaventura Jr


Ao subir ao palco pela última vez no evento Ronaldo Entler agradece a participação do público e compartilha uma observação sobre os três dias de palestras, em que pode notar que as discussões que se iniciaram no palco e se estenderam pelas perguntas chegaram também aos corredores e bastidores. Nesse processo também vê uma ideia de montagem, nesse confronto de falas de pensamentos de autores e pesquisadores, sobretudo no descolamento desses diálogos dos autores que os proferiram.

Já Rubens, antes de apresentar a convidada, conta que buscaram dar continuidade a um posicionamento político assumido pelo evento na última palestra da edição anterior, em que trouxe publicações da época da ditadura, relembrando os horrores do período, no ano em que o Golpe completava 50 anos. E que nesse ano em que o regime democrático completa 30 anos, o tema da última palestra também mantém o link político com a fotomontagem.

Processo que em determinado momentos de sua trajetória assume um discurso politizado e transgressor, não só na essência da linguagem mas também em seus conteúdos como será colocado pela professora e pesquisadora Annateresa Fabris.

Foto de Felipe Gabriel

Em sua fala a professora fez um recorte da fotomontagem de John Heartfield ressaltando seu aspecto político e da de Jorge de Lima pelo aspecto poético e onírico.

Antes de entrar na análise, fala do conceito de Fotomontagem, que surge paralelamente a fotografia, como princípio de criação de imagens obtido a partir da justaposição de duas ou mais fotografias sobre o mesmo plano visual. Com elas os fotógrafos e artistas poderiam contar histórias, representar paisagens, etc. mas ao mesmo tempo expressar algo que não existe, revelar contradições de sistemas, denunciar, criticar promover, descobrir e representar o real. E também destaca a diferença entre colagem e fotomontagem.

"Enquanto a colagem explora as qualidades materiais dos componentes da obra, a fotomontagem está interessada na qualidade representativa das imagens
que se apropria ou que produz para um fim específico."

Ao contextualizar a fotomontagem de Heartfield, a professora destaca o período de convergência entre a atitude anti-artística e a radicalização política que tomava conta de Berlim durante a primeira guerra. Nesse momento surge uma nova concepção de arte voltada para as massas e interessada na produção de obras de propaganda, sem a preocupação com sua permanência futura.

Ao mostrar algumas imagens de John Heartfield vemos que a fotomontagem é transformada em arma política. As imagens de circunstância, produzidas de acordo com os desdobramentos políticos do movimento social democrata e futuramente nazista, que aliadas as legendas também criadas por ele, segundo Annateresa tem o mesmo tipo de recepção das charges políticas atualmente.

"Heartfield opta pela fotomontagem porque concebe o mundo como uma montagem social e material que pode ser unificada só no plano dos sentidos, na anotação estética, o que explica a busca de uma visualidade múltipla e fragmentaria capaz de responder as novas significações sociais e espaciais derivadas da experiência urbana"
Foto de Felipe Gabriel

Ao concluir a professora traz uma citação de Alfredo de Paz, que ao analisar a obra de Heartfield fala da necessidade do artista de violentar a realidade produzida pela fotografia. E que essa violência torna visível os fio complexos do real na dialética sempre diferente da desmontagem e remontagem.

Já na fala sobre Jorge de Lima, Annateresa destaca seu caráter surrealista ao produzir imagens impregnadas de ambiguidades, de signos conflitantes, e disfarces, respondendo diretamente da concepção de imagem formulada por Breton, diferentemente do realismo de Heartfield.

"A fotomontagens de Jorge de Lima deriva claramente dos mecanismos da vida psíquica […] do mesmo modo que no sonho, a realidade é decomposta a partir de fontes diferenciada em geral revistas e jornais brasileiros e estrangeiros, e é recomposta em uma nova ordem de maneira insólita e enigmática tendo como resultado uma combinação do imprevisto com a lógica."

A professora também destaca que Jorge de Lima não era um simples fotomontador, era também escritor, pintor e poeta que já utilizava o recurso da fragmentação e a desarticulação em seu universo poético e pictórico. E que a opção pelas imagens fotográficas nas fotomontagens de Lima "respondem a vontade de por em discussão a convenção representativa da arte realista, e de introduzir um princípio de desordem não apenas na realidade, mas na própria imagem que deveria sair renovada pelo choque perceptivo provocado na visão retiniana".

E ao concluir sua fala aproxima os dois tipos de fotomontagem analisados sob os aspectos da crítica e de sua relação com o realismo das fotografias utilizadas.

"A fotomontagem não preconiza nenhuma estética particular a não ser a da livre associação que lhe permite desmontar o sistema de comunicação vigente no caso de Heartfield e a de criar visões perturbadoras no de Lima. Máquina política e máquina onírica, a fotomontagem é portadora nos dois casos de possibilidades críticas inéditas alicerçadas em fontes realistas profundamente transfiguradas em termos óticos e conceituais."
Foto de Felipe Gabriel

Cobertura: Oitenta Mundos.