Editar, montar, compor: a coexistência das imagens
por Rubens Fernandes Jr. e Ronaldo Entler
O olhar canônico toma a fotografia como uma arte de imagens isoladas. Para ele, uma boa foto se basta: contém em si tudo o que é essencial à interpretação, um instante-síntese do fato registrado, um arranjo bem resolvido de seus elementos formais. O olhar irrequieto, por sua vez, busca na fotografia justamente as frestas por onde o sentido transborda para fora de cada enquadramento e estabelece relações entre as imagens, para nelas descobrir mais que um conjunto de instantes oportunos captados por cliques certeiros.
O cinema e as experimentações das vanguardas já demonstraram que outras linguagens se desdobram da fotografia quando suas formas se articulam. Descobrimos também que, numa caixa, numa parede, num livro, numa projeção, num arquivo, na paisagem urbana, fotografias se encontram e negociam entre si pensamentos que não estavam contidos em nenhuma delas isoladamente, e que tampouco pertencem a um único autor.
O fazer fotográfico se assume como um processo cada vez mais complexo, que envolve outros atores — editores, curadores, críticos, outros artistas — e uma temporalidade muito mais extensa. Porque é preciso retornar muitas vezes a um acervo, ou é preciso deixar que as imagens circulem e se percam, para nelas descobrir um discurso que se constrói por caminhos não planejados e que nunca se resolve em definitivo.
Editar, montar, compor são procedimentos que exploram as capacidades desse olhar irrequieto que aprendeu a enxergar o que existe entre uma foto e outra, e também entre a fotografia e outras linguagens. São também modos de renovar, diante do excesso e da fragmentação das imagens, a responsabilidade de arrancar delas uma narrativa que produza sentido.
O IV Encontro, Pensamento e Reflexão na Fotografia acontece nos dias 28, 29 e 30 de Maio no MIS-SP.
Acompanhe a cobertura do IV Encontro aqui.