Fotolivros: Jovens autores

Uma conversa entre Iatã Cannabrava, Isadora Brant, Felipe Russo e Gilvan Barreto.


Texto por Manuela Rodrigues e Julio Boaventura Jr


No início do bate papo proposto por Iatã, foi exibido um trecho do filme Fahrenheit 451 (temperatura de combustão do papel) é a adaptação cinematográfica do romance homônimo de Ray Bradbury, dirigida por François Truffaut, na qual um grupo de bombeiros com esse mesmo nome faz patrulhas para descobrir livros escondidos pela população e queimá-los.

Na sequência Iatã apresenta os jovens autores, Isadora Brant, 28 anos, Felipe Russo 35 anos e Gilvan Barreto 41, e para começar a rodada, pede aos convidados que digam porque fizeram fotolivros, porque escolheram editar?

Isadora: Não sei explicar porque editar. Comecei a fazer isso com minha irmã, para dar uma ”solução” as coisas que estávamos produzindo e não tinham forma, e achamos e que o suporte um livro ou zine fosse dar conta. Nesse trabalho, descobrimos que editar é um outro trabalho, e isso muda completamente o que você vinha fazendo.

Felipe Russo, inicia sua fala mencionando o artigo de Gerry Badger na revista Zum #8 onde diz que talvez o espaço essencial da fotografia seja o livro. E completa:

Felipe: Se a fotografia é essa mídia, ou linguagem que se presta cada vez mais a narrativa, o livro vem quase naturalmente como um espaço pra ela. […] E isso desloca o lugar do prazer em ser fotógrafo, que não está mais em só produzir na rua, mas também em editar, em dar e descobrir o sentido das coisas. […] No meu processo o livro chega como uma concretização do trabalho fotográfico.

Foto de Bea Rodrigues

Ao passar a palavra pra Gilvan Barreto, Iatã pede que ele fale mais da relação da política com o seu trabalho, sobretudo no trabalho Moscouzinho seu primeiro fotolivro.

Gilvan: Eu tenho uma relação com livros de maneira geral que é antiga, e até começa fora dos livros de fotografia, eu preferia a leitura e compor mental-mente os ambientes. mas acho que demorei muito pra colocar essas coisas no meu trabalho, e foi com Moscouzinho que consegui talvez.

A relação com política veio da minha família, meu pai era politico e eu tinha certeza que também seria um. Nesse livro eu mostro uma redação que fiz com 9 anos falando sobre o FMI, enquanto meus amigos falavam de futebol e guerras espaciais.

No fim de sua fala Gilvan comenta que em relação ao nome "fotolivro"vem tentando não usar, pois ressalta que dentro do trabalho tem literatura, tem cinema, tem intenções de outras naturezas. E que quando nomeia dessa forma é como se estivesse fechando as possibilidades do trabalho.

Foto de Felipe Gabriel

Em cima desse pensamento Iatã pergunta a Isadora sobre a classificação que dá ao seus trabalhos, que chegaram até ele como fanzines, mas que em sua análise são fotolivros, mas que apresentam uma forte caraterística de fugacidade

Isadora: hoje agente resolveu chamar de publicação, assim não estamos nem em um lugar nem no outro. Pois acho que não é tão simples e rápido como fanzine, nem a síntese de um grande trabalho. Acho que tem essa característica mais fugaz porque é isso mesmo, em alguns meses temos um trabalho, e isso acaba saindo no livro. Mas pra mim tudo é livro, se tem páginas, pode ser chamado de livro.

Sobre a definição das palavras Felipe acredita que o nome fotolivro veio pra dar conta de uma produção que acontece anterior a classificação, e que sempre lidou com essas fronteira.

Felipe: Você não faz pela ruptura, mas porque é dessa maneira que consegue comunicar.

Gilvan: Também acho que não é vontade de quebrar barreiras, mas esses nomes representam alguém. […] no meu caminho foi a questão de que aquilo pudesse me representar mesmo. […] E se tem um momento que é ruptura, é uma questão sua, de você usar suas ferramentas como quer. Posso dizer por exemplo que pra mim, o trabalho nasce da palavra, é fotografia, mas paquera com cinema, é roteirizado e editado como tal, mas tudo aconteceu pela intuição, sem grandes referências de outros livros, filmes, etc.

Em outro momento da conversa Rubens Fernandes Jr coloca para a roda a questão da relação entre produção e consumo. De pensar sobre essa produção customizada que se tornou o fotolivro, de pequenas tiragens e com mais qualidade que os livros de fotografia publicados anteriormente. E como isso influenciou na relação desses produtos no mercado, mesmo de publicações mais antigas que ganharam status e preço de fotolivro.

Gilvan: Um dia desses comentei algo de fotolivros com uma amiga que disse, Por que não chama de livro de fotografia? O que é um fotolivro? E fiquei numa enrascada. […] vejo que tem um procura de mercado e é ótimo, não vejo com bons olhos a palavra, mas acho bom que se difunda, e se fale muito. Temos muita dificuldades de entrar no mercado, então produzir é algo muito arriscado. Mas pra mim o fato de ter poucos exemplares faz com que a distribuição seja praticamente entre amigos, e pessoas mais próximas, que podem dar um feedback.

Foto de Bea Rodrigues

Iatã relembra que durante a pesquisa que originou o livro, "Fotolivros Latino-Americanos" essa questão surgiu e chegaram a dizer que por uma tradição francesa seria mais obvio chamar de livro de fotografias, e pela origem saxônica de fotolivros, e que a última acabou ficando mais pela origem dos pesquisadores que vieram para o Brasil na época. Mas conclui:

Iatã: No Brasil poderíamos ter criado qualquer nome. Acho que a nomenclatura vem em um momento de necessidade, de utilidade, e as vezes fica, outras passa. Mas de maneira nenhuma a cultura que se proproe do fotolivro é uma cultura monotemática. Um dos livros que mais amor tenho na minha coleção é O mergulhador de Vinícius e Pedro de Morais, pai e filho, poeta e poeta, fotógrafo e fotógrafo os dois lidando com imagem e poesia cada um a sua maneira.

O mediador ainda destaca que o modismo tem que ser analisado a serviço do que está. E que se por um lado aumentou os preços, por outro serviu para vender livros como nunca. Então propõe aos convidados uma questão sobre o hyperdesing, para dizerem se a forma não está se sobrepondo ao conteúdo de maneira exagerada nesse movimento recente.

Isadora: Pra mim design é conteúdo, é política também dentro de um livro. Então acho importante pensarmos não só no conteúdo da foto. E hoje no workshop editando junto com os alunos chegamos a conclusão que geralmente todos chegam nesse processo, que não tem uma foto boa, e sim uma foto que fica interessante ali onde é colocada, dentro de um contexto.

Já em relação a demanda, Isadora diz pensar invertido, que não é porque as pessoas agora acham legal consumir fotolivros que os fotolivros existem. Pra ela o mais interessante é que as pessoas achem que esse formato está servindo ao trabalho delas.

Foto de Bea Rodrigues

Na primeira pergunta da platéia, Débora diz que quando viu uma página do livro do Gilvan dizendo para que fosse passado a diante, para "deixar a viagem do livro continuar" se perguntou sobre qual seria o destino de um fotolivro. E questiona os convidados: Vocês pensam pra onde o fotolivro vai ou ele deixa de existir no momento em que é impresso?

Felipe: o livro pra mim é uma carta direta, quando eu entrego pra alguém é como seu eu estivesse sentado de frente para a pessoa conversando sobre o que eu estou pensando. E todo o formato, o tato, a sequência, o ritmo das paginas, os espaços brancos, enfim tudo faz parte dessas conversas. O que eu quero é que o livro chegue nas mãos dessas pessoas que estão querendo conversar.

Gilvan: O Rubens falou sobre o over design, o modismo etc. e eu venho pensando muito nisso sob um viés econômico, político e social dessa produção. Por um lado é ótimo que nossa produção gráfica se desenvolva, mais tecnologia e que os custos diminuam. Mas você pega um prêmio público como o Marc Ferrez, com uma grana curta e se continuar assim as pessoas vão parar de projetar livros par ao prêmio porque você tem que doar o livro. E pra mim isso é um contrassenso, banaliza o produto, não consegue entrar na livraria, enfim vira um brinde.

Então o que eu propus foi tentar contornar isso, já que é gratuito, peço para que quando a pessoa canse do livro ou lembre de alguém que vai gostar, passe a diante, e registre nessa tabelinha que vai junto com o livro. Pois como eu peço pra tirarem foto com hashtags, eu vou poder acompanhar por onde anda essa garrafa jogada ao mar.

Com a palavra, Iatã reitera que essa discussão é muito importe e mais do que pensar onde vai para o livro, é preciso entender é de que maneira os sistemas vão permitir que nós rearranjemos tudo isso entre sebos, lojas, livrarias e outros meios de distribuição. E que de fato colocar um prêmio que exige a distribuição gratuita é contra-senso ao sistema de circulação que não fomos nós que criamos.

Chegando ao fim do bate papo, em uma última colocação da platéia Renata Baralle, coloca em cheque esses "statements"que vão sendo criados, como o de que o fotolivro é um fenômeno mercadológico, ou que é a fotografia saindo da parede, sem base em pesquisas mais profundas.

Renata: Acho que o fotolivro é algo que está precisando muito de pesquisa e não de frases feitas. Me parece que a academia é uma instituição muito blindada a esse tipo de novas ideias, ou seja, falta pesquisa sincrónica, para explicar o que está acontecendo no nosso tempo. […] Acho que esse tipo de evento deve incentivar pesquisas aprofundadas para explicar as coisas com base e não com achismos, porque pra mim isso é o que destrói o pensamento, esse achar e não provar.

Em sua última fala Gilvan ressalta que tudo o que falou foi no sentido de democratizar o conhecimento sobre a produção de fotolivros, sem seguir modelos, mas sim para criar novos modelos, e que todo mundo pode fazer. Mas por outro lado entendeu que "nem tudo vai dar num livro".

E Iatã encerra a mesa lembrando que a fala de Gilvan contradiz lindamente o tema do encontro de 2014, que dizia que tudo no mundo existe para acabar em um livro de fotografias.

O que mostra que a proposta do encontro está sendo cumprida, evoluindo a discussão sobre o fazer fotográfico a partir de debates, questionamentos e contrapontos como os colocados nessa mesa.

Foto de Bea Rodrigues

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