Narrativas Visuais

Marcelo Tinoco e Eustáquio Neves


Texto por Manuela Rodrigues e Julio Boaventura Jr


Para abrir o terceiro dia do evento Rubens relembra o tema desse encontro, editar, montar compor, e fala como a curadoria a partir dessa ideia buscou artistas que trabalhassem de várias maneiras e com diferentes procedimentos. Aspectos ressaltados nas obras dos dois artistas convidados Eustáquio Neves e Marcelo Tinoco.

Foto de Felipe Gabriel

Marcelo Tinoco

Para iniciar sua fala Marcelo diz que a fotografia está dentro de nós, que é um conceito que habita nossa mentes, pessoal e intransferível. Também nos conta que desde criança nunca se contentou em apenas brincar com bonecos, tinha que construir um cenário. Sendo assim, estava sempre a procura de um universo visual e uma história pra contar, pois segundo ele "para ser, é preciso pertencer".

Esse processo se manteve em sua produção de imagens, como Rubens bem descreveu: "Marcelo usa a manipulação digital de elementos plásticos figurativos para explorar a fronteira entre o real e o ficcional"

"Dificilmente encontro um imagem totalmente pronta, preciso completá-la. Então começo buscar ao redor ou em outros locais os complementos e começo a estabelecer uma relação entre as imagens, criando uma narrativa."

Para isso o artista cria um "dispositivo de tempo e espaço", para segundo ele poder alterar a sequencia dos fatos e se deslocar na geografia, mas sem perder a essência dos locais e personagens.

Na sequência compara suas criações aos Dioramas, curiosamente inventados por Louis Daguerre, considerado o criador da fotografia analógica, e definidos por Marcelo, como representações realistas tridimensionais de paisagens eventos históricos, animais, plantas, cidades, florestas, e etc. os quais geralmente possuem um fundo infinito pintado a mão com várias camadas de elementos dispostos em diferentes planos, gerando profundidade, e com a iluminação adequada cria-se o efeito realista e tridimensional.

Foto de Felipe Gabriel

Para realizar o mesmo processo com seu trabalho fotográfico, e gerar resultados belos (para ele os mais próximos ao natural e espontâneo), passa a ser um fotógrafo camuflado e invisível, para registrar as cenas sem ser notado. E ao mesmo tempo multidisciplinar (como Daguerre também era ao desempenhar além da fotografia, a poesia, pintura, etc), atuando como botânico, arquiteto, historiador, taxidermista, e acima de tudo um curioso.

Marcelo ainda faz uma breve análise sobre a história da fotografia, destacando 3 fases: na primeira juntam-se ótica e pigmento, nesse momento a produção de imagens se dá através de um processo manual lento e muito custoso; depois junta-se ótica e química, com o desenvolvimento das lentes e processo de revelação mais rápidos e acessíveis, mas ainda analógicos, e finalmente vivemos a fase da junção entre ótica e silício, na qual as câmeras tem hardwares e softwares e reduziram drasticamente o tempo para a produção de imagens e o custo dos equipamentos mais simples.

Pra ele essa mudança trata basicamente de tempo e velocidade. Fazer mais a um custo menor, vender mais câmeras e computadores. Mas o que para muitos é visto como um fator prejudicial a fotografia, para Marcelo a era digital apresenta outro lado muito benéfico, e de certa forma perdido ao longo do tempo.

"Hoje a foto retoma seu caráter multidisciplinar, a habilidade manual volta à cena com o pincel digital […] e o grande poder dos softwares de tratamento, nos proporcionam tempo para testar fusões, sobreposições e composições, ampliando o nosso espectro para a produção de narrativas fotográficas."

E é com base nesse retomada do poder de criação de imagens, que o artista desenvolve seu trabalho, cujas fotos chegam a apresentar em média 400 layers, em um processo artesanal e meticuloso que geram imagens com extraordinário poder narrativo.

Foto de Felipe Gabriel

Eustáquio Neves

Formado em química industrial e fotógrafo autodidata, antes de sua apresentação o curador Rubens Fernandes Jr destacou que a formação em química deu a Eustáquio plenas condições para iniciar sua trajetória na fotografia, a partir das manipulações de produtos que começou a testar no fim dos anos 80.

No início de sua apresentação o fotógrafo diz que por muito tempo uma das coisas que mais lhe incomodavam na fotografia era ter que fazer trabalhos por encomenda, que lhe impunham um formato pré determinado. No entanto ultimamente passou a achar cada vez mais interessante pelo desafio de ter de criar algo e poder usar da liberdade pra fazer o que sabe.

Na sequência mostrou algumas imagens de seu último trabalho sobro o cais do Valongo no Rio de Janeiro (onde recentemente descobriram um grande cemitério de escravos, uma vala comum onde os que chegavam mortos nos navios eram jogados)

"Passei uma semana no Rio para iniciar o trabalho, levei câmera para fotografar e filmar, mas não fiz nada disso só gravei o som do mar. Mas durante a viagem descobri o que queria fazer, só entendi que não precisava fazer ali."

Na série intitulada "Cartas ao mar" Eustáquio produziu uma série de retratos, pensados para remetem a documentos. No processo coletou imagens de pessoas negras de seu arquivo, e as revelou em papéis emulsionados que trouxe em uma viagem da Holanda em 2008, superpostos sobre a moldura de lápides que fotografou em cemitérios da cidade em que mora, Diamantina -MG. Para finalizar carimbou as imagens com carimbos criados com o fundo de um saleiro que estava a mão em sua casa.

Como dito por Rubens: seu processo reflete o experimentalismo e a incorporação do acaso no manuseio dos produtos químicos e elementos que se juntam para potencializar a forca expressiva de suas imagens.

O curador pede ainda que Eustáquio comente a parente repetição em seus trabalhos, das molduras e texturas utilizadas, e o fotógrafo explica que quando idealiza uma serie dessa, dá um caráter uniforme com a ideia de contar a história com fragmentos. Fragmentos esses acondicionados em um "formato padronizado mas ao mesmo tempo fora de padrão" para criar uma ideia de narrativa.

Ainda sobre o processo apesar de grande parte de seu trabalho ser analógico, Eustáquio diz que se interessa muito pela possibilidade de transitar entre diferentes mídias. Portanto a chegada do digital pra ele é mais uma ferramenta para agregar as suas composições.

Ao falar de um outro trabalho encomendado pela Revista Zum para dar continuidade a uma série antiga sobre futebol, Eustáquio lembra que nunca encerra suas séries, mas as abandona até que queira ou peçam para retomá-las em algum momento.

Já no fim de sua fala Eustáquio destaca a função da construção de suas imagens, para mostrar para o outro como lida com o tempo dessas imagens.

"O instantâneo pra mim passa por vários instantâneos. O tempo que você pensa uma imagem, não é só o tempo do instantâneo, ela tem toda uma história e eu tento trazer em uma missão quase impossível de passar isso para o outro, mas é uma tentativa de replicar o que o tempo me conta sobre essas imagens."

Cobertura: Oitenta Mundos.