O dia em que meu pai encontrou seu jeito de se posicionar sobre minha sexualidade

Crônica

Passei boa parte da minha vida imaginando como seria a reação do meu pai quando ele finalmente descobrisse que sou gay. Me bater, me expulsar de casa, parar de falar comigo, tudo isso me passou pela cabeça. Sou o caçula de cinco filhos, tenho um irmão e três irmãs. Infelizmente não conheci a mais velha. Meus pais são casados há muitos anos, no cartório e na igreja. Somos uma família tradicional, eu diria, embora não possa dizer o que isso realmente significa, já que toda família tem sua particularidade. Nenhuma família é perfeita.

Meus pais foram excepcionais. Nem sempre podiam me dar o que eu queria, mas sempre tive o que precisava. Deveriam ter conversado mais comigo, muito mais, mas tudo bem. Meus irmãos também sempre foram muito legais. Então por que eu tinha tanto medo de ser descoberto em meu tão odioso crime de ser gay? Porque a sociedade quis assim e não se importou se eu estava sofrendo. E a sociedade estava dentro da minha casa.

É claro que negar minha personalidade na adolescência não me serviu de nada. Me obrigar a gostar de garotas não foi útil de modo algum. Isso resultou apenas numa frustração enorme que foi se transformando numa violência terrível que eu mesmo praticava contra mim. E eu não podia aceitar, nem por um segundo, que aquilo não era tão ruim assim, porque eu queria ser feliz, queria construir um futuro, deixar meus pais orgulhosos, retribuir de alguma forma. Como seria possível fazer tudo isso sendo gay?

Eu era apenas um adolescente que já tinha problemas em socializar. Não sabia fazer amigos, não conseguia me sentir legal o bastante. E, para completar, quando estava prestes a fazer 12 anos, me mudei para bem longe. Depois, com 15, em pleno Ensino Médio, voltei. Nenhum lugar era o meu lugar.

Na escola, eu me sentia deslocado. Em casa, eu me sentia inadequado. Qual era meu papel? O que eu estava fazendo naquela família além de gerar gastos? Eu sei que é idiota e surreal, mas eu pensava que meus pais não deveriam gastar dinheiro com um filho gay. Só estou escrevendo sobre isso para que, caso algum adolescente que pensa da mesma forma encontre minha postagem, saiba que está errado.

Por que deixei que a intolerância da sociedade me afetasse tanto? Porque eu não tinha nenhuma outra referência. Ou melhor, tinha referências ruins, como os gays estereotipados dos programas de humor. Um dia me cansei. Estava numa missa e ouvi o padre reclamar que havia realizado um batizado e o padrinho tinha um jeito meio estranho (ele estava reclamando que o homem era gay) e pensei: “Cara, o que estou fazendo aqui? Esse lugar não é para mim. Eles não me veem bem aqui”. Não voltei mais.

Logo depois veio a universidade e um mundo um pouquinho maior. Nessa altura eu já havia mais do que entendido o que ser gay representava para o mundo. Foi tão bom quando percebi que não precisava significar o mesmo para mim. Havia percebido que ser gay era apenas uma das minhas muitas características.

Mas guardei isso mais ou menos para mim. Nunca foi algo falado abertamente para minha família. Eles foram se dando conta aos poucos. Minha irmã (que me pegou assistindo pornô gay), minha mãe (numa ligação telefônica em que chorei muito), a outra irmã (que me viu com um rapaz), meu irmão (?) e…

Há alguns dias, quando finalmente acordei no meio da tarde e consegui me convencer a sair do quarto para comer, meu pai foi até onde eu estava, sentado à mesa, e começou a falar sobre alguma coisa banal. Ele gosta de fazer isso. Vê algo na TV e então deixa sua opinião. Por exemplo, suponhamos que o programa seja um alerta sobre os perigos do uso de drogas, ele vai dizer: “o cara tem que ser esperto e não entrar nessa”. O que ele quer dizer é: “você tem que ser esperto e não entrar nessa. Filho, por favor, não use drogas!” Aprendi isso com ele. Eu costumava deixar pistas sobre mim em comentários que, à primeira vista, pareciam conversas aleatórias. Acho que ainda faço isso.

Naquela tarde, no entanto, o comentário do meu pai se alongou mais do que o normal e de repente estávamos falando sobre o curso de Psicologia. É mais uma tentativa minha de encontrar algo que me interesse. Completei 26 anos no dia 07 de março e não consigo me relacionar com essa idade. Ok, sei que o tempo de uma pessoa não funciona assim, não é cronológico como no relógio. O fato é que, depois de me formar em Letras em 2013 e ter trabalhado como professor de Língua Portuguesa, não estava me sentindo realizado (nem sei se essa é a melhor palavra). Não quis tentar o mestrado em Teoria Literária, não quis prosseguir como professor. Encontrei um emprego de vendedor de livros e por três anos fui o cara da livraria. Sempre pensando “Ok, o que minha família acha disso? O que meu pai acha disso?”.

Meu pai, quando me apresentava a seus amigos quando eu era criança, costumava dizer que eu era muito bom na escola e só tirava notas altas. Eu queria deixá-lo orgulhoso de outras formas (aprendi a gostar de MMA para assistir às lutas com ele). Queria ser muito bom com futebol, mas sempre detestei esse esporte. Queria ser corajoso e extrovertido, mas sempre preferi ficar em meu quarto, lendo. Quando disse a ele que gostava de arte, ele não me entendeu. Quando expliquei que queria ser escritor, ele respondeu que esperava que eu me tornasse engenheiro ou advogado. Mesmo assim me apoiou na escolha do meu curso, Comunicação Social/Jornalismo, e depois em Letras e Literaturas de Língua Portuguesa.

Mas minha vida estagnou, mesmo com todo o apoio. Não sei qual é o problema comigo. Fui uma criança feliz, um adolescente frustrado e um jovem adulto massacrado. Me flagrei sem expectativas, vendo meus sonhos morrerem. Estou tentando me mover, preciso provar a mim que estou vivo. Então pensei que talvez a universidade possa me trazer um objetivo, porque gosto de estudar, de estar envolvido com pesquisas, livros e seminários (amo apresentar seminários). Por isso me inscrevi no ENEM e pedi demissão. Estou tentando me reinventar. Estou ressignificando.

E, naquela tarde, meu pai me disse algo como:

– Você tem que fazer o que gosta. Mas tem que se entregar a isso.

Percebi de imediato o real objetivo daquela conversa e apenas continuei ouvindo, olhando dentro dos seus olhos. Estava paralisado. Havia esperado por aquilo há anos.

– Você acha que não, mas eu sei dos seus problemas, desde quando você era criança. Você fica triste, preso no quarto. Acha que não, mas eu percebo isso. Você não precisa ficar triste com isso. Eu te amo, você é o meu Jeffinho e sempre vou cuidar de você (como eles me chamavam quando era bebê). Eu só te peço uma coisa, que você seja feliz, que viva!

Foi muito diferente do que eu imaginava, mas eu não deveria ter imaginado que seria diferente do que foi. Eu deveria ter imaginado algo legal. O tom da conversa, o cenário, a ocasião. Meu pai estendeu a mão para um aperto, mas me levantei e o abracei.

Minha vida é um turbilhão. Nada faz sentido. Às vezes preciso me esforçar ao máximo para sair da cama, outras vezes sinto uma necessidade imensa de desaparecer. Não sei exatamente o que sinto e acho que é uma coisa comum. Acho que todo mundo se sente assim. E não estou quebrado por ser gay, minha vida não se resume a isso, embora a sociedade tenha feito uma tempestade num copo d’água. Obrigado, seus idiotas, por serem tão intolerantes, vocês causam traumas psicológicos nas crianças e nos adolescentes, sabiam?

O fato é que, cara, apesar de tudo, as coisas deram certo.

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