Anjos ofuscados

Jogo da Vida
Sep 8, 2018 · 5 min read

(Por Giulia Zanetta, uma então estudante de 14 anos em minhas aulas de redação na saudosa Escola Americana de Santos. O coração e sensibilidade enorme dela fizeram dela médica hoje.)

Palhaço sem risadas. Vela sem fogo. Ator sem público. Televisão sem audiência. Surfe sem grandes ondas. É assim que se sentem a maioria dos atletas brasileiros. Enquanto isso, outros, que se dizem “os melhores do mundo”, não sabem o que é viver de verdade, o que é ter raça, o que é realmente representar o nosso país.

Os valores de nossos empresários estão invertidos. Eles preferem gastar milhões em pessoas que se envolvem em escândalos ou que só mostram seu potencial quando lhes convém financeiramente. Em contrapartida, há milhares de brasileiros loucos para saírem mostrando ao mundo que sabem jogar e lutar, mas não recebem um centavo; muitos até passam fome.

Por que não parar um pouco de pensar em dinheiro? Que tal valorizar um pouco os sentimentos, as dores, as necessidades e as qualidades dos brasileiros de coração e alma? É por essas e outras perguntas que o Brasil ainda vai demorar muito para crescer. Pelo menos enquanto as pessoas mais ricas em sentimentos, em valores, em raça e em falta de oportunidades não forem olhadas, cuidadas e ajudadas.

É preciso de um pouco mais de amor aos nossos possíveis e comoventes campeões.

Giulia fez esse texto em 2008, depois de conhecer a história de Daniel Sabóia (o lutador da foto). Daniel é um boxeador que sobrevivia com uma garra e condições de vida quase inacreditáveis. Leiam sobre ele na reportagem abaixo, publicada no Jornal da Tarde em 21/06/2007:

Flanelinha de Ouro

Por Cosme Rímoli

Rua Baguari, 80 — quarto dois da pensão. Tatuapé. Cheiro de suor e ração de cachorro no apertado cômodo de três metros quadrados. Colchão no chão, geladeira velha e vazia. Um televisor pequeno e de imagem desfocada. A velha Bíblia aberta em cima da única cômoda desgastada pelo tempo. No centro da casa, o objeto de salvação: luvas e o saco de areia. Esse é o endereço de mais um herói anônimo no boxe brasileiro.

Quem mora ali é Daniel Sabóia, 22 anos, 5ª série no supletivo. Ele sobrevive com R$ 300 que consegue como flanelinha da rua Maria Eugênia, no Tatuapé, em frente a uma igreja. Sabóia foi esquecido. “Às vezes eu sento no meu sofá e choro abraçado com meu cachorro, o Spike. Nasci para lutar, boxe é minha vida, mas muitas vezes me falta até comida. Nunca sei se vou almoçar ou jantar. Cada dia é uma luta para sobreviver. O sonho da minha vida é ganhar um emprego para poder ter alimentação adequada para lutar. Já desmaiei de fome. Mas não desisto”, diz com a voz embargada e lágrimas no olhos.

“Ele é o mais jovem campeão da história do boxe do Brasil. Ganhou o título nacional de meio médio com 20 anos — há dois, portanto. É corajoso. E essa história de miséria no boxe nacional é a pura realidade. O Daniel é um sobrevivente. Se tivesse patrocínio, iria longe”, diz o vice-presidente da Confederação Mundial de Boxe, Newton Campos.

A história de Daniel tem momentos dramáticos. “Minha mãe morreu quando eu era pequeno aqui em São Paulo. Depois, nós fomos para o Sertão Nordestino, em Crateús-CE. Meu pai foi trabalhar na roça. Mas por falta de dinheiro, voltei com mais três irmãos. Outros três ficaram com ele. Viemos para ficar com a minha tia em Itaquera.”

Com oito anos, subnutrido, a tia o colocou para trabalhar. “Havia um fotógrafo que era dono de um jegue e um carneiro. O jegue chamava Sabonete e era pintado de zebra. A gente pintava o carneiro, o Virgulino, de amarelo e vermelho. Eu arrastava os dois por toda a Itaquera para tirar fotos com crianças. A gente cobrava R$ 5. Sempre com uma fome danada.’” Isso durou até os 12 anos. Também trabalhou na feira. Período farto. “Adorava o final da feira. Podia pegar um monte de frutas e de coisas que seriam jogadas fora. Comia feito louco e ainda levava o que sobrava para casa. Não tinha vergonha.”

Daniel procurou outros empregos, mas nunca encontrou. Sozinho, escolheu a rua Maria Eugênia no Tatuapé e passou a viver dos trocados de quem estaciona. Era flanelinha. Aos 16 anos, viu uma luta entre Mike Tyson e Hollyfield.

“Eu nunca fui de briga, mas sentia que tinha muita força dentro de mim. Tenho facilidade em trocar socos. É uma coisa natural. Sinto que nasci para lutar. E fui bem na Forja dos Campeões. Logo me tornei campeão do Conselho Nacional de Boxe, aos 20 anos. Pensei que a minha vida fosse mudar. Só que não mudou. Parece que luto, ganho e as pessoas se esquecem de mim no dia seguinte.”

Sabóia já tem 14 lutas — 13 vitórias e uma derrota apenas. “A luta que ele perdeu é muito contestável”, comenta Newton Campos.

Traumático mesmo foi o último confronto. “Eu nunca sei quando vou lutar. Não tenho empresário, patrocínio. Só o meu técnico que é um herói, o Aparecido Silva. Eu estava seis quilos acima” (sua categoria é de no máximo 66 quilos) — quando come, come errado e exagera. “Soube disso dez dias antes. Passei a tomar só água e a fazer exercício como um louco. Só tomava uma vitamina especial que o técnico me dava. Quer ver? Eu guardo na geladeira.” E mostra um frasco da comum Cebion, vitamina C.

Daniel treina no São Paulo Futebol Clube, que mantém uma equipe de boxe em Guarulhos. “Como campeão brasileiro, tenho direito a treinar lá. Ganho dois passes de ônibus. Um para ir e outro para voltar para casa. Não reclamo.”

Popó já o viu lutando. Sabóia não perdeu tempo. Conversou com o ex-campeão mundial para dizer que estava disposto a lutar onde ele o levar. Popó ficou de responder.

“Eu mantenho a esperança. Sonho que um dia vou para Las Vegas lutar com os americanos de lá e ganhar um dinheirão.” Daniel chega a ganhar R$ 300,00 como flanelinha. Manda dinheiro para o pai, paga o quarto da pensão — onde moram 32 pessoas com banheiro coletivo. Sobram R$ 120 para as compras. “Compro minha comida e a do Spike. Às vezes passamos fome juntos”, diz o campeão.

Jogo da Vida

porque o esporte e a vida são a mesma coisa

Jogo da Vida

Written by

Zé Augusto de Aguiar

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