O ídolo que sabe o que é um presente de verdade

Le Bron James não dá risinho posado nem fala o que um assessor manda ele falar. Não é o típico falso ídolo que faz cena do que não é como se fosse político em campanha ou, palavrinha besta, um mero “influenciador” de internet. Le Bron é um raro ídolo de verdade que sabe que deve ser um espelho. Não o espelho narcísico das estrelas que só sabem reluzir a própria face e ego mas o espelho-exemplo. Exemplo para o público sempre mais importante: a molecada. Os meninos e meninas que, queiramos ou não, buscam em quem se inspirar. Sorte dos que se inspiram como os meninos franceses da periferia de Paris que tiveram a sorte de jogar-brincar um pouquinho com o maior jogador de basquete do planeta e talvez, sobretudo, escutá-lo no último fim de semana.

Em bonita reportagem do melhor e mais completo jornal de esportes do mundo, o L´Équipe, o repórter captou uma daquelas conversas tão simples como inesquecíveis que garotos podem ter com uma pessoa que admiram. Uma mão curiosa levantou e a perguntou uma daquelas questões cotidianas vitais sobretudo para quem não tem as regalias das classes sociais favorecidas:

- Como você faz para se levantar nos dias em que as coisas estão mal?

Le Bron respondeu certeiro, com palavras que no começo pareciam óbvias mas que revelam a sabedoria dos campeões do esporte e do espírito humano no final:

-Pra sair dessa é preciso pensar naqueles que a gente ama. A família, os irmãos, teus amigos. E simplesmente lembrar que você acordou nessa manhã. Amanhã é um mistério, ontem é história. É preciso crer no presente. É por isso que essa palavra se chama assim, é um presente.

A molecada aplaudiu e gritou forte e muitos jamais esquecerão essas palavras tão simples quanto necessárias para a realidade dura de quem vive na periferia. Não só, porque muitos de nós esquecemos de viver o presente como uma daquelas caixas ou pacotes mágicos que as crianças recebem, sorrisões entusiasmados, em seus aniversários. Grande Le Bron!, obrigado por nos lembrar que cada dia é um presente.

O significado de encontrar um raro ídolo que sabe a sua responsabilidade como modelo brilha na declaração de um jovem entrevistado pelo jornal, o provavelmente filho de imigrantes Yassini Idrissi, 18 anos: “Foi um verdadeiro choque conhecê-lo. É um monstro! Tem uma voz super grave, um físico incrível. Ele deu um tapinha na minha mão. Eu o senti acessível, ele tomou o tempo de olhar todo mundo nos olhos.”

O ídolo que fala e olha com o coração. E ainda selecionaria cinco jovens para conhecer em Akron, Ohio, EUA, a escola criada e financiada pelo monstro tão humano da NBA.

*Esse jornal L´Équipe, de sábado passado, foi um presente do querido casal Bel e Kaká, obrigado! E agradeço demais também ao presente de conseguir ler bem em francês graças ao contato com esse idioma desde a infância que meus pais professores me propiciaram, em especial minha mãe, professora de francês a vida toda, e meu pai, que foi um mestre da língua portuguesa mas sempre um apaixonado pelo idioma de Platini, Zidane e Pogba. Idioma que ele me fez treinar em toda a infância e juventude com a revista francesa de futebol, a Onze, que ele comprava com esforço todo mês e eu lia na raça com um dicionário na mão, dicionário que eu ia precisando consultar cada vez menos com o hábito.