Feminismo no Ensino Médio: A luta também acontece off-line

Com coletivos feministas nas escolas, a geração 2000 dá uma aula sobre igualdade e abre o olho de muita “gente grande

(Foto: Helena Wolfenson)
Reportagem: Heloise Auer| Edição: Douglas Maia

Elas ainda não têm 18 anos, mas já confrontam o patriarcado e empoderam suas colegas. Em meio a preocupações com notas e vestibular, elas arrumam tempo para debater e lutar por seus direitos. E se antes elas usavam o Facebook apenas para diversão, agora usam para propagar suas ideias e se informar. Nas redes sociais elas participam de fóruns e leem artigos. Essa é a nova geração feminista.

E elas não estão sozinhas: 40% das meninas entre 13 e 17 anos se consideram feministas, segundo o levantamento “Mulheres Brasileiras e Gênero no Espaço Público e Privado”, da Fundação Perseu Abramo. Esse número supera a geração anterior, em que 37% das mulheres entre 25 e 34 anos abraça o debate de gênero.

Apesar da internet ter um papel crucial para o feminismo jovem, os encontros também são realizados off-line. O surgimento de coletivos feministas no ensino médio é uma tendência e está mais perto do que imaginamos. Em Curitiba o coletivo “CEP sem machismo”, do Colégio Estadual do Paraná, dá aos alunos o papel de protagonistas. Eles são incentivados a se perceberem como seres transformadores da sociedade.

A ideia partiu dos próprios estudantes. Ao verem o grupo religioso do colégio se organizar, perceberam que também podiam se manifestar. “A galera da célula se reunia duas vezes por semana atrás do planetário e batia um papo super bacana e consciente, aí surgiu a ideia da gente organizar as minorias também”, explica Letícia Machado, ex-aluna e idealizadora do coletivo.

Depois de um ano de pausa, as reuniões do coletivo voltaram a acontecer em abril. “O grupo é aberto para meninos e também para jovens de fora que tenham interesse em participar”, afirma Rauane Dorce, presidente do grêmio estudantil e participante do coletivo. Para Rauane, a retomada das atividades é de extrema importância. “O debate de gênero ajuda a desconstruir o senso comum e a enxergar o machismo nas pequenas coisas. Acredito que qualquer mudança começa nesse tipo de discussão”, ressalta.

Cartaz de divulgação do grupo de estudos do CEP

E o maior colégio público da cidade ainda é palco de outras militâncias. Além do coletivo feminista, existem o coletivo negro e o coletivo LGBT. “A direção apoia muito os coletivos. Tanto dá espaço para as reuniões como para palestras e outras atividades relacionadas a questões sociais”, explica Rauane. De fato, a coordenação do colégio apoia e até mesmo organiza um grupo de estudos que debate mensalmente a produção feminina na literatura. “O primeiro encontro foi sobre a Clarice Lispector, o próximo será sobre a Virginia Woolf” afirma o professor de sociologia, Ney Jansen.

Para Jansen, a militância acontece naturalmente nos jovens, como foi em 2015, durante a greve dos professores. “Houve uma participação maciça dos alunos na greve, isso provocou neles uma aceleração de consciência e maior envolvimento nos coletivos”. Para a ex-aluna Letícia a luta pela educação e pela igualdade estão entrelaçadas. “Durante a greve, o coletivo LGBT e o feminista se fortaleceram muito”, conta.

Apesar da cultura escolar progressista, em 2015 ocorreram no CEP alguns casos de ofensas verbais e pichações machistas e homofóbicas. “Tinha um grupo de meninos que eram contra o coletivo feminista e se manifestavam contra nossas discussões”, lembra Rauane.

Manifestação do Coletivo no CEP durante a greve dos professores (Foto: Douglas Maia)

O crescimento do debate

Os coletivos feministas no ensino médio travam uma luta de afirmação recente. No ensino básico o tema está presente apenas desde 2003, pouco mais de uma década. Sem contar que grande parte dos estudantes fica fora desse debate, já que ele é feito quase em sua totalidade em escolas públicas laicas. “O debate flui de forma mais livre nas escolas públicas do que nas privadas, onde existe um controle muito maior sobre questões políticas”, afirma o professor e historiador Daniel Trevisan.

Mas será que meninas tão novas possuem base emocional suficiente para militarem? Seguindo a lógica de Trevisan, “podemos pensar de uma outra forma: meninas sofrem com o machismo desde a infância, são educadas para serem submissas. Por sofrer na pele os abusos, elas já têm total capacidade de lutar e reivindicar direitos”. A campanha #MeuPrimeiroAssédio, que ganhou as redes sociais no ano passado, deu grande visibilidade aos assédios sofridos na infância.

A força da geração internet

O uso da internet para fazer com que suas vozes sejam ouvidas já é natural para essa geração que cresceu na era digital. No ano passado, uma petição online promovida pelas alunas do Colégio Anchieta, em Porto Alegre, recebeu mais de 25 mil assinaturas digitais. O manifesto do movimento “Vai ter shortinho, sim” defendia o uso do short na escola e trouxe à tona a sexualização dos corpos infantis.

“Ao invés de humilhar meninas por usar shorts em climas quentes, ensine estudantes e professores homens a não sexualizar partes normais do corpo feminino. Nós somos adolescentes de 13–17 anos de idade. Se você está sexualizando o nosso corpo, você é o problema”, afirma a petição, que finaliza ainda com o enfrentamento: “Nós, alunas do ensino fundamental e médio do Colégio Anchieta, nos recusamos a obedecer a regras que reforçam e perpetuam o machismo, a cultura do estupro e slut shaming”.

As referências feministas estão borbulhando nas mídias digitais. No Youtube, canais como o “Põe na Roda”, “Canal das Bee” e o da youtuber Jout Jout colocam em pauta o debate de gênero. Somados, esses canais possuem mais de 1,4 milhão de inscritos. A revista feminista online Capitolina, também é outro sucesso de acessos, com mais de 3 mil visitas diárias. A revista é feita para garotas adolescentes e chegou a virar livro no final de 2015. Além disso, existem páginas no Facebook, como “Não me Khalo” e “Feminismo Sem Demagogia”, que levam o debate diariamente para o feed de milhares de meninas.

“Achamos, muitas vezes, que os adolescentes são alienados e incapazes de lutar politicamente. Não botamos tanta fé na molecada. Mas isso é uma mentira.” afirma o professor Trevisan. Segundo o professor, as adolescentes podem produzir muita coisa interessante. De fato elas já produzem.

A ocupação das escolas em São Paulo, em 2015, resultou na interrupção do projeto do governador Geraldo Alckmin de reorganização das escolas. O papel dos professores na formação das jovens feministas é fundamental. “Devemos educar para a formação de seres críticos, reflexivos, mas também insubordinados. É isso que produz o novo. É isso que nos emancipa”, comenta Trevisan. “É a insubordinação que arrebenta as correntes do moralismo, do machismo, do preconceito e da desigualdade”, conclui o professor.

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