Alice Ruiz e o erotismo de Afrodite

Histórias eróticas escritas por Alice Ruiz e Paulo Leminski no final dos anos 1970 são lançadas no livro “Afrodite: quadrinhos eróticos”

Alice Ruiz participou de bate-papo para o lançamento da coletânea “Afrodite: quadrinhos eróticos” (Foto: Tami Taketani)
Reportagem: Anna Sens | Edição: Bruno Vieira

Há quem diga que foi uma crítica a Dalton Trevisan. Outros, uma forma de luta contra a repressão da ditadura. O roteiro dos quadrinhos de Alice Ruiz e Paulo Leminski em “Afrodite: quadrinhos eróticos”, traz um escritor que maltrata e submete sua personagem a servi-lo enquanto ela adquire vida, ao passo que a ensina tudo sobre o mundo, inclusive como escrever. A partir daí, ela “toma as rédeas da estória e acaba com ele”. Pelo menos são essas as palavras que a própria Alice emitiu sobre o livro, lançado no último dia 28 na sede da Itiban Comic Shop, em bate-papo mediado por Ivan Justen Santana e Roberval Machado.

Afrodite” é um compilado de histórias já publicadas pela Grafipar, editora curitibana que teve seu auge na década de 1970. À época, artistas da região se reuniram para publicar através da editora, que lançava revistas para diversos públicos, do terror à ficção científica. Todos os gêneros, porém, possuíam em comum o viés erótico. Aos poucos, com a abertura da política no Brasil e problemas financeiros advindos da hiperinflação, além da liberação total da pornografia com o afrouxamento da censura, os quadrinhos eróticos perderam espaço e a Grafipar fechou as portas.

“Afrodite: quadrinhos eróticos” é a primeira publicação que reúne apenas histórias da Grafipar. “Algumas saíram isoladamente, como em coletâneas de algum quadrinista, mas essa é a primeira publicação vinda de um resgate”, explica Roberval Machado, que está produzindo um documentário sobre a editora.

“Afrodite: quadrinhos eróticos” é a primeira publicação que reúne apenas histórias da Grafipar (Foto: Tami Taketani)

Alice completa dizendo que da mesma fonte que saiu Afrodite podem sair diversos outros livros, devido ao grande volume de publicações da editora no fim dos anos 1970. “Foi uma época dourada. Eram artistas curitibanos que tinham um lugar para colocar todos os interesses e ideias em comum. Estamos falando em erotismo, mas era espiritual: uma reunião de artistas que comungava das mesmas ideias”, comenta. Fotógrafos, escritores, desenhistas: a Grafipar foi um marco no que diz respeito à produção cultural curitibana — suas revistas eram lidas no Brasil inteiro.

Alice Ruiz fez morada na Grafipar quando foi coeditora da revista Rose (um anagrama a Eros, revista masculina da época) que tratava de temas femininos, em especial os considerados um tabu. Rose trazia editoriais sobre aborto, a condição da mulher na sociedade e a luta feminista, além do slogan “a revista que informa a mulher e tira a roupa do homem”. “Era uma revista para mulheres, mas sem receitas, tricot e crochê, e sim de coisas reais do universo feminino”, explica Alice sobre Rose, que era feita por três mulheres e trazia pautas como sexualidade da mulher, direito da mulher de entrar na universidade e união homoafetiva, por exemplo. “A gente era muito moderno no final dos anos 1970”, brinca Alice.

Depois, Ruiz ficou responsável pelo Horóscopo de Rose, editorial mensal de uma das revistas da Grafipar, no qual ela diz perceber que o desenho era muito mais erótico que o roteiro — talvez por isso, nunca temeu os ‘milicos’. Os quadrinistas estavam mais expostos à censura que os roteiristas, mas a Grafipar sempre andou na linha. E Alice não estava disposta a arranjar briga — não queria inviabilizar um projeto que era utilizado para informar e libertar a mulher. “Minha luta era sobre justiça social. O meu jeito de fazer política era tentando mudar os costumes, tanto a partir da contracultura quanto do feminismo”, afirma.

Hoje, Alice Ruiz não lê tantos quadrinhos quanto na época que trabalhava na Grafipar, mas declara abertamente seu amor ao gênero. Além de poeta e roteirista, Ruiz ainda é compositora. Deu uma palhinha com a filha e a neta ao fim do bate-papo, cantando uma música que escreveu com Paulo Leminski, de quem foi esposa — outro estigma que carrega ao lado do nome e do qual ela utiliza muito bem na militância feminista. Alice comentou sobre a “competição” que criaram entre a produção dela e do marido, abrindo a discussão para questões mais amplas: o machismo e a condição social das mulheres, que ainda são apagadas pela história de diversas maneiras.

Os quadrinhos de Alice Ruiz misturavam erotismo e feminismo (Foto: Divulgação)

Erotismo x Pornografia

Uma das questões colocadas em mesa por Ivan Santana foi a diferença entre erotismo e pornografia. Seria o fato de associar subjetiva ou objetivamente as imagens com a vida pessoal do leitor — quanto mais próximo, erótico, quanto mais distante, pornográfico? Para Alice, não é bem assim. Erótico é abrir espaço para a imaginação do leitor, deixá-lo participar de alguma forma. No explícito, na falta de sutileza, no ostensivo: aí está a pornografia. Ainda, outra distinção. “Erótico é onde há consenso”, sentencia.

“Afrodite” é erótico desde a capa até a história por trás do roteiro, trazendo o frescor da vanguarda que lutava contra a ditadura militar através da arte, no fim da década de 1970, potencializando as produções de Leminski e, principalmente, Alice Ruiz.