Cursos técnicos da UTFPR correm o risco de fechar

Alunos e grêmio estudantil se organizam e manifestam para garantir novas turmas, enquanto a universidade alega inviabilidade

Manifestação foi marcada e realizada no dia 8 de junho, resultando em ocupação (Foto: Helena Salvador)
Reportagem: Caroline Momma | Edição: Mariana Rosa

A Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), antigo CEFET, tem sido palco de discussões. No dia 08 de junho, alunos ocuparam a reitoria com o objetivo de impedir o fechamento dos cursos integrados de nível médio.

O processo seletivo para as novas turmas ocorreu no dia 17 de julho. São 80 vagas no total, sendo 50% destinadas a cotistas. Porém, não se sabe qual o futuro dos cursos técnicos de nível médio dentro da universidade. Há a possibilidade das duas turmas, uma de mecânica e outra de eletrônica, serem as últimas ofertadas.

Assim que foram fundados, nas décadas de 70 e 80, os cursos técnicos integrados impulsionaram a economia paranaense ao garantir profissionais à várias empresas instaladas no estado. Porém, como relata o professor e coordenador do curso técnico em eletrônica da UTFPR, Edilson Machado, o perfil das empresas vem mudando desde a década de 90, exigindo a formação universitária.

Desde a mudança de CEFET para Universidade Tecnológica, a UTFPR tem priorizado o ensino superior e frisa a dificuldade de manutenção dos cursos de nível médio. “A UTFPR tem o compromisso de crescer e de ofertar cursos de nível superior, proporcionando ao aluno uma formação e qualificação mais diversificada, visando um maior nível de empregabilidade”, afirma Edilson Machado.

O coordenador acredita que seu posicionamento profissional deve estar alinhado ao da universidade, mas também reconhece a movimentação dos alunos e respeita o direito a manifestação. “Tive a oportunidade de declarar meu respeito e admiração por todos eles, pois reivindicam algo que julgavam ser justo”, diz.

Cursos técnicos em crise

Atualmente, a falta de professores é um problema alegado por alunos e outros membros do corpo docente. A maioria dos que lecionam nos cursos técnicos foi remanejada das cadeiras universitárias de tecnologia. Apesar de reconhecer a importância do ensino técnico e considerar gratificante a experiência de lecionar para o ensino médio, o professor Edilson Machado conclui: “Na minha modesta opinião, o contexto atual impossibilita qualquer ideia de manutenção do curso.”

Diante do posicionamento da universidade, os alunos e o Grêmio Estudantil César Lattes (GECEL), atualmente sob a gestão da chapa Integração, não desistiram de lutar. A discussão sobre o fim dos cursos não parou desde o período do governo FHC, quando o ensino técnico fechado.

O antigo CEFET, manteve turmas de nível médio, para posteriormente retornar com o técnico, ativo até hoje. Agora, como universidade, a intenção de manter apenas cursos superiores é clara. Foi anunciado que para o ano de 2016 seriam lançados dois editais. Referente ao primeiro semestre, seriam ofertadas 80 vagas normalmente. No segundo semestre, a oferta diminuiria pela metade, já prevendo o fechamento dos cursos em 2017.

No começo do ano, o número de vagas ofertadas pelo primeiro edital foi de 50% do esperado. Pais, alunos e GECEL se uniram em processo judicial e conseguiram que o total de 80 vagas retornasse. O segundo edital foi lançado após ocupação e negociação com a reitoria.

O ex-secretário de movimento estudantil da chapa Integração, atualmente formado técnico em eletrônica, Luiz Alessi, é contra o fechamento dos cursos. Ele esteve presente na ocupação de junho e relata: “houve negociação e em assembleia os alunos decidiram que o que a universidade havia proposto não era o suficiente”. No mesmo dia ocorreu uma segunda negociação e foi acordado que seria aberto o edital da metade do ano. Após a decisão os alunos decidiram desocupar, pois até então suas reivindicações haviam sido atendidas.

A movimentação ocorre judicialmente de ambos os lados. Alessi relatou que o primeiro processo movido pelo GECEL, foi referente ao corte de vagas para o primeiro semestre. A justiça decidiu a favor do Grêmio. “A forma como foi decidido [o corte de vagas] era inválida e para proteger o interesse dos estudantes que poderiam entrar e até como forma de precaução, foi decidido que seriam 80 vagas. Pois muitos alunos seriam prejudicados, alguns esperam muito tempo para entrar na UTFPR”, conta Alessi.

Além disso, existem mais dois processos judiciais em andamento. O primeiro é referente ao fechamento dos técnicos integrados como um todo, o segundo referente ao recebimento das atas de reuniões da diretoria que foram tarjadas quando enviadas ao GECEL.

Do outro lado, o GECEL está sob processo administrativo, movido por um professor do departamento de eletrônica, após a ocupação. O presidente da chapa Integração, Guilherme Pavesi, também está sob processo administrativo e judicial, movido por um professor do departamento de mecânica, alegando difamação. O Grêmio Estudantil divulgou nota com teor de denúncia após a reunião com o departamento, o que motivou o registro criminal em delegacia. Luiz Alessi e Guilherme Pavesi enxergam esses processos como forma de retaliação ao movimento.

Movimentação continua

Pavesi afirma que no começo os alunos enfrentaram dificuldades, mas enxerga resultados de toda a movimentação. “Agora estamos no segundo semestre de 2016, já entraram mais alunos que não iriam entrar e está sendo rediscutida essa questão. Eu acredito que vai continuar sim, mas muito vai depender da nossa luta”, afirma.

Após a ocupação, foram criadas comissões compostas por alunos e professores para avaliar a viabilidade de reestruturar o curso técnico dentro de um novo departamento na UTFPR. Também estão nas reivindicações do Grêmio Estudantil a manutenção de vagas para professores dentro desse departamento e a publicação de um novo edital no final do ano.

“A gente está trabalhando junto com os estudantes em mais discussões e assembleias para ver quais serão os nossos próximos passos”, conta Pavesi. Segundo ele, o edital para a entrada de alunos em 2017 ainda não está garantido e por isso a luta ainda não acabou.