Curta-metragem “Paixão Nacional” mostra uma realidade pouco vista da Copa do Mundo

Filme curitibano que reflete sobre a Copa do Mundo no Brasil, já ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais

Filme usa a Copa do Mundo para trazer um questionamento sobre o conflito de classes no Brasil (Foto: Reprodução)
Reportagem: David Ehrlich |Edição: Bruna Junskowski

Com 17 minutos e filmado em Curitiba, no Sabará (CIC), o curta-metragem “Paixão Nacional” surgiu como uma tentativa de “lançar perguntas pra pensar e sentir sobre a chegada da Copa do Mundo no Brasil”. É o que explica Jandir Santin, roteirista, diretor e coprodutor do filme. A recepção positiva do curta mostra que esse objetivo está sendo alcançado: até o momento, já foi selecionado para mais de 10 festivais no Paraná e no resto do Brasil, além de ganhar o prêmio de melhor filme na Competição Oficial de Curtas-Metragens, do Latino Film Festival, em Perth, na Austrália. Recentemente, ganhou também o Prêmio Cidade Educadora no 8º Festival de Curtas de Direitos Humanos Entretodos.

No filme, Café (Maicon Douglas), um adolescente negro do Sabará, convence Lina (Clarissa Nießner), uma jovem turista alemã, que encontrou seu celular e que quer devolver para ela. Os dois se encontram para um passeio e ela, espontânea, dá a Café um ingresso para um jogo da Copa do Mundo, em Curitiba. A princípio relutante, Café decide aceitar o presente e vai assistir o jogo na Arena da Baixada, mas lá descobre o quanto sua realidade é diferente daquela de Lina.

“Café sempre quer fazer alguma coisa e não pode”, conta Maicon Douglas sobre seu personagem. Vindo da Chácara Meninos de Quatro Pinheiros, um abrigo para adolescentes em vulnerabilidade social em Mandirituba, o ator conta que esse é um ponto em que a realidade do personagem se mistura com a sua própria. “Ele [Café] sabe o que os jovens da sua idade estão, mas não pode porque não é a realidade dele. Os outros estão se divertindo, enquanto ele tem que se preparar para mais pra frente poder ter o que quer”, explica Maicon Douglas.

Maicon já conhecia Jandir porque participava de um curso de cinema em que Jandir era seu professor. “Eu estava passando por uma fase de mudança na minha vida quando soube que ele queria um ator. Sempre pensei em atuar, então, uniu o útil ao agradável e surgiu a oportunidade”, comenta o ator.

A produção

Primeira obra cinematográfica da produtora audiovisual Gesto de Cinema, surgida em 2012, “Paixão Nacional” contou com uma produção complicada. O filme contou com um recurso de apenas R$ 2 mil e foi gravado esporadicamente ao longo de dois meses, devido às dificuldades em encaixar os horários dos envolvidos, visto que alguns atores tinham outras ocupações além das gravações.

De acordo com Jandir Santin, foi um processo difícil, porque sem dinheiro o bastante e sem a estrutura necessária, os envolvidos tiveram que acumular várias funções. “Mas, ao mesmo tempo, foi um processo gostoso, porque trabalhamos com uma equipe que é quase uma família. Estávamos em casa, teve toda uma cumplicidade”, confessa o diretor. O ator Maicon Douglas ainda completa dizendo que apesar do pouco orçamento, o filme foi feito com muito amor, o que permitiu sua qualidade. “O que a gente mais deu pra esse filme foi amor”, diz.

O diretor explica que o primeiro ano de um filme é reservado para a exibição em festivais, que exigem exclusividade. Como “Paixão Nacional” começou a circular em junho deste ano, Santin e os outros produtores da Gesto de Cinema pretendem disponibilizá-lo apenas ano que vem para ser assistido em sites como o YouTube e o Vimeo ou liberado para canais de televisão. “Os festivais querem passar algo que não está aberto na internet, porque se o filme está liberado no YouTube, por que as pessoas iriam ao festival assisti-lo se elas poderiam ver em casa?”, explica.

Santin também completa que quem quiser ver o filme enquanto ainda é exibido em festivais, pode receber um link com senha para assisti-lo. “Também estamos fazendo uma série de exibições no Sabará, nas escolas, nas associações de moradores e nas ruas. É uma oportunidade legal para quem estiver aqui em Curitiba”, finaliza.