O flanêur curitibano do Instagram

Ex-chefe de redação da Gazeta do Povo, o curitibano Eduardo Aguiar conta como a paixão por fotografia de simples instantes na cidade o levaram a uma exposição numa bienal internacional

As fotografias de Aguiar trabalham com o contraste das cores no ambiente urbano. (Foto: Eduardo Aguiar/Instagram)
Reportagem: Robinson Samulak | Edição: Valsui Júnior

Diariamente, milhares de pessoas passam pelo centro de Curitiba. São trabalhadores, alunos, mulheres, homens e crianças. Uma multidão que caminha apressada, sem perceber o que o cenário ao seu redor tem a oferecer. A maioria dos que por ali caminham tem pouco em comum além da tradicional pressa de curitibano e o smartphone.

Formado em Jornalismo, o fotógrafo já trabalhou em várias editorias e cadernos do jornal Gazeta do Povo, em Curitiba; porém, nunca deixou de lado a fotografia. (Foto: Robinson Samulak)

Entres essas pessoas está Eduardo Aguiar. Num primeiro olhar, apenas mais uma dentre tantas pessoas a caminhar. A diferença está no olhar atento. Afinal, foram quase duas décadas trabalhando na redação da Gazeta do Povo. Nesse período, Aguiar passou diversos dias trabalhando até tarde, finalizando a edição que iria às bancas no dia seguinte.

Mora num charmoso prédio localizado na frente da Praça Osório, região central de Curitiba. Nas idas e vindas para a Gazeta, sempre a pé, testemunhava diversas cenas. Momentos que, como na icônica frase do androide Roy Batty em Blade Runner, iriam desaparecer “como lágrimas na chuva” uma vez que nenhum registro seria feito. Eram situações que davam vida à cidade, ignorada pela maioria ao redor, mas que despertaram em Eduardo o interesse pelo registro.

Curitibano formado em jornalismo pela PUC, Aguiar teve sua primeira experiência como fotógrafo em 1995, ainda como acadêmico. Na época o processo era totalmente analógico. Era preciso fazer todo o registro e acertar o ângulo, mas o resultado só seria descoberto dias mais tarde, quando o material fosse revelado. “Essa parte era bacana por que você só tinha noção do trabalho depois que você ia lá revelar, e isso gerava uma ansiedade para ver como ficava a foto”, conta Aguiar.

O breve contato havia despertado um hobby, até então desconhecido do acadêmico. No segundo ano da faculdade entrou para a redação do jornal Indústria e Comércio e seguiu nessa área por toda a carreira. Entrou na Gazeta do Povo em 1998. Na época foi trabalhar para o site do jornal, num período que a internet ainda estava engatinhando no Brasil. O portal, que se chama Universo G, era motivo de piadas dos demais colegas, lembra Aguiar.

De 1998 até 2011, Eduardo passou por diversas editorias. Esse período foi fundamental para treinar o olhar para seu trabalho com fotografia. O então amador de fotografia conta que as pessoas no geral fazem a foto bruta, ela é publicada daquele jeito e muitas vezes tem recorte, que é onde está a foto bacana. “Isso eu aprendi no jornal. Sempre a gente procurava o melhor corte pra publicação, as vezes a página exigia uma foto mais horizontal ou quadrada, a gente quase nunca trabalhava com a foto inteira”, revela Eduardo.

O momento decisivo para que a relação com a fotografia fosse definida ocorreu ainda em 2011. Eduardo foi para Singapura, pela Gazeta do Povo. Decidiu comprar um Iphone e uma Canon e abriu uma conta no famoso aplicativo para smartphones Instagram. Os momentos da viagem se misturam com um álbum familiar e os registros de uma Curitiba boêmia e suja.

A Canon “só levo em viagem e aniversário de filha” brinca. A facilidade de carregar o celular o incentivou a usá-lo para os registros do cotidiano. Muitas vezes, as fotos registram momentos que mal daria tempo para preparar a câmera. A agilidade que o celular oferece o torna uma boa opção. Aguiar acredita que o momento as vezes vale mais que a qualidade. Daí, surgem suas duas principais vertentes: o flagrante e a luz.

Como nos faroestes de Sergio Leone, quando Clint Eastwood tinha que sacar sua arma com rapidez, Eduardo Aguiar observa a cidade acontecendo ao seu redor, pronto para “sacar” seu celular. Muitos de seus registros são desfocados, com ângulos tortos e sem uma boa iluminação. O que vale é a foto, a qualidade técnica pode ser deixada de lado. Durante seus percursos no eixo Santos Andrade/Osório, muita coisa pode acontecer. As figuras que ele chama de “seres da noite”, prostitutas, travestis, bêbados, assim como os espaços, os bares, as casas noturnas, os espaços vazios, muitas vezes envoltos em neblina ou garoa, tornam o trabalho muito realista. É uma Curitiba que está aí o tempo todo, mas as pessoas não veem, ou apenas ignoram. Eduardo mostra.

O ambiente urbano, aquilo que não é visível aos olhos dos transeuntes, é sempre uma comum na fotografia artística do jornalista. (Fotos: Eduardo Aguiar/ Instagram)

O jornalista e amigo Rodrigo Apolloni foi o incentivador e curador da primeira exposição. Juntos, escolheram 20 fotos que registravam Curitiba em vários pontos e momentos. Dividida em três partes, a exposição apresentava registros durante o dia, a noite e um terceiro grupo de fotos chamados de passagem, fotografias feitas no amanhecer ou durante o crepúsculo. Depois disso já passou pela Bienal de Curitiba e por um leilão. Agora considera ter as fotos em galerias on-line, para expandir as fronteiras.

Hoje, Eduardo ainda não considera o trabalho fotográfico como algo profissional. É um hobby que surgiu naturalmente, nas diversas caminhadas. Aliás, nada disso seria possível, talvez, não fossem as caminhadas. Morar no centro o fez optar por vender o carro. A falta de privacidade de se morar no centro também oferece às pessoas a possibilidade de se aproximar de certos privilégios. A caminhada diária é um exercício de observação das coisas.

“Eu comecei a ver mais graça nas coisas”, admite Eduardo com certo tom de liberdade. Como um turista, o jornalista descobriu uma Curitiba escondida no meio das pessoas apressadas. No meio da multidão que caminha sem olhar para o lado, ele descobriu uma arquitetura encantadora, novos sabores e começou a perceber os detalhes dos comércios e das pessoas que moram perto. Seja para ir ao mercado, sair com os amigos ou passear com Scooby, um yorkshire que é tão simpático quanto curioso, Eduardo Aguiar prova que não é necessário viajar para outro país para descobrir algo novo e maravilhoso, basta prestar mais atenção ao que está ao nosso lado.

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