Quando a procura pela defesa pessoal soa o gongo da insegurança

O Jornal Comunicação procurou especialistas e praticantes de luta para saber até que ponto recorrer à autodefesa pode ser vantajoso para a vítima

Movimentos curtos, rápidos e instintivos estão na base do Krav Maga: sistema de luta israelense focado na defesa de situações de combate de rua. Foto: Cássia Ferreira.
Reportagem: Gabriel Snak | Edição: Ana Letícia Sowinski

Uma epidemia de assaltos assola Curitiba. Esses delitos podem ocorrer na forma de furtos ou roubos. Se há uso de violência ou ameaça grave à integridade física, constata-se o roubo. A situação contrária, sem o emprego de qualquer ação violenta, constitui o furto. Ambos os casos são divulgados publicamente para fins estatísticos desde 2007. De lá para cá, o roubo cresceu surpreendentes 129%. Só na comparação entre 2015 e 2016, os furtos aumentaram em 5%, e os roubos em 14%. São mais de 10 mil furtos registrados e pouco mais de 8500 roubos. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná (Sesp). Diante desse quadro, investir na segurança pessoal, seja portando armas brancas ou buscando refúgio em alguma arte marcial parecem saídas óbvias para muita gente. Qual a maneira mais correta de agir quando se é vítima de uma dessas ocorrências?

Imagine agora o seguinte cenário: é noite e na rua deserta você percebe a aproximação de um estranho. A sua intuição afirma que corre perigo. À medida que a pessoa se aproxima e os batimentos cardíacos disparam, eis que o referido indivíduo acelera o passo em sua direção e… Ponto para a violência. Fernanda Madlener teve de lidar com uma situação parecida. A instrutora de Krav Maga tomou um tapa no bumbum. Assim, sem mais nem menos. “Naquele momento eu não tive muita escolha, foi muito instintivo, nem pensei — sofri uma agressão. Dei um golpe na garganta e ele desmaiou”, conta. Ponto para ela, que ficou com todos os seus pertences sem sofrer danos.

Histórias de reações bem-sucedidas a assaltos não marcam tanta presença midiática quanto à veiculação de furtos ou roubos. Geralmente o sucesso dos perpetradores vira notícia. Mas nada disso desanima aqueles que procuram o Krav Maga, sistema de combate israelense que propõe que a melhor defesa é o ataque. “Krav Maga é a única arte criada cientificamente, com inteligência, com bom senso, para a sobrevivência. Nós damos às pessoas a capacidade de reação caso elas precisem”, explica Gerson Madlener de Almeida, instrutor do Centro de Krav Maga do Paraná (CKMPR). Diferente de uma arte marcial ou esporte, nascido da necessidade de defesa da comunidade judaica frente ao antissemitismo agressivo da Bratislava dos anos 40, atual capital da longínqua Eslováquia, Imi Lichtenfeld, tido como o fundador do Krav Maga, integrou movimentos e técnicas para resposta imediata a ataques de faca, armas de fogo, chutes, agarramentos, entre outras agressões.

Reagir ou não reagir?

No que diz respeito ao debate sobre o que fazer diante de um assalto ou qualquer ameaça iminente, Gerson Madlener é categórico. “Nós do Krav Maga não entramos no debate de reagir ou não reagir. Preparamos a pessoa para reagir”, afirma. Chama a atenção o fato de não ver praticantes da modalidade envolvidos em arruaças, promovendo quebra-quebras. “O aluno que chega a nós ou já foi assaltado, ou já foi vítima e não quer ser mais. Eles têm um perfil introvertido, tímido e inseguro”, acrescenta Gerson. A arquiteta Carla Calgaro, de 28 anos, procurou na defesa pessoal um caminho para a própria segurança. Como viaja sozinha a trabalho constantemente, ela ressalta o que mudou desde que o Krav Maga entrou em sua rotina. “Você se torna uma pessoa mais alerta; aprende a evitar e antecipar situações”, comenta.

O delegado operacional da Delegacia de Furtos e Roubos (DFR) da Polícia Civil do Paraná, André Feltes, é praticante de Jiu-jitsu e reconhece as vantagens que o conhecimento de alguma arte marcial pode proporcionar ao cidadão comum. Agir preventivamente, antevendo e prevenindo eventuais situações perigosas é a principal virtude que a defesa pessoal pode ensinar. André destaca igualmente a cautela como quesito fundamental para manter a frieza frente ao estresse de um roubo. “Entre um prejuízo material e uma lesão qualquer, a gente recomenda às pessoas que mantenham a calma, porque não sabemos até que ponto uma reação da vítima vai neutralizar uma ação contra ela mesma”, frisa o delegado. Independente de adotar ou não uma postura mais ativa na promoção da autodefesa, muitas pessoas são abordadas quando estão desatentas. Por isso, atenção redobrada não custa nada e pode ajudar não somente a si, mas a outros que podem estar diante de riscos por vezes tão rápidos quanto traiçoeiros.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.