Refugiados sírios recomeçam vida em Curitiba

A Guerra Civil da Síria já dura 4 anos e conta com mais de 3 milhões de refugiados pelo mundo, 1740 só no Brasil

“Não havia mais coisas para fazer. Cortaram a luz, ficamos com medo. Não, não quero viver assim. Eu não tinha muita esperança para que essa guerra terminasse bem rápido”, diz Myria Tokmaji, 24, que está em Curitiba há 1 ano e 3 meses. (Imagem: Arquivo pessoal)
Reportagem: Monique Portela| Edição: Thais Barbosa

Myria tirou fotos da casa toda, que estava metade com, metade sem eletricidade. Em seguida, fez as malas. “Chega um ponto em que tanto faz. Até as coisas que estão dentro da mala, eu não quero mais. Não quero mala. Só quero viver em paz”, é o que pensa Myria Tokmaji, nascida em Aleppo, cidade que continua a ser um dos principais palcos da Guerra Civil Síria. Em setembro de 2013, com uma mala pequena e a companhia do pai, ela pegou um ônibus em direção ao Líbano. O trajeto era o mesmo que sua tia fizera meses antes, enquanto segurava o marido morto nos braços durante 16 horas: um tiro certeiro na cabeça. Foram 2 mortes naquela viagem. “Eles ainda tiveram muita sorte, porque tem ônibus em que todos os passageiros morrem com uma bomba”, conta Myria.

Na bagagem, nada além de seus 24 anos, memórias e saudades. Na Síria, a vida era boa. Myria passava seus dias entre a faculdade de Comunicação Visual, aulas de pintura, inglês, dança e o trabalho de designer gráfica. Tão logo se formou, veio a Guerra — era final de 2012 quando da janela de casa ela passou a ver clarões, que em questão de semanas estavam explodindo à sua porta. Estima-se que mais de 220 mil pessoas foram mortas na Síria desde o início da Guerra Civil, em março de 2011. “Temos uma brincadeira: se você escutou uma bomba, fique muito feliz, porque você não morreu”, comenta Myria, cujo tom de voz, alegre, otimista, contrasta com as histórias que narra.

Aleppo: a cidade de Myria, o palco da Guerra

A guerra demorou cerca de 1 ano para chegar em Aleppo — mas quando chegou, em julho de 2012, devastou a cidade em questão de poucos meses. De repente, Aleppo fora fechada: nada nem ninguém podia entrar ou sair. Não havia mantimentos, água ou internet. O racionamento de luz permitia no máximo 30 minutos de iluminação por noite. O preço de tudo subiu, a vida tornou-se insustentável: quem tinha condições, fugiu. Foi o caso de Hamza Taya*, 22, cuja faculdade, Universidade de Aleppo, fora destruída por bombas em janeiro de 2013. “Todo dia era muito perigoso. Então um dia eu vi que todos os meus amigos já tinham saído — eu fiquei sozinho. Fiquei sozinho embaixo das bombas, sem faculdade, sem nada”, conta. Era final de 2013 quando seu pai, que conhecia uma pessoa importante do exército, pagou para tirar o filho de Aleppo em um antigo avião militar russo, único meio de sair da cidade até então.

Dificuldades

A América não era a primeira opção tanto de Myria quanto de Hamza — eles pensavam em migrar para a Europa. Os meios legais, porém, lhes foram negados. Hamza chegou a cogitou entrar ilegalmente, mas nove mil euros e a incerteza de chegar com vida eram um preço alto demais a ser pago. Enquanto isso, o Brasil abria suas portas aos sírios, concedendo vistos em questão de 10 dias. Por culpa da urgência em abandonar Aleppo, não hesitaram em dar uma chance ao desconhecido Brasil. Ao pisarem em solo brasileiro, porém, constataram que a facilidade dizia respeito apenas à entrada no país: “Quando você entra, você sofre, porque não tem ajuda e cuidado do governo para refugiados, especificamente”, explica Myria. “Se você vai à São Paulo, tem sírios que estão dormindo na rua”, completa Hamza, que estima ter gasto cerca de 20 mil dólares durante 1 ano e 4 meses no Brasil.

Os problemas tangem todos os níveis, a começar pelo mais básico: o idioma. Por conta própria, Myria conseguiu uma vaga no Centro de Línguas da UFPR (Celin) e tentou separar seis meses para dedicar-se completamente ao idioma, mas a situação financeira não permitiu. A situação financeira, aliás, tomou as rédeas da sua rotina, que tornou-se exaustiva: pela manhã, trabalhava como free-lancer de designer gráfica; à tarde, designer de joias, e à noite, professora de inglês. Depois, trabalhou por oito meses como Diretora de Arte numa agência publicitária, mas por culpa da crise, foi demitida. Agora Myria ajuda no restaurante árabe de sua família, o Yasmin Comida Árabe.

Na foto, Myria, seu pai (Pedro), sua mãe (Zuka) e irmão (Abed) — aos poucos, a família toda também migrou para o Brasil. (Imagem: Yasmin Comida Árabe)

Brasil: a mãe de todos os países

Se oficialmente o Brasil não ofere ajuda aos sírios, ela chega por outro canal: o povo brasileiro. “Uma coisa no Brasil que eu gostei é povo. É perto, é gente boa, amigável”, comenta Karim Hanna, 27, que está há 1 ano e 10 meses no país. Ele participa da Junta de Missões Nacionais, uma agência missionária batista que, em dezembro de 2014, reformou uma casa em Curitiba para oferecer auxílio aos sírios, que já formam a maior comunidade de refugiados no Brasil. Karim é amigo de Hamza — havia quase um ano e meio que não conversavam. Se reencontraram no meio da praça Osório, enquanto Karim caminhava até um café para ceder entrevista ao Jornal Comunicação. Trocaram abraços, palavras em árabe e elogios à hospitalidade brasileira: “O Brasil é a mãe de todos os países. Aqui você não se sente estrangeiro, você sente que é seu país. Claro que a língua é diferente, mas quanto às pessoas…”, comenta Hamza. “É um país que dá pra ser outro país. Dá pra fazer o seu país”.

“É uma situação bem triste, bem triste. Mesmo se eu ficar falando, falando, falando, você não vai sentir. Não a tristeza de lá”, diz Karim Hanna, 27, que está no Brasil há quase 2 anos. (Imagem: Heloisa Nichele)

*Hamza Taya é um nome fictício.

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