Resistência marca a presença de Dilma Rousseff no Circo da Democracia

Dilma defendeu a convocação de um plebiscito e participação popular nas decisões políticas

Em sua fala, a presidenta afastada elencou os motivos para o golpe parlamentar e disse acreditar na recuperação do país através da luta pela democracia. (Foto: Isabella Lavane)
Reportagem: Cássia Ferreira | Edição: Valsui Júnior

Um circo está montado em frente ao prédio histórico da UFPR desde o dia 05 deste mês. Além das atrações que normalmente se imagina para um circo, o picadeiro também é espaço para debates sobre os rumos da democracia brasileira. Organizado e idealizado pela articulação Advogados pela Democracia, envolve mais de cem entidades e movimentos populares. O circo também é resistência contra o golpe.

Cultura, política e democracia dividem o palco em meio a apresentações culturais e líderes populares discutindo novos projetos políticos com a sociedade civil. No dia 08, a atração principal foi Dilma Rousseff. Nem chuva, nem frio afastaram o público que lotou o circo e as escadarias da UFPR na praça Santos Andrade. Estima-se cerca de mil pessoas debaixo da lona e cerca do dobro disso lá fora, que acompanharam os discursos através de um telão, com a mesma empolgação dos lá de dentro.

Para abrir o evento, a Orquestra Latino-americana levou canções de resistência e de homenagem às mulheres. Nos intervalos de cada música, um coro logo se formava, alternando entre “Fora, Temer!” e “Volta, Dilma!”. Gesto que foi repetido inúmeras vezes também nos intervalos das falas dos que discursavam. Alice Ruiz, poeta e compositora paranaense foi a primeira voz a ser ouvida dentre os convidados antes da fala da presidenta. Pediu desculpas à Dilma por qualquer hostilidade que possa ter sofrido em Curitiba, declarou-se feminista e contou sobre dois sonhos seus realizados por Dilma: “ter uma mulher frente à presidência da República e lutando pelos movimentos sociais no Brasil”. Terminou sua fala recitando um poema em homenagem à presidenta.

O espetáculo seguiu com declamações de frases célebres de mulheres que ocuparam posições de destaque na sociedade, dentre elas: Cecília Meireles, Cora Coralina, Anita Garibaldi, Simone Beauvoir, Anne Franke, Rigoberta Menchú, Patrícia Galvão, Marie Curie, Olga Benário Prestes, Alice Ruiz e a própria Dilma Roussef também foi citada: “Nós convivemos com a democracia, e quem tem democracia quer sempre mais democracia”. Seguido por entrega de flores à presidente e mais um coro: “Dilma guerreira, mulher brasileira!”.

O próximo a ocupar o picadeiro foi Roberto Baggio, coordenador do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no Paraná. Como parte da plateia era ocupada por membros do movimento, sua fala foi cativante. Defendeu a necessidade de rebeldia, resistência e de luta para livrarmo-nos do golpe e dirigiu-se à convidada principal da noite: “Sua natureza é a resistência”, lembrando da história de militância de Dilma. Também pediu articulação dos senadores presentes: Roberto Requião (PMDB), e Gleisi Hoffman (PT), pelos 28 votos necessários para barrar o processo de impeachment no Senado. E alertou: “Não aceitamos o golpe, porque é uma regressão histórica, de voltarmos a sermos colônia dos interesses das grandes empresas internacionais”, e referiu-se aos atuais planos de governo de intervenção nos direitos trabalhistas, como forma de exploração da classe trabalhadora.

A presidente estadual da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Regina Cruz, falou em seguida, reforçou o discurso de resistência da classe trabalhadora e defendeu uma greve geral em caso de aprovação das medidas que podem ferir os direitos dos trabalhadores e mudanças na CLT.

“Primeiramente, fora Temer!” Começou Marcelo Lavenére, conselheiro e ex-presidente da OAB, foi ele o autor do processo de impeachment de Collor, em 1992. O conselheiro começou sua fala citando a legitimação pelo IAB (Instituto dos Advogados do Brasil), que no dia anterior havia dado seu parecer contrário ao processo de impeachment, considerando-o inconstitucional. Lavenére falou das falhas e da omissão do sistema judiciário brasileiros e fez duras críticas ao juiz Sérgio Moro, chamando-o de salvacionista e popstar, acusando-o de usurpar o poder do Ministério Público. Além disso, Lavenére também citou diversos problemas que o Brasil tem sofrido como: desastres naturais, epidemias, crise econômica, mas, defendeu que o país não pode sofrer a perda da sua honra e dignidade, e mais uma vez a resistência se fez presente no discurso. “Golpistas, fascistas, não passarão”, finalizou Marcelo.

Logo após, a cerimonialista anunciou a chegada de Dilma Rousseff. E a presidenta começou: “Queridos e Queridas…”, despertando o sentimento de mãe da pátria em todos que lá estavam para ouvi-la. Saudou as lideranças, os companheiros no picadeiro e abraçou os movimentos presentes. Ela estava à vontade, confiante, e tomou o picadeiro para si. Como um grande espetáculo, palmas e vivas a cada pausa. Falou do golpe de caráter parlamentar, de motivação política e inconstitucional, pois não há crime de responsabilidade. E mencionou as repressões e a censura do governo interino sob a negação do golpe. Lembrou das épocas da ditadura militar, em que não podia se falar que estavam vivendo uma ditadura. “É próprio dos golpes não querer ser identificado como tal, porque implica numa retaliação crítica e numa tomada de posição”, reiterou a presidenta.

Dilma elencou os responsáveis pelo golpe, citando primeiramente a mídia, parte da oposição do seu próprio governo, que representa hoje o governo provisório interino, em boa parte do PMDB, e citou o presidente interino Michel Temer e o presidente afastado da Câmera dos Deputados, Eduardo Cunha. “E parte do capital financeiro especulativo e outros que podem ter sido atraídos, mas esse é o núcleo”, finalizou.

Em seguida sinalizou o sentido e as motivações dos golpistas: “O primeiro sentido é aplicar no país um programa que nunca seria aplicado se tivesse passado pelas urnas e pela vontade popular”, fazendo alusão as medidas provisórias e projetos de lei, mencionadas nos últimos dois meses pelo governo interino, considerados por ele mesmo, como medidas impopulares. Continuou: “Quem de nós apoiaria o fim do modelo de partilha do pré-sal? Nenhum de nós. Quem de nós aprovaria uma PEC que congela a verba de saúde e educação por 20 anos? Nenhum de nós. Quem de nós aprovaria uma versão da CLT em que se flexibiliza a própria jornada de trabalho?”.

De acordo com Dilma, o plano proposto pelo interino também prevê que o SUS não cabe no orçamento e seria o caso de criar um plano de saúde no qual a cobertura de saúde seria reduzida a quase nada. “Adulteram a própria concepção do Minha Casa, Minha Vida. Reduzem o sentido do Bolsa Família. É esse programa que pretendem adotar e impor ao país”, defendeu a presidenta. Dilma afirmou que esse pacote de medidas é uma forma de se livrar do ônus da crise econômica, fazendo com que os setores mais pobres da população “paguem o pato”.

O segundo sentido do golpe segundo a presidenta, é “estancar a sangria” das investigações da Lava Jato, exatamente o termo usado pelo ex-ministro Romero Jucá nas ligações grampeadas de uma conversa com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Em terceiro lugar, Dilma aponta a paralisação do Congresso Nacional como estratégia para construção do ambiente para o golpe, e mencionou a super-operação da comissão articulada por Eduardo Cunha até a aprovação do processo de impeachment. Questionou ainda a mesma eficiência para o julgamento na comissão de ética sobre a cassação do mandato de Eduardo Cunha, que está parado até o momento.

Dilma criticou o atual plano de governo do interino Michel Temer alegando que este não foi o plano votado majoritariamente pelos brasileiros nas eleições de 2014 (Foto: Cássia Ferreira)

HORIZONTE POLÍTICO

Dilma aponta para a ação articulada do golpe que visa substituir o colégio eleitoral de 204 milhões de brasileiros pelos congressos eleitorais parlamentares. “É mais do que um golpe, é um golpe seguido de eleição indireta”, afirmou a presidenta. E voltou a questionar o sistema de parlamentarismo que parece substituir o presidencialismo, que é o atual sistema político do Brasil. E com isso, “um país constituído majoritariamente, por mulheres, trabalhadores, negros, jovens e pessoas honestas, passa a ser substituído por um governo composto por homens, velhos, ricos, e com graves problemas com a justiça”, ironizou.

Ainda se falou de saídas para atual crise financeira do Brasil. Dilma admitiu a crise e disse que o país precisa voltar a crescer economicamente, garantindo que o país tem condições de superar a crise e voltar a gerar empregos. “Para isso é fundamental criar um pacto nacional sem ônus para a classe média e a classe trabalhadora”, afirmou, sugerindo a participação da sociedade. Reconheceu a importância de uma vitória no senado no processo de impeachment, e defendeu o plebiscito como forma de redemocratização, apontando além da eleição direta presidencial, também a necessidade de uma reforma política, criticando os financiamentos de campanha e a fragmentação partidária dos 25 partidos existentes, por interesses dispersos.

“Se nós não formos capazes de superar a crise política no Brasil, nós vamos atrasar a recuperação econômica do país”, alertou Dilma voltando a apontar condições para saída da crise, afirmando que a mesma é fruto de uma queda de arrecadação fiscal, e que há certos seguimentos, referindo-se indiretamente a FIESP, que não querem ser incluídos no ônus da questão financeira, “essa é a história do pato”, completou. E ainda mencionou que na situação contrária, no caso de crescimento econômico, quando sobram recursos para distribuição, sobra mais para os mais ricos.

Dilma disse acreditar na recuperação do país e por isso resiste e luta pela democracia. Lembrou das lutas pessoais que teve na vida, citou a ditadura, as torturas, o câncer, e agora, pela democracia e contra injustiças. E defendeu que o povo brasileiro deve ter a chance de escolher o lado da história que quer construir a democracia. Num clima quase de vitória saiu pelo lado oposto da saída, circulou brevemente entre o público mais próximo ao palco e saiu em meio aos cantos: “Olê, olê, olé, olá! Volta, Dilma!”. Deixou esperança e força para a resistência.