Todas as vozes no feminismo

É difícil ser mulher em uma sociedade machista e patriarcal, assim como é difícil ser negro em uma sociedade racista. Submetidas a estas duas formas de opressão, estão as mulheres negras

Jorlab
Jorlab
Jan 6, 2016 · 4 min read
A luta do feminismo negro é por igualdade social, política e econômica entre os sexos e aborda questões raciais (Ilustração: Isabelle Santos)

Reportagem: Milena Alves | Edição: Bruna Junskowski

Entre 2003 e 2013, o número de homicídios de mulheres brasileiras aumentou 21%, de acordo com o Mapa da Violência realizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) a pedido da ONU Mulheres. A pesquisa esmiúça os dados: neste período, os homicídios de mulheres brancas tiveram uma redução de 9,8%, enquanto a taxa de assassinato de mulheres negras subiu 54,2%. Os dados ilustram de forma trágica que mulheres negras vivem uma realidade ainda mais opressora que as mulheres brancas, e por isso se organizaram dentro do chamado feminismo negro.

Feminismo é uma ideologia que prega igualdade social, política e econômica entre os sexos. O feminismo negro não é um movimento à parte, e sim um recorte que aborda tanto questões de gênero quanto questões raciais. “Além de lutarmos contra o machismo e a misoginia, também temos que enfrentar o racismo, a hipersexualização, o extermínio da nossa juventude. As mulheres negras são as que mais morrem em decorrência do aborto clandestino, por exemplo. Temos diversas pautas que não são acolhidas pelo feminismo tradicional”, explica Suelen Regina, feminista negra.

Mariana Costa, também negra e feminista, argumenta que o movimento abriu espaço para que mais vozes fossem ouvidas. “Há outros tipos de mulheres além das apenas brancas, universitárias. Há também negras, pobres, deficientes, camponesas, lésbicas, trans, e muitas outras. Esse tipo de questionamento que o feminismo negro trouxe abrange várias bandeiras”.

Mariana e Suelen reforçam que não se trata de uma fragmentação. “É impossível o feminismo ser homogêneo porque as mulheres não são homogêneas. Temos pautas em comum, mas também tem as pautas especificas que devem ser respeitadas. São vários tipos de mulheres, várias vozes que devem ser ouvidas e essa fragmentação na verdade é tentar incluir outras vozes, outras pautas”, conclui Mariana.

A nova onda do feminismo

A primeira onda do feminismo começou no fim do século XIX, principalmente com a demanda sufragista e o direito de sair de casa para trabalhar. Vindas de um histórico de escravidão, as negras não se identificavam totalmente com essa luta, pois sempre tiveram que trabalhar, muitas vezes sendo obrigadas a se afastar da família para garantir o sustento. Questionando as demandas de um movimento que priorizava mulheres brancas de classe média e alta, o feminismo negro começa a se organizar na década de 1970.

“A partir da disputa das mulheres negras por espaço e voz dentro do movimento que começamos a ser ouvidas”, conta Suelen (Ilustração: Isabelle Santos)

“Se analisarmos historicamente, o feminismo era sim um movimento embranquecido, que não dava voz as mulheres não-brancas. A partir da disputa das mulheres negras por espaço e voz dentro do movimento que começamos a ser ouvidas. Mas esse é um processo que ainda está em construção, essa disputa ainda ocorre”, analisa Suelen.

Essa disputa pode ser enxergada na falta de representação de mulheres negras na mídia, ou de uma representação negativa. Outro exemplo é o padrão de beleza ocidental, que têm mulheres brancas como modelo a ser seguido, com sua pele clara, os traços finos e cabelos lisos. Para Suelen, “o feminismo negro proporciona às negras o conhecimento dessa realidade de opressões que se entrelaçam, e a partir disso o empoderamento”.

Reconhecer privilégios

O chamado feminismo branco é aquele que foca apenas nas mulheres brancas, cisgêneras e heterossexuais. Isso não quer dizer que as mulheres com estas características vão reproduzir esse pensamento, ignorando as pautas de suas irmãs, mas é preciso reconhecer seus próprios privilégios. “É uma questão de empatia, de entender que eu sofro com machismo, mas não com racismo. A gente não sabe o que é ser uma mulher negra nessa sociedade”, reconhece Jussara Cardoso, mulher branca que acredita que o feminismo abrange todas. “Para mim, o feminismo é desconstrução dessa sociedade machista, patriarcal, racista. Então eu tenho que ouvir todo mundo que está desconstruindo. Eu, enquanto mulher branca, só posso ouvir e somar a luta das mulheres negras com a minha”, completa.

“Acredito que o papel das feministas brancas, primeiramente, é exercitar a empatia e ouvir nossas pautas e se abrir a reflexão. É muito difícil se reconhecer enquanto racista, reconhecer seus privilégios em uma sociedade racista, mas é necessário”, reflete Suelen.

Jornal Comunicação

Jornal laboratório do curso de jornalismo da UFPR

Jorlab

Written by

Jorlab

Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná.

Jornal Comunicação

Jornal laboratório do curso de jornalismo da UFPR

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade