Medicalização é marca da infância atual

É cada vez mais comum a prescrição de psicotrópicos para crianças

Eliana Silva

Têm se tornado cada vez mais comum a prescrição de remédios psicotrópicos para crianças. E os motivos são vários: agitação, agressividade, dificuldade de concentração, oscilações de humor e por aí vai. Mas será que de fato esses comportamentos são sintomas de algo que vai errado e que precisa ser tratado com medicamentos de tarja preta?

No Brasil, uma ideia da dimensão do problema pode ser vista pelo aumento na venda de metilfenidato, conhecido comercialmente como Ritalina — medicação usada para o tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e de Hiperatividade (TDAH) que é geralmente diagnosticado na infância. Pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) mostra um aumento de quase 800% no consumo deste medicamento em uma década.

É claro que há casos nos quais a medicação pode ser de fato importante no tratamento. Mas o que se vê nos últimos tempos é que muitas vezes o comportamento indesejável de uma criança é transformado de imediato numa patologia e o remédio acaba sendo utilizado por ser a o meio mais rápido e simples de resolver o problema.

Para o psicólogo clínico infantil e adulto na Clínica Luria em Pouso Alegre, Bruno Lamarão do Nascimento, especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP), a medicação é uma valiosa ferramenta terapêutica. Por outro lado, o exagero é uma constante em vários aspectos da vida contemporânea e com a medicação não seria diferente.

“Essa é uma questão tão forte em nossa cultura que entendemos como sinônimos as palavras remédio e solução. Vale lembrar que nossa cultura centraliza o entendimento de saúde primeiramente no saber médico. Então, somos condicionados a procurar médicos antes de qualquer outro profissional, o que, na maioria das vezes, pode levar a uma medicalização”, comenta.

“O ponto é: remédio é remédio! Seja para dor de cabeça ou regulação de humor. Sendo assim, se seu uso for feito sem critério, por um período prolongado e/ou com alta dosagem, poderão ocorrer consequências desagradáveis”, assinala o psicólogo Bruno Lamarão.

O psicólogo lembra que há muita pressão sobre pais e profissionais. Pais e professores, por notarem as consequências de certos comportamentos das crianças, fazem de tudo para encontrar uma solução, recorrendo por vezes ao “caminho mais fácil”. “E ainda precisamos considerar que se o profissional disser que aquela criança não precisa de medicação ou sugerir alternativas antes de prescrever um medicamento os pais procuram outro até que encontrem aquele que atenda à sua demanda”.

Segundo ele atualmente é mesmo comum o uso de psicotrópicos na infância. No consultório, acompanha crianças que fazem uso de medicação, principalmente para desatenção, ansiedade e regulação de humor. As substâncias mais comuns são metilfenidato, lisdexanfetamina, sertralina e clonazepam. Ele diz notar que os pais estão preocupados com esse uso e alguns médicos recomendam a terapia aliada a medicação como tratamento.

Hiper diagnóstico de TDAH e o modo de vida atual

O fato é que mais e mais crianças têm sido diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e outros transtornos de comportamento. Boletim de farmacoepidemiologia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aponta que o TDAH afeta de 8 a 12% das crianças do mundo. Mas será esse número consequência do maior número de diagnósticos de pessoas com o distúrbio ou muitos casos acabam sendo identificados erradamente como TDAH?

Bruno Lamarão explica que o diagnóstico de alguns transtornos está sendo mais bem observado e expandido e, com isso, se abre precedência para que mais e mais pessoas se encaixem nos espectros desses transtornos. E aí surge o debate: esses transtornos não eram identificados antes ou foram inventados pela indústria da doença?

“Um fato incontestável é que a nossa vida atual não é saudável em alguns aspectos e isso vem gerando doenças e transtornos, independentemente deles já existirem no passado ou serem criação recente”, assinala.

Um bom diagnóstico deve levar em consideração uma série de critérios pré estabelecidos cientificamente. O que acontece é que alguns critérios se tornam mais conhecidos e a partir deles qualquer um se sente apto para diagnosticar comportamentos. “Quando se faz uma análise de um determinado comportamento, é importante observar todas as influências ambientais e também a história de vida da pessoa para que dessa forma possa se entender tanto o que causa o comportamento, quanto o que o mantêm”.

Não se pode ignorar que muitos comportamentos apresentados pelas crianças e que acabam levando a diagnósticos médicos por serem considerados “sintomas” de uma patologia podem ter relação com a forma de vida atual. Afinal, hoje a maioria das crianças vive uma infância de confinamento, de terceirização de cuidados, sendo que quase não veem seus pais, com horários de sono inadequados, num ambiente muitas vezes de superproteção, com uso excessivo de eletrônicos e excesso de agenda.

“Estamos começando a entrar em contato com as consequências do nosso modo de vida atual e, rapidamente, precisaremos repensar e modificar diversos comportamentos em direção a uma vida mais saudável. E isso não será diferente com nossas crianças. É importante ressaltar que elas apenas espelham o modo de vida adulto, mas notamos mais facilmente as consequências nelas por serem mais dependentes e estarem no início de seus desenvolvimentos”, observa Bruno Lamarão.

Consequências da medicalização

Ainda não é possível avaliar todas as consequências da medicalização na infância, visto que ainda é um fenômeno recente. Por exemplo, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade foi alvo de muitos estudos, na psicologia, principalmente entre os anos 2000 e 2010. As crianças que passaram por tratamento medicamentoso naquela época estão se tornando jovens adultos agora. E não se pode afirmar categoricamente se foram ou não medicadas equivocadamente.

“O ponto é: remédio é remédio! Seja para dor de cabeça ou regulação de humor. Sendo assim, se seu uso for feito sem critério, por um período prolongado e/ou com alta dosagem, poderão ocorrer consequências desagradáveis. Hoje em dia, adolescentes e jovens adultos têm procurado medicamentos psicoestimulantes para aumentar o foco durante os estudos. Esses podem vir a serem casos de medicação desnecessária e que exigem atenção”, destaca o psicólogo. Segundo ele há um real perigo de efeitos colaterais nocivos e permanentes, além da possibilidade de dependência quando este tipo de medicamento é utilizado sem acompanhamento médico.

Alternativas

Certas características consideradas exacerbadas em algumas crianças podem ser canalizadas para algumas atividades e tratadas de forma mais reflexiva por meio da psicoterapia, terapia ocupacional, atividades esportivas e contato com a natureza. Isso é importante e pode ser indicado, de acordo com Bruno Lamarão.

“Essas atividades e opções terapêuticas são muito bem-vindas porque oferecem estimulação dos comportamentos a serem trabalhados como, por exemplo, regras, manejo da frustração, disciplina, saber perder e/ou esperar, enfrentamento, habilidades sociais, resolução de problemas, planejamento e muito mais. Inclusive, crianças com quadros clínicos podem apresentar um desajuste comportamental no que seria socialmente adequado. Portanto, o tratamento visa submeter essas crianças à estimulação das habilidades desejadas”, explica.

Ele lembra que não apenas crianças com transtorno se beneficiam desse tipo de tratamento, mas também aquelas sem um quadro específico podem aprender tais habilidades mais rapidamente e até melhorar seu desempenho.