Os desafios de amadurecer: precisamos falar sobre limites

Jovens adultos pertencentes às gerações que convivem com a evolução tecnológica chegam despreparados ao mercado de trabalho e não têm resiliência para enfrentar as dificuldades da vida adulta

Por Renan Barbosa

Os pais de hoje querem ajudar o filho em tudo o tempo todo, porque querem que o filho se dê bem, acreditando que o jovem vai estar pronto na hora que precisar, o que é justamente o oposto. Na prática, esse filho se torna mais frágil diante das situações”.

A frase é do escritor e consultor de carreira Sidnei Oliveira, um dos maiores especialistas em formação de mentores e gerações do Brasil.

A fragilidade dos jovens explanada por Sidnei tem sido percebida por empresas e gestores em diversas situações. Esta atitude acontece por causa do desejo de garantir aos filhos acesso a bens e oportunidades que os próprios pais não tiveram, e sem grandes cobranças de resultados.

Os pais de hoje são as crianças do passado, das décadas de 60, 70 e 80, que viveram em um mundo diferente do que é hoje, e precisavam dividir tudo com os irmãos. Isso fez com que o senso de coletividade fosse trabalhado desde cedo, ao invés da preservação das vontades individuais da criança.

Com isso, os pais começaram a tentar compensar os filhos com tudo aquilo que não tinham, ou dividiam.

“Se eu não tive um quarto só pra mim, eu quero que meu filho tenha, se eu não tive uma bicicleta, eu quero que meu filho tenha… Neste contexto, além de suprir os jovens nos desejos, os pais se tornaram ultra protetores, de modo que hoje uma criança dificilmente se envolve com algo realmente complexo ou frustrante”, comenta Oliveira.

Problema e solução

O grande problema neste processo todo é a dificuldade do jovem ou adolescente em amadurecer quando adulto.

Sidnei Oliveira é consultor, autor de diversos livros sobre gerações, mentoria e carreira.

“Não amadurecendo eles perdem autonomia, se tornam dependentes. Não apenas financeiramente, mas de apoio e instruções superficiais. Querem todas as respostas mas sem se dar ao trabalho de pesquisar, de ter um posicionamento e pensamento crítico sobre os problemas”.

O excesso de informações também contribui para os jovens não desenvolverem execução, resiliência e senso crítico.

“Quando os jovens entram no mercado de trabalho, eles querem do chefe uma atitude superprotetora semelhante a dos pais, e não vão encontrar. Com isso, mesmo nutrido de formação técnica, ele não vai saber lidar com situações de conflito”, explica o consultor.

Oliveira comenta que para melhorar esse déficit, os próprios pais precisam se dar limites e deixar os jovens perceberem que tudo no mundo tem contra-partida. “Renúncia faz parte da escolha e as crianças e adolescentes precisam perceber isso. Não tem caminho diferente, a solução é simplesmente parar de conceder tudo ao filho”, enfatiza.

Mentoria

Além dos pais, as empresas também podem contribuir na correta formação dos novos profissionais, por meio da orientação feita por veteranos. Surge, com isso, a chamada “Mentoria”.

O processo de mentoria emerge com outras duas tendências: O aumento na expectativa de vida e o consequente adiamento da aposentadoria.

Ao ficar mais tempo na empresa, os gestores mais experientes passam a orientar os jovens na melhoria profissional, resiliência e inteligência emocional.

“Ao invés de ser a pessoa da execução, o veterano adota um papel de orientador, de mentor. Ele protege falhas irreversíveis, mas permite que o jovem fique na entrega das atividades”, comenta Sidnei.

A maior dificuldade neste quesito é a formação constante de novos mentores. Já existe uma tendência das empresas perceberem a mentoria como uma competência de liderança, que foca não apenas no desenvolvimento de resultados, mas também no desenvolvimento das pessoas.

“As empresas estão preparando todos os seus líderes para competência de mentoria e esses lideres estão conseguindo reverter quadros bem complexos de não engajamento de equipes e de retenção de talentos”, exemplifica Oliveira.

Ainda neste contexto, outro benefício importante que a mentoria traz é a preparação de sucessores para ocupar os cargos de liderança das companhias a médio e longo prazo. Mas como o jovem em si pode se preparar para ser um líder em meio a todas estas mudanças e dificuldades?

O jovem

Para Sidnei Oliveira, o segredo é não se iludir com a ideia de que fazer o que ama vai garantir menos trabalho.

“Não existe trabalho onde tudo é legal o tempo todo. Você pode ter muitos momentos legais durante o período, mas tem também as horas de esforço. Ou seja, o jovem deve esquecer a ilusão do trabalho onde não se faz nada, a não ser ficar feliz”, comenta.

Por fim, como escreveu o psiquiatra Içami Tiba no livro “Adolescentes: quem ama, Educa!”, o mundo do trabalho exige resiliência e resultados dos jovens.

Tiba foi um dos mais respeitados escritores sobre educação de jovens do país e faleceu em 2015. No livro citado ele foi enfático:

“Nenhuma empresa nacional ou multinacional mantém um funcionário num cabide de emprego, por caridade ou por filantropia, com conhecimento de seus diretores. Ou ele produz, ou será despedido. Se, como estudante, nada mudava, agora, sua vida pode mudar sim, de empregado para desempregado.” (TIBA, p.247)
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