A cada uma hora e meia, morre uma mulher vítima de agressão no Brasil

Cristine Fogliati
Jul 10, 2017 · 5 min read

Cristine Fogliati e Larissa Zarpelon

Dados da Flacso mostram que a taxa de mulheres negras agredidas aumentou, enquanto a das mulheres brancas caiu

A maioria das agressões ocorre dentro de casa, pelo companheiro / Crédito Maurício Koch/TJRS

“Nasci aos sete meses, com um chute que meu pai deu na barriga da minha mãe.” As palavras são da empregada doméstica, E.M, nascida em um casamento violento. Acabou casando jovem, com 12 anos, e logo em seguida, sofreu o mesmo que a mãe. Estava apaixonada e casou por amor. O rapaz, na época, tinha o dobro de sua idade. Jovem e mulherengo, traía a esposa diversas vezes. Por ciúmes, a agredia.

Na primeira vez, por achar que o problema era ela, E.M pediu desculpas após levar um soco no rosto. Mesmo assim, teve quatro filhos com o rapaz. A história dos dois continuou. Assim como a de várias outras mulheres espalhadas pelo Brasil.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) realizou, em 2013, o estudo Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil. Segundo o levantamento, a cada uma hora e meia morre uma mulher vítima de agressão. Esse dado faz com que a taxa de feminicídios do Brasil seja a quinta maior do mundo em um ranking com 83 nações, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Com a taxa de 4,8 homicídios para cada 100 mil mulheres, o Brasil evidencia que os índices locais excedem, o país só fica atrás de El Salvador (com índice de 8,9 para 100 mil mulheres), Colômbia (6,3), Guatemala (6,2) e a Federação Russa (5,3).

Comparado ao Reino Unido, o país tem uma taxa 48 vezes mais alta. No caso da Irlanda, o índice é 24 vezes maior, enquanto Japão e Escócia apresentam 16 vezes menos feminicídios que o Brasil.

Em um levantamento elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), chamado Mapa da Violência, mostra os dados de homicídio de mulheres entre 1980 e 2013, disponibilizados pelo Sistema de Informação de Mortalidade (SIM). O índice cresceu significativamente ao longo do tempo, tanto em número quanto em taxas. De 1980 a 2013, morreram 106.093 mulheres vítimas de homicídio. Efetivamente, o número de vítimas passou de 1.353 mulheres em 1980 para 4.762 em 2013, o que representa um aumento significativo de 25%. A taxa, que em 1980 era de 2,3 vítimas por 100 mil mulheres, passa para 4,8 em 2013, um aumento superior a 200%. Confira o gráfico abaixo.

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Em 2006, foi sancionada a Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha. Antes da medida, de 1980 a 2006, o crescimento do número de homicídios de mulheres foi de 7,6% ao ano; quando ponderado segundo a população feminina, o crescimento das taxas no mesmo período foi 2,5% ao ano, segundo dados do estudo da Flacso. Já no período de 2006 a 2013, após a aprovação da Lei, o crescimento do número de homicídios feminicídios caiu para 2,6% ao ano, enquanto a evolução das taxas caiu para 1,7% ao ano.

No Brasil, no ano de 2016, 29% das mulheres acima de 16 anos terem sofrido algum tipo de violência doméstica, segundo o Datafolha. A cada hora, no mesmo ano, 503 mulheres foram vítimas de violência, representando, no final, 4,4 milhões. Dentre elas, 25% eram brancas, 31% pardas e 32% pretas. Das ameaças sofridas, com 22%, ou seja, 22 milhões de mulheres sofreram ofensas verbais, 10% (5 milhões), sofreram ameaças físicas, e por último, 257 mil mulheres (1%) levaram um tiro. A maioria das agressões mais graves foram sofridas dentro de casa, por algum conhecido, e 52% das mulheres não fizeram nada. Conforme total de casos atendidos pela Central de Atendimento à Mulher, 51% dos relatos foram de violência física, seguido de violência psicológica, violência moral, cárcere privado e violência sexual. Os dados de 2017 ainda não foram divulgados.

Homicídios por Estado

Dados do Mapa da Violência demonstram que, entre os anos 2003 até 2013, a taxa de violência contra a mulher cresceu. Cinco estados apresentaram índices altos. Roraima apresentou o maior, com 15,3 feminicídios para cada 100 mil mulheres, em segundo lugar, Espírito Santo, com 9,3, seguido por Goiás e Alagoas, ambos com 8,6. Logo após vem o Acre, com 8,3 todos para 100 mil habitantes. Os demais estados não tiveram média acima de 6,3. Confira no gráfico logo abaixo.

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Perfil das vítimas e dos agressores

“Ele invadiu minha casa muitas vezes. Mesmo separados, me machucou, me bateu, o porquê eu não sei. Uma vez ele invadiu minha casa porque pedi para ele pegar as crianças e ele chegou bêbado e eu não deixei levar as crianças. Aí ele disse que eu estava o tirando para bobo. Me bateu, me machucou muito e me escondi no mato, se não, ele ia me matar aquele dia. Ele estava com uma adaga para me matar.’’ E.M.

Na situação descrita acima, E.M. quase fez parte das estatísticas, sendo que dos 18 a 24 anos representa 12,1% das vítimas que são assassinadas e por arma branca, que representa 36,5%. Ainda segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS), 30% dos crimes, ocorrem por brigas com o agressor. E.M, faz parte dos 21,1% das vítimas que tem filho com o agressor. Conforme dados de 2014 da SSP, 83,7% das mulheres agredidas no Estado são brancas. Até março deste ano, foram registrados 10.030 casos de ameaças contra a mulher. Lesão corporal, estupro e feminicídios consumado e feminicídios tentado somam 6.675 casos.

No primeiro semestre do ano, foram registrados mais de dez mil casos de ameaça /Crédito: Maurício Koch/TJRS

Ainda de acordo com os dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado, 18,3% dos agressores tem entre 35 e 39 anos. E 15,4% entre 25 e 29 anos. A maioria dos crimes contra a mulher ocorrem pelo autor não aceitar a separação, por discussões ou brigas. Esses casos representam 30%. Sendo que em 48,4% os crimes ocorrem em relacionamentos atuais.

Perfil das vítimas por cor

A questão da raça/cor na violência, a população negra é vítima prioritária, as taxas de homicídio da população branca tendem, historicamente, a cair enquanto aumentam as taxas de mortalidade entre os negros e por este motivo, nos últimos anos, o índice de vitimização da população negra cresceu de forma drástica.

Segundo dados, o número de homicídios de vítimas brancas cai de 1.747, em 2003, para 1.576, em 2013. Isso representa uma queda de 9,8% no total de homicídios de período. No mesmo período, a taxa de homicídios de mulheres negras aumentou 54,2%, passando de 1.864 para 2.875 vítimas.

Jornalismo de Dados — UniRitter

Reportagens produzidas na disciplina de Jornalismo de Dados da Faculdade de Comunicação Social (FACS) da UniRitter.

    Cristine Fogliati

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    Jornalista. Contadora de histórias. Fotógrafa nas horas vagas. Instagram: @cfogliati

    Jornalismo de Dados — UniRitter

    Reportagens produzidas na disciplina de Jornalismo de Dados da Faculdade de Comunicação Social (FACS) da UniRitter.

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