Vítimas da estatística

Dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus) revelam que o número de crianças vítimas fatais de acidente de trânsito, afogamento e sufocamento está diminuindo. No entanto, a intoxicação continua sendo um fenômeno recorrente. Entenda o que fazer para mudar as estatísticas

Por Leticia Szczesny e Taina Flores

Foi muito rápido. Um homem bêbado bateu na traseira do nosso carro em alta velocidade”, conta Cintia Neher, professora particular de matemática. Na noite do dia 29 de agosto de 2013, no km 98 da BR-290, a freeway, um motorista embriagado em alta velocidade atingiu o carro onde ela estava. Junto estavam o marido, Alexandre, um amigo e seus dois filhos: Alexandra, de 15 anos, e Matheus, de 11. A jovem faleceu naquela noite. “Nós estávamos sentadas no banco de trás. Ela escorou a cabeça no meu ombro e me disse que queria fazer um estágio e que estava pensando em trabalhar”, emocionada a mãe lembrou dos últimos momentos com a filha.

Família Neher./ Crédito: Arquivo pessoal da família

Matheus Neher, que na época tinha 11 anos, ficou gravemente ferido. No momento do acidente ele, a irmã e a mãe, que estavam no banco de trás do veículo sem cinto de segurança. O menino teve traumatismo craniano e ficou com a visão afetada nos dias seguintes ao acidente. Ele passou dez dias na UTI até recuperar a visão. “Ele passou muito mal, mas agora está bem”, afirmou.

Após um ano do acidente, nasceu Ayrton, o irmão mais novo de Alexandra e Matheus. “Foi o Ayrton e o Matheus que fizeram com que a gente seguisse. Os dois são o que fazem com que consigamos seguir a nossa luta dia após dia. São os dois que nos mantém de pé”, contou a mãe.

Em busca de justiça

Hoje, depois de quase quatro anos do acidente, a família ainda tenta se superar da perda da jovem. E tenta buscar, na justiça, uma reparação para a perda. “Tivemos duas audiências. Em uma ele não foi. Compareceu na última e não quis falar nada, ficou calado”, desabafou a mãe sobre o homem que bateu no carro onde estava sua família. Cintia afirmou esperar que o homem pague pelo que fez. “Ele acabou com a minha família, acabou com a minha vida. Eu lembro disso todos os dias. Não quero que aconteça com mais ninguém o que aconteceu comigo”.

Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) apontam que o trânsito é a principal causa de morte de crianças de 0 a 14 anos. Em seguida vêm afogamento e sufocação. Os números de casos fatais caíram nos últimos anos. Mas os números ainda são significativos.

Em 2013, ano do acidente da família Neher, 6.921 crianças com idade entre 10 e 14 anos, foram hospitalizadas devido a acidentes de trânsito no Brasil. Ao todo, 14.977 deram entrada em hospitais. Porém, nem todas são somente internadas e recebem alta. Nesse período, 1.755 crianças entre 0 e 14 anos morreram.

Confira o gráfico no link a baixo:

https://public.tableau.com/profile/leticia.szczesny#!/vizhome/LivrDistribuiodashospitalizaesemortesemdecorrnciadeacidentesporcausaeporfaixaetria/Distribuiodashospitalizaesemortesemdecorrnciadeacidentesporcausaeporfaixaetria?publish=yes

Em 2001, ano que teve o maior número registrado de óbitos, aproximadamente 2.490 faleceram. Desde então, até 2014, houve uma queda de 33% dos casos no Brasil. As hospitalizações, contudo, tiveram um aumento significativo entre 2008 e 2014: o número de internações por ano aumentou em 4.000 no período.

“As crianças estarão mais seguras, enquanto passageiro, se protegidas pelos dispositivos de segurança adequados a sua idade e estatura, ou seja, bebe conforto, cadeirinha ou assento de elevação, além de cinto”, comentou Lais Elisabeth Silveira, chefe da Divisão de Educação — Escola Pública de Trânsito Detran/RS. De acordo com dados do Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Sul (Detran/RS), em 2013, 702 colisões envolveram vítimas fatais.

Segundo Lais Silveira, porém, enquanto pedestre, a criança é mais vulnerável devido ao seu campo de visão em travessias. Isso ocorre, também. pela dificuldade de visualização do condutor devido à estatura da mesma. “É necessário ter sempre um adulto presente nos deslocamentos, uma vez que falta à criança a compreensão do perigo”, comentou. De janeiro de 2007 a março de 2015, 36% das mortes de pessoas com idade de 0 a 14 anos, no Rio Grande do Sul, foram em colisões frontais e laterais. Essa faixa etária representa 7% do total de mortos em atropelamentos e 7% em colisões.

Acidente que mais mata crianças

De acordo com os dados do Detran/RS, 44% das crianças vítimas de acidentes de trânsito estavam na condição de passageiros, 36% como pedestres, e outras 11% estavam na condição de ciclistas. Os casos de vítimas fatais com idade entre 12 e 14 anos que estavam na condição de condutores, somam 16 mortos. Durante o período de análise a maior concentração de mortes deu-se entre 11 e 14 anos, seguido pela faixa de 4 a 7 anos . “Em qualquer idade, todos os ocupantes do veículo se não estiverem usando o cinto de segurança estarão mais suscetíveis de sofrerem lesões graves em casos de acidente de trânsito”, afirmou Lais.

Neste período de oito anos, 687 crianças de 0 a 14 anos perderam a vida no trânsito do Estado. Segundo dados elaborados pelo Detran/RS para a 3ª Semana Mundial de Segurança no Trânsito em maio de 2015, às crianças representam 4% do total de 16.421 vítimas fatais no trânsito no período analisado. Em 2015, houve um aumento de 6% no número de casos. Foram 22 mortes de um total de 430 nos primeiros três meses do ano.

Cuidado com crianças nas ruas. / Crédito: Divulgação Criança Segura

Em julho deste ano, a exposição Brinquedos Órfãos tornou o terceiro andar do Aeroporto Salgado Filho, um lugar triste e de muitos pensamentos. A mostra itinerante, criação da ONG Instituto Paz no Trânsito (Iptran), reuniu lembranças de crianças vítimas de acidentes de trânsito. Pais fizeram doações de brinquedos que eram dos filhos. A intenção é homenagear e também alertar as pessoas sobre os cuidados com as crianças. Afinal, eles são muito jovens para deixar suas famílias e seus brinquedos.

Perigo nas águas: os riscos do descuido

Mares, cachoeiras, rios, lagoas e piscinas são ótimos meios de se refrescar durante verão. Porém, deve-se ter cuidado e muita atenção com as crianças. Em 2002, o número total de acidentes por afogamento com vítimas fatais foi de 1.603. O índice declinou a partir do ano de 2010 e se manteve estável até 2014, quando foram registrados 1.045 casos. Os eventos mais recorrentes acontecem com crianças entre 10 e 14 anos de idade. O ano de 2001 foi o que registrou o maior número de incidentes com crianças dessa faixa etária, foram 610 ao total. Estes números vieram até 2014, que registrou 371 acontecimentos, quase metade do valor de 2001.

Um dos casos mais comuns é afogamento em piscinas pela sucção do cabelo pelo ralo. Foi o que aconteceu com Mariana de Oliveira, de 8 anos. Em janeiro de 2014, Mariana brincava no tobogã quando teve o cabelo sugado pelo ralo da piscina de um clube em Belo Horizonte, Minas Gerais. De acordo com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), ela sofreu uma parada cardíaca antes de chegar ao hospital.

Os afogamentos estão entre os acidentes que menos levam as crianças a hospitalização. Porém, os números ainda são elevados e cresceram nos últimos anos. Após reduzir consideravelmente de 2008 para 2013, o número de casos com internações por acidentes deste tipo aumentou e chegou a 200. Este número se manteve em 2015. A faixa etária que menos sofre é a que normalmente está sob total cuidado dos pais, como os bebês menores de um ano de idade. Dos 5 aos 14 anos, quando as crianças estão passando por uma fase de descobrimento, ou não obedecem aos pais porque estão entrando na pré-adolescência, os casos aumentam. Em 2008 foram registrados ao todo 267 casos com pessoas dessa idade.

Para evitar estes tipos de acidentes, ou ao menos diminuir os riscos, alguns métodos de segurança podem ser aplicados. Cercas em piscinas, boias e a supervisão de um adulto responsável sempre que estiverem próximos a locais desprotegidos, é fundamental e podem evitar com que aconteça um afogamento ou até mesmo algo fatal. O cérebro resiste a apenas três minutos sem oxigenação. Após esse tempo, a possibilidade de lesões neurológicas é grande. No caso de parada cardíaca, os danos podem ser ainda maiores.

Cuidado de menos sufoca

O perigo causado pela sufocação afeta centenas de crianças durante os anos. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2013 o número de crianças que vieram a óbito foi de 825. Desse total, 606 aconteceram com crianças menores de 1 ano, que, por alguns instantes de descuido dos pais ou responsáveis, acabem se machucando. Além disso, entre bebês, a falta de habilidade de levantar a cabeça ou se mover de lugares apertados os coloca em maior risco.

As hospitalizações por sufocação, causada principalmente por alimentos, brinquedos, má posição na hora de dormir, cordões e tiras vem subindo com o passar dos anos. De 2008 para 2011, houve um crescimento de 504 para 720 casos registrados. Para evitar que isso ocorra, basta tomar algumas medidas de segurança. Evitar alimentos duros, ensinar a criança a comer sentada, colocar para dormir sempre de barriga para cima, adulto devem evitar dormir com os bebês, brinquedos adequados para a idade da criança, tirar objetos pequenos, como botões, joias e moedas do alcance da criança, entre outras prevenções.

Houve uma queda no número de óbitos em 2005, com 806 casos, para 698 em 2007. Micael, com apenas 3 meses, está dentro dessa estatística. O menino foi vítima de um sufocamento por cobertor, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Por descuido do pai, Micael estava coberto até a cabeça. Quando o Samu foi acionado, já era tarde demais.

Deixar as crianças sem a supervisão de um adulto, nem que seja por alguns instantes, pode ser fatal, por isso, os devidos cuidados são cruciais para a sua saúde. Manter uma criança segura não é tarefa fácil, já que estão em constante crescimento e aprendizagem. Querer descobrir coisas novas pode trazer um certo risco, que pode ser evitado com muita atenção do que se deixa por perto dos pequenos. Algo novo sempre pode parecer interessante, porém, não pode haver descuido da parte dos adultos.

Tóxicos: não deixe perto de crianças

Intoxicação e envenenamento estão em quinto lugar entre as causas de internação por acidente entre crianças com idade de a 0 a 14 anos. Poucos minutos bastam para que a criança vá até o medicamento, produto de limpeza, alimentos, ou outros produtos intoxicáveis, e os ingira.

“Um domingo de manhã, acordamos e fui fazer a mamadeira dele, como de rotina. Questão de minutos, quando voltei ao quarto para dar mamadeira, ele estava sentado na cama, branco como cera, e se queixando de dor na barriga. Em seguida desmaiou”, contou Fernanda Pieretti sobre o ocorrido com seu filho Felipe, 3 anos, em novembro de 2013. Segundo ela, na mesma hora, viu o tubo de Sorine aberto na cama e deduziu que ele tivesse ingerido ou posto no nariz.

Com Felipe desmaiado nos braços, Fernanda e o marido, levaram o filho ao Hospital Conceição, na zona norte de Porto Alegre. Chegando ao hospital, deram entrada imediata na emergência, devido à gravidade do caso. “A dose que foi ingerida era para ter sido letal, segundo a médica”, contou a mãe.

Ainda de acordo com ela, o filho estava com hipotermia e os batimentos cardíacos muito baixos, podendo a qualquer momento ter uma parada cardíaca. Após, ficar duas horas em observação para o controle da temperatura e dos batimentos, Felipe foi transferido para a Unidade Terapêutica Intensiva (UTI). Em questão de poucos dias, o menino recebeu alta, após, a mãe passar por uma entrevista com o conselho tutelar. “Depois disso, faço de tudo para não deixar nada perigoso ao alcance dele.”

No ano em que Felipe foi hospitalizado, cerca de 3.425 crianças deram entrada nos hospitais do Brasil, pelo mesmo motivo. Felizmente, desde então, esse número vem caindo a cada ano. No mesmo período, 64 crianças vieram a óbito, após serem intoxicadas. Os casos de mortes por intoxicação foram maiores entre os anos de 2002 e 2005, chegando a até 123 casos fatais.

Acidentes mais comuns. / Crédito: Ilustração Leticia Szczesny

A exploração do espaço é uma atividade importante para o desenvolvimento infantil. As crianças são naturalmente curiosas e colocar objetos na boca ou tentar pegar frascos com líquidos coloridos são comportamento característicos dessa fase. Dados do SUS mostram que crianças de 2 a 4 anos são as que mais sofrem com a intoxicação. Em 2013, ano do caso ocorrido com Felipe, por exemplo, cerca de 1.065 outras crianças dessa faixa etária foram hospitalizadas e 32 faleceram.

Em busca de mudança

A Criança Segura é uma ONG qualificada como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), de atuação nacional. A entidade começou a atuar no Brasil em 2001, fazendo parte da Safe Kids Worldwide, a primeira e única rede global de prevenção de acidentes na infância. Desde o início de suas atividades no Brasil, o índice de mortes provenientes de acidentes de crianças caiu 32%.

A principal missão da Oscip é promover a prevenção de acidentes com crianças e adolescentes de até 14 anos de idades, fazendo com que casos como o do Matheus, da Mariana e do Felipe sejam menos comuns no país. Segundo a ONG, os acidentes são a principal causa de morte da população dessa faixa etária no Brasil. Entretanto, 90% deles podem ser evitados com medidas simples de prevenção, que envolvem divulgação de informações, mudança de comportamento e no ambiente de implantação de políticas públicas.

De acordo com a organização, o trauma gerado por um acidente não afeta somente a vítima, mas toda a sua família. Alguns pais, quando um filho sofre uma grave lesão ou morre por causa acidental, se desestabilizam emocionalmente. A família Neher, por exemplo, após a perda da filha e a hospitalização do filho, tentam até hoje voltar à rotina, mas sempre com o pensamento no acidente e que ele poderia ser evitado.

Segundo Vanessa Machado, analista de comunicação da Criança Segura, a organização acredita que seu trabalho é parte fundamental na redução do número de mortes de crianças por acidentes. Para que haja um resultado significativo, a organização atua a partir de três pilares: comunicação, informando o público sobre como prevenir os acidentes; mobilização, expondo a pais, professores e profissionais da saúde, palestras, cursos online e outros; e políticas públicas, onde ocorre um trabalho de incidência política em defesa de causas ligadas à infância e adolescência

“Para nós, a análise dos dados do Datasus é muito importante para a execução do nosso trabalho, pois, além de demonstrar o sucesso de nossa atuação, os dados nos mostram que áreas ainda precisamos investir mais esforços para reduzirmos os números de mortes e hospitalizações de crianças”, afirmou Vanessa. O site da organização possui um espaço no qual, são disponibilizados os dados.

Do ano de fundação da Criança Segura em 2001 até a última atualização dos dados do Datasus em 2015, o número de mortes de crianças de 0 a 14 anos devido a acidentes caiu 37,24% no Brasil. “De 2014 para 2015, esse número apresentou uma queda de 10%, a maior de um ano para o outro registrada desde que acompanhamos os dados”, comemora Vanessa.

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