Morando em Alvorada, vivendo em Porto Alegre

Pessoas se deslocam diariamente de Alvorada para capital com o intuito de trabalhar e/ou estudar. Foto: tprotto

A rotina de quem vive em uma cidade dormitório. A história da técnica de enfermagem Leticia Menezes e da mãe Suena Maria Menezes que se deslocam de Alvorada à Porto Alegre para trabalhar. Os gastos de tempo e dinheiro com o transporte, além da busca por qualidade de vida

Por Leticia Szczesny e Vinicius Moura | Jornalismo Econômico | UniRitter Campus Fapa

Cerca de 55.760 moradores de Alvorada (RS) percorrem aproximadamente 21 km para trabalhar e/ou estudar em Porto Alegre (RS), de acordo com dados do estudo “Arranjos populacionais e concentrações urbanas do Brasil”, divulgados em 2016, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Neste grupo, está Suena Maria Menezes, de 65 anos, técnica de enfermagem, que antes mesmo do sol nascer, se levanta para trabalhar na capital.

Há 38 anos Suena possui a mesma rotina, se deslocando de Alvorada para trabalhar em Porto Alegre. “Não me canso disso”, disse a aposentada, que continua trabalhando para ter uma renda melhor. O dia de Suena começa às 5h30. Depois de levantar, antes de qualquer coisa, passa café, que, segunda ela, é o melhor cheiro para se sentir logo no início do dia. O uniforme da técnica de enfermagem está separado sobre o sofá, desde à noite anterior junto ao crachá, já desgastado pelo tempo. Quando o relógio marca 6h, a aposentada sai para pegar o ônibus rumo ao Hospital Conceição, na zona norte de Porto Alegre, onde trabalha.

Há mais de 38 anos, Suena Maria Menezes trabalha no Hospital Conceição. Foto: Vinicius Moura

Alvorada é conhecida por ser uma cidade dormitório, isso porque muitas pessoas possuem a mesma rotina de Maria, e só voltam para casa à noite. O termo, conforme o artigo “O estigma de morar longe da cidade: repensando o consenso sobre as ‘cidades-dormitório’ no Brasil” costuma ser utilizado para se referir a municípios que apresentam baixo desenvolvimento econômico e social, precárias condições de assentamento de vida para população e nítida dependência econômica de um polo regional.

Taxa de mobilidade pendular por AEDS da Região Metropolitana de Porto Alegre — 2000 / Imagem ilustrativa retirada do estudo “Movimento Pendular da população na Região Sul”

Segundo o estudo “Movimento pendular da população na Região Sul”, realizado em 2009 pelo grupo de pesquisa e planejamento urbano e social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Alvorada é um dos municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre que apresenta as maiores taxas de mobilidade da população. De acordo com o professor de geografia formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Rodrigo Costa de Aguiar, de 31 anos, o movimento pendular entre as cidades se deve a fatores econômicos. “Os dois motivos principais pelos quais ocorrem as migrações pendulares estão relacionados ao trabalho e oportunidade de estudo”.

Trabalho em outra cidade

De acordo com dados do IBGE (2015), em Porto Alegre, o salário médio mensal dos trabalhadores é de 4,2 salários mínimos. Quem trabalha em Alvorada, recebe 2,5 salários mínimos. Com a renda maior na capital, as pessoas optam por se deslocar, mesmo com gastos de transporte.

Há aproximadamente 20 anos, Letícia Menezes, de 42 anos, se desloca, de carro, da cidade onde reside para trabalhar em Porto Alegre. Atualmente, a técnica de enfermagem e filha de Suena Maria, mora em Alvorada e trabalha no Hospital Mãe de Deus, na zona sul da capital. O movimento pendular, segundo Letícia, é ocasionado pelas oportunidades de emprego. “Eu me desloco diariamente para trabalhar em Porto Alegre, porque tem pouca oferta de trabalho aqui”. Ela ressalta que se o salário e o local fossem adequados, trabalharia na cidade.

A capital desempenha um papel importante na rede urbana brasileira, especialmente como centro de gestão econômica e territorial e de serviços para a Região Sul do Brasil, de acordo com o livro “Porto Alegre: transformações na ordem urbana”, publicado em 2015 pelo Observatório de Metrópoles. “O baixo custo de imóveis associados às baixas oportunidades de emprego e principalmente ensino superior, faz com que as pessoas busquem realizar suas atividades na metrópole”, explicou Rodrigo.

Segundo dados divulgados em agosto deste ano pela Fundação de Economia e Estatística (Fee), Fundação Gaúcha do Trabalhador e Ação Social (FGTAS) e Departamento Intersindical de estatística e estudos socioeconômicos (Dieese), o aumento dos pontos de trabalho levou à queda da taxa de desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre. A taxa fechou o mês de agosto em 10,4%, em comparação aos 11% apurados em junho.

Apesar do desenvolvimento econômico nos outros municípios, Porto Alegre continua sendo um polo, onde a população busca por empregos e melhores condições de ensino, segundo o livro “Porto Alegre: transformações na ordem urbana”. “Durante esses anos que eu trabalho lá em Porto Alegre, algumas vezes já surgiram oportunidades aqui, mas nada se compara a estrutura hospitalar e financeira de lá”, relatou a aposentada Suena Maria Menezes.

Dia a dia no trânsito

O maior desafio de Letícia é o trânsito. A técnica de enfermagem, leva aproximadamente duas horas para percorrer 21,5 km até sua casa no final do dia — trajeto que sem engarrafamentos dura cerca de 35 minutos. “Quando eu trabalhava à noite, pegava o horário do movimento na ida, e voltava tranquila pela manhã. Agora, que eu trabalho à tarde, eu pego o movimento da volta”.

A equipe de reportagem acompanhou Leticia na volta do trabalho. Confira:

Reportagem e produção: Vinicius Moura

Letícia gasta em média R$ 350,00 por mês com gasolina. “Eu abasteço mais de uma vez por semana às vezes, porque sempre estou procurando o posto com melhor preço”, disse. A técnica em enfermagem relata que um dos principais trechos de lentidão no trajeto é a Avenida Ipiranga, na zona sul de Porto Alegre. “Sexta-feira e véspera de feriado são os piores dias para voltar para casa. O trânsito fica um caos. São nesses horas que eu tenho vontade de voltar a usar ônibus”. O motivo pelo qual Leticia não utiliza o transporte público é demora na espera e a insegurança nas paradas.

Já que realiza o mesmo trajeto diariamente, Letícia, dá carona às colegas de trabalho. Conhecida como carona solidária, a iniciativa tem sido bastante utilizada por pessoas que fazem o mesmo translado com frequência. Segundo a técnica de enfermagem, Caroline Mattos, de 42 anos, que pega carona com Letícia, a atitude facilita o deslocamento dela até o local de trabalho. “Fora que a carona solidária é muito boa para o mundo, já que reduzindo os carros ajudamos a diminuir a poluição”, disse a enfermeira, ressaltando que se fosse utilizar o transporte público teria que pegar dois ônibus.

Dilemas do transporte público

Segundo a Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional (Metroplan), responsável desde 1998 pela gestão do transporte metropolitano, os tempos ou a duração das viagens médias para os transportes coletivos estão em torno de 30 minutos. Afirmação desmentida por usuários alvoradenses. “Para chegar ao Centro de Porto Alegre faço uma viagem de quase duas horas”, afirmou Rochelle Nunes, de 41 anos, que utiliza o ônibus da linha Porto Verde, diariamente, às 6 da manhã.

O Diretor de Transportes Metropolitanos da Metroplan, Danilo Landó, afirma que o problema de demora das viagens está relacionado a logística do transporte coletivo entre Porto Alegre e cidades da região. “É um absurdo um ônibus de Alvorada não deixar ninguém embarcar na Capital”. Segundo ele, o excesso de ônibus nos corredores retarda o trânsito. Landó ainda atribui parcela de culpa ao horário de pico. Porém, Nadja Nunes, resmungou indiretamente à reportagem, enquanto sua irmã Rochelle concedia entrevista, dizendo que “os atrasos acontecem a qualquer hora do dia”.

O que também implica em incomodo aos usuários do transporte público, é o valor da passagem. Atualmente a passagem das linhas variam de R$ 3,85 à R$ 6,70 conforme a região. “Os valores das passagens estão cada vez mais altos, que eu nem sei se vale a pena deixar de ir no conforto do meu carro para andar de ônibus”, disse Leticia Menezes.

A empresa responsável por fazer o deslocamento dos alvoradenses entre Alvorada e Porto Alegre é a Sociedade de Ônibus União — popularmente conhecida como Soul. São 273 veículos, 180 linhas, que transportam diariamente 87 mil usuários. É a concessão com a maior variante de linhas que entram e saem de Porto Alegre.

Soul é uma das empresas responsáveis pelo transporte dos moradores de Alvorada. Foto: Jonathas Costa

Segundo Landó, há 10 anos, a média de usuários da Soul por ano era de 31 milhões. Nesse período, a cada dois anos, o número de pessoas que utilizam os serviços da empresa caiu 7%. Ou seja, 2017 encerrará com uma média de 23,18 milhões de cidadãos alvoradenses que destinam-se a Porto Alegre através do transporte público.

Para o professor Rodrigo Costa de Aguiar, exististe uma tendência de diminuição dos movimentos pendulares entre as cidades com o decorrer dos anos. “Porto Alegre vem perdendo cada vez mais participação econômica no contexto da região metropolitana”. Além disso, de acordo com Aguiar, os municípios em torno da capital têm se desenvolvido cada vez mais. “É uma realidade muito recente e precisa de um longo tempo de análise”, disse.

Segundo Leticia Menezes, a vida seria muito mais fácil se não tivessem que se deslocar todo dia para trabalhar em outra cidade. “Quem sabe não montamos nosso próprio hospital em Alvorada, mãe?”, disse a enfermeira brincando com a mãe, Suena Maria Menezes. Porém, ressaltou que enquanto as coisas não mudam, vai ter que continuar na mesma rotina. “Olha eu gostaria muito de poder trabalhar perto de casa, mas como não dá, continuo assim. Quem sabe no futuro as coisas não serão diferentes, né?”.

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Relatório final

Leticia Szczesny

Fontes:

- Rodrigo Costa de Aguiar

- Caroline Mattos

Documentos/Estudos:

- Estudo “Arranjos populacionais e concentrações urbanas do Brasil”

- Estudo “Movimento pendular da população na Região Sul”

Dados:

- Dados divulgados pela Fundação de Economia e Estatística (Fee), Fundação Gaúcha do Trabalhador e Ação Social (FGTAS) e Departamento Intersindical de estatística e estudos socioeconômicos (Dieese)

Vinicius Moura

Fontes:

- Suena Maria Menezes

- Leticia Menezes

- Nadja Nunes

- Rochelle Nunes

- Danilo Landó

Documentos/Estudos:

- Artigo “O estigma de morar longe da cidade: repensando o consenso sobre as ‘cidades-dormitório’ no Brasil”

- Livro “Porto Alegre: transformações na ordem urbana

Dados:

- Dados do IBGE (2015)

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