O valor da arte: museus afetam a economia de Porto Alegre

O Rio Grande do Sul tem a melhor taxa de museus do país segundo o Instituto Brasileiro de Museus. Mas, de que forma as fundações e instituições culturais influenciam na economia do estado e da capital gaúcha?

Exposição “Guarde seus olhos”, de Felipe Caldas, no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul. Foto: Aline Eberhardt

No dia 10 de setembro de 2017 o Santander Cultural encerrou antes do previsto a exposição Queermuseu — Cartografias da Diferença na Arte Brasileira. A mostra havia sido aberta ao público em 15 de agosto e deveria ir até o dia 8 de outubro com a proposta de explorar a diversidade de expressão de gênero e a diferença na arte e na cultura em períodos diversos da produção artística. Sem um modelo cronológico de disposição, propunha desfazer hierarquias e mostrar que a diversidade surge refletida no modelo artístico, observada sob aspectos da variedade e da diferença.

Para a exposição ter sido encerrada tão cedo — 28 dias antes da data prevista — ocorreram diversas manifestações contrárias nas redes sociais, principalmente nas avaliações da página do Facebook do centro cultural. As queixas foram diversas, mas as que mais se destacaram foram as que acusavam a mostra de incentivar a pedofilia, zoofilia e até blasfêmia.

As reações contrárias ganharam mais força ainda com a manifestação de grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL). A página do MBL no Facebook publicou um texto do Jornal Livre com o título “Santander Cultural promove pornografia e até pedofilia com base na Lei do Incentivo à Cultura” e, desde então, a polêmica aumentou e não parou mais.

Diante das críticas, o Santander emitiu uma nota em que esclareceu os objetivos da mostra, além de repudiar a pedofilia e o preconceito:

“Algumas peças apresentadas na mostra revelam imagens que podem provocar um sentimento contrário daquilo que discutem. Porém, foram criadas justamente para nos fazer refletir sobre os desafios que devemos enfrentar em relação à questão de gênero, diversidade, violência, entre outros. O Santander repudia a pedofilia e todo tipo de preconceito. Adotamos uma posição inclusive e, ao mesmo tempo, incentivamos uma mudança no modo de pensar, em sintonia com uma sociedade diversa e democrática”, postou o centro cultural, um dia antes de encerrar a exposição.”

“Meu sentimento foi de indignação pela classe artística”

“Deu-se início a um processo de criminalização da arte e dos artistas. O Santander cometeu um crime contra o patrimônio artístico e cultural brasileiro ao fechar uma exposição de tamanha grandiosidade”, relata o curador da exposição Queermuseu, Gaudêncio Fidélis.

Fidélis é bacharel em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre em Arte pela Universidade de Nova York e doutor em História da Arte pela Universidade do Estado de Nova York. O curador informou que esta é a primeira exposição queer deste tamanho na América Latina e que começou a ser pensada em 2010, passando por diversos estágios de busca de patrocínio, amadurecimento e realização. Há mais ou menos um ano, Gaudêncio começou as negociações com o Santander e continuou trabalhando o conceito e a plataforma da mostra.

A exposição foi aprovada em 2016 pelo Santander e também aprovada na Lei Rouanet. Fidélis explicou como o processo foi turbulento. “De lá para cá foi realizado um trabalho intenso de negociação de empréstimos e de toda a logística que envolve a exposição para que ela pudesse abrir em agosto deste ano”.

Para o curador, fechar a exposição em dois dias de manifestações nas redes sociais é inimaginável. “Existem diversas instituições financeiras patrocinadores no país e nenhuma delas nunca censurou uma exposição, um livro, uma peça de teatro. Nunca uma exposição deste tamanho foi censurada, salvo o caso do Banco do Brasil em 2006, que censurou a exposição da Márcia X, no Centro Cultural do banco”. Na época, a retirada da obra “Desenhando em terços”, da exposição Erótica — os sentidos da arte, trouxe polêmicas envolvendo religião e liberdade de expressão.

Fidélis ainda afirmou e usou como exemplo o Itaú, que já foi atacado outras vezes em exposições que realizaram e nunca censuraram as mostras. “O Santander é uma vergonha para a comunidade artística e cultural brasileira e para a sociedade deste país”, finalizou.

Até o fechamento da matéria, o Santander Cultural não atendeu às perguntas e não manifestou seu posicionamento em relação à reportagem.

Obra “Travesti da Lambada e Deusa das Águas”, de Bia Leite. Divulgação: Santander Cultural

A arte na economia

Um estudo desenvolvido pelo Boston Museum of Fine Arts (MFA) em 2001 ressaltou uma série de papéis desempenhados por instituições culturais que contribuem direta ou indiretamente para a economia. Segundo a pesquisa, as multiplicidades de instituições culturais fazem delas “motores escondidos” da economia de determinado local.

O Brasil tem apoiado a produção e difusão de atividades culturais por meio de programas de fomento ou leis de incentivo, como a Lei Rouanet. Criada em 1991, o texto é constituído por sua política de incentivos fiscais para projetos e ações culturais, que trazem benefícios por meio de descontos ou isenções dos impostos. Atualmente, mais de três mil projetos são apoiados a cada ano por meio desse mecanismo.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2011 a economia criativa — setor econômico formado pelas indústrias criativas — tinha participação de 7% de bens e serviços culturais no PIB mundial. No Brasil, esse crescimento médio anual dos setores criativos (6,13%) foi superior ao aumento médio do PIB nacional (cerca de 4,3%) nos últimos anos.

No caso Queermuseu, o Banco Santander teve sua economia afetada por ambos os lados. Uma parcela de clientes desaprovou a própria exposição e outra parcela desaprovou a posição de retirar as obras. Corriam boatos de que o banco havia perdido mais de 20 mil clientes — número de avaliações negativas da página. Entretanto, essas informações foram desmentidas.

No último mês o Banco Central divulgou o ranking de queixas contra bancos com mais de quatro milhões de clientes no terceiro semestre de 2017. O Santander lidera essa lista, com mais de 1,6 mil queixas. Esses dados são referentes aos meses de julho, agosto e setembro — coincidentemente o período em torno da polêmica.

Aviso em frente à mostra de fotos contemporâneas exposta no MACRS. Foto: Aline Eberhardt

Projeto de classificação indicativa

Depois dos protestos contra e a favor do fim da Queermuseu, o deputado Lucas Redecker, do PSDB, protocolou o projeto que determina às instituições onde ocorrem eventos culturais notifiquem a classificação etária indicada para cada exposição, mostra e exibição de arte. A medida deve ser válida para todo o Rio Grande do Sul e depende de regulamentação do Governo do Estado.

O projeto deve classificar os eventos nas categorias: livre; não recomendado para menores de dez anos; não recomendado para menores de catorze anos; não recomendado para menores de dezesseis anos; não recomendado para menores de dezoito anos. A faixa etária deverá ser exibida de forma clara, nítida e acessível nos meios que as divulguem e nos termos especificados em regulamento próprio.

Depois de aprovado, o projeto trará detalhes sobre o que acontece com as instituições que não cumprirem a medida. Sérgio Monteiro, economista e professor de Microeconomia II na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), defende que “a função do museu é oferecer arte e arte não deve ter restrições”. “Na medida em que há restrição e isso impede as pessoas de visitarem o museu, você está reduzindo o nível de produção de um bem cultural, o que gera um efeito econômico negativo”, disse.

Para Gaudêncio Fidélis, a classificação indicativa não tem propósito no momento. “Quais serão os limites e quem irá julgar o que é ou não apropriado? Rapidamente a lei se transformará em um mecanismo de censura colocado em prática no Estado”. O curador também comentou que muitas obras serão cortadas pelos “censores”, pois poderão considerar alguns trabalhos inapropriados. “Como pode uma pessoa, responsável por fechar uma exposição de 263 obras de 85 artistas e que representa justamente uma instituição que promove a censura (Santander), estar lá julgando projetos?”, finaliza.

O que os moradores de Porto Alegre pensam sobre a Queermuseu?

Gráfico com base nos dados levantados pela reportagem.

A reportagem fez um levantamento de dados sobre a Exposição Queermuseu entre os moradores de Porto Alegre. O questionário contou com mais de 200 respostas, sendo a maioria do público feminino (67%) e de pessoas com curso superior incompleto (56%).

Com relação à pergunta principal — o que as pessoas acharam da exposição — a maioria votou que achou péssima (26%). Entretanto, 44% dos participantes não acham que a exposição faz apologia à zoofilia, pedofilia e blasfêmia, como o MBL afirma. Também, quase 50% dos participantes não achou correta a posição do Santander Cultural de retirar as obras.

A pesquisa revelou que a periodicidade dos participantes em relação a visitar museus, galerias de arte e eventos culturais é apenas quando há exposições e eventos que os atraiam (64%) e 10% afirmou que visitam uma vez por ano. Apenas cinco por cento têm o hábito de visitar uma vez por semana.

Gráfico com base nos dados levantados pela reportagem.

Zona Sul cultural

A Fundação Iberê Camargo (FIC), localizada na zona sul da Capital, tem maior número de visitantes, segundo os dados da reportagem (35%). Logo em seguida, um empate: Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) e Santander Cultural com 29% dos votos.

Com o propósito de promover o diálogo com as mais diversas manifestações culturais e campos do conhecimento através da arte moderna e contemporânea, a Fundação Iberê Camargo (FIC), criada em 1995, é uma instituição privada sem fins lucrativos. Em 2015 estava entre uma das fundações mais visitadas do Sul do país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).

Os programas públicos que vêm sido desenvolvidos pela FIC desde a entrada do novo presidente, Justo Werlang, em dezembro de 2016, têm como objetivo estabelecer um diálogo com os mais diversos públicos. Segundo o diretor artístico da fundação, Bernardo José de Souza, a ideia da nova gestão é poder debater diversas questões a partir da arte contemporânea.

Para Souza, todas as pessoas se interessam pela cultura de alguma forma, por isso a busca de atender desde os mais conectados com a arte de modo geral, até ciências puras ou exatas. “A partir desses projetos, nós buscamos alcançar públicos que não costumavam frequentar a Fundação e isso tem se revelado na composição da audiência”, explica. Uma das ideias é que a FIC possa pensar a arte a partir de outras perspectivas.

Segundo dados da FIC, atualmente o número de visitações gira em torno de 1,5 mil pessoas apreciando as exposições no final de semana. Outras 1,5 mil pessoas se reúnem em torno da arquitetura, pois identificam o local como um espaço seguro, de convivência, lazer e também um lugar de discussão, debate e conhecimento.

Uma noite no museu

Na visão de Bernardo José de Souza, a Noite dos Museus, projeto que acontece desde 2016 na capital, funciona como uma espécie de catalizador para que uma série de pessoas que não frequentam museus rotineiramente desenvolvam o desejo para buscar novas experiências. Opinião também da diretora do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS), Ana Aita, que afirma ser “uma pena não ter Noite dos Museus uma vez por mês”.

Não se trata apenas de visitar museus e galerias de arte, mas sobre apreciar gastronomia, música boa e estar em sintonia com outras pessoas que estão ali com o mesmo propósito. Em 2016, o público foi de 16 mil pessoas. Em maio deste ano, o número triplicou: 50 mil pessoas aproveitaram os espaços culturais da capital.

O também curador da FIC acredita que as instituições culturais e museus devem desenvolver atividades e se preocupar com questões que são muito além do que um mercado. “Claro que a arte é um mercado, existe o mercado de arte, mas esse eu identifico como papel das galerias” disse. As instituições de arte, mesmo que sejam privadas, têm o papel de situar a arte em um outro patamar, uma plataforma de reflexão e de busca por entender o mundo sobre outras óticas.

Público na Fundação Iberê Camargo na Noite dos Museus de 2016. Foto: Divulgação

MARGS e MACRS

O Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS) é um dos mais antigos de Porto Alegre. Localizado na Praça da Alfândega, no centro histórico da Capital, é o segundo mais visitado segundo dados da pesquisa realizada pela reportagem.

No primeiro semestre deste ano, o MARGS teve uma média de visitação de aproximadamente 43 mil pessoas, sendo o mês de maio com maior número de visitantes — cerca de 11 mil pessoas -, segundo dados disponibilizados pelo museu. Até o mês de outubro, a média de visitação anual estava em 68,2 mil pessoas. Os meses com maior número de visitantes registrados foram maio, junho, julho e agosto.

Segundo o diretor-geral do museu, Paulo Amaral, o MARGS “trabalha com planejamento, sobretudo no plano educativo”, ou seja, excursões escolares através do agendamento com diversas escolas do RS. O que, de certa forma, explica os maiores números serem no período do ano letivo.

“As exposições duram em média 45 dias, de forma a provocar-se uma visitação mais dinâmica. Naturalmente que exposições maiores e de mais envergadura, eventualmente, duram mais tempo, até três meses”, explica o diretor-geral. Para atrair maior público, a gestão também investe em atividades no Café do Museu — como concurso de fotografias e as aulas de tango às sextas-feiras.

Para Amaral, os porto-alegrenses estão fazendo programas culturais mais acessíveis em custos. “O que ocorre aqui e no Brasil inteiro, mesmo em São Paulo onde se concentra o coração do centro artístico do país, são dificuldades inerentes à falta de recursos para ‘voos mais largos’, pelo que não se tem visto exposições vindas do exterior, por exemplo”, afirma.

“Eu acho que cultura é uma coisa que não se compra, se adquire; e isso precisa de tempo”, diz Ana Aita, diretora do MACRS e do Instituto Estadual de Artes Visuais (IEAVi). “Eu percebo nos últimos tempos que as famílias têm vindo aos museus. Pai, mãe, filhos e os colégios também têm trazido mais os alunos.”

Desde 2015 no comando do MACRS, Ana explica que a gestão busca projetos que sejam de interesse público. “Nosso objetivo aqui é a formação de público da comunidade para conhecimento do acervo que se tem no museu. No momento que a gente consegue criar exposições interessantes para que o público venha, estamos com a missão cumprida”, conta.

Obras da Exposição Projeto de Pesquisa Fotográfica Contemporânea no MACRS. Fotos: Aline Eberhardt

Economia da cultura

Para David Fialkow, economista e ex-professor de Economia da Cultura no Centro Universitário Metodista IPA, museus e galerias de arte auxiliam na economia e na cultura de determinada sociedade. “Um exemplo é Amsterdam que tem 600 mil habitantes e recebe anualmente seis milhões de turistas, muitos dos quais atraídos pelos museus Van Gogh, Rijkmuseum, entre outros”.

Dez anos de reforma e um gasto de 375 milhões de euros: o Rijkmuseum é um dos mais antigos dos Países Baixos e responsável por grande parte da economia do país. Em 2013, quando foi reaberto, analistas estimaram que “a porcentagem de gastos dos turistas relacionada com o museu venha a ascender a 5,7 mil milhões de euros até 2017, o que representará uma contribuição de três mil milhões de euros para o PIB no mesmo período”.

Além do turismo, os museus também colaboram como empregadores, como instituição comunitária — para lazer dos moradores –, bem como instituição de ensino — por meio de palestras e concursos promovidos, como as aulas de tango no MARGS. Contribuem também através de empréstimo de exposições para outras instituições e países.

O professor e economista, Sérgio Monteiro, diz que a arte, de modo geral, tem um efeito de externalidade. “Quando se é produzido arte e esse produto é oferecido para a sociedade, há benefícios não apenas para o indivíduo, mas também tem efeito para toda comunidade, porque a arte melhora não só o próprio artista ou instituição, mas também a relação dele para com a população”, explica.

“É importante que museus e fundações culturais tenham o apoio dos governos, porque eles beneficiam não só o indivíduo que frequenta, mas também toda a sociedade”. Segundo o economista, o nível de satisfação individual é menor do que o nível de bem-estar social. Se não for subsidiado, se o governo não oferecer esse bem a preços mais acessíveis, a oferta desse produto vai ser menor do que a que seria eficiente para a sociedade.

Estudos e bancos de dados utilizados:

Heloísa Helena Fernandes Gonçalves da Costa, Verlaine Fátima Wazenkeski. A importância das ações educativas nos museus.
https://online.unisc.br/seer/index.php/agora/article/view/6336

Instituto Brasileiro de Museus — Formulário de Visitação Anual (FVA). Dados 2015 e 2014. http://www.museus.gov.br/acessoainformacao/acoes-e-programas/museus-e-publico/formulario-de-visitacao-anual/

Museus e a Dimensão Econômica da Cadeia Produtiva à Gestão Sustentável: http://www.museus.gov.br/wp-content/uploads/2015/01/Museus_DimensaoEconomica_Ibram2014.pdf

Princípios Básicos da Museologia: http://www.cultura.pr.gov.br/arquivos/File/downloads/p_museologia.pdf

Sistema Estadual de Museus RS SEMRS — Formulário de Visitação Trimestral. Dados 2017 e 2016.

MARGS Museu — Público visitante (tabela). Dados 2016 e 1º semestre 2017.

Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável — Ana Carla Fonseca Reis (2006)

Museu, comunidade e patrimônio cultural imaterial: um estudo de caso — Celina Bárbaro Pinto (2013)

Entrevistas:
Aline Eberhardt — Paulo Amaral, Gaudêncio Fidelis, Ana Aita, Santander Cultural (assessoria)

Ariadne Kramer — Ana Aita, David Fialkow

Tainá Flores — Bernardo José de Souza, Sérgio Monteiro

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