Resistência agroecológica

Crédito: Banco de imagens PxHere

O arroz orgânico produzido nos assentamentos gaúchos do MST, aos poucos, se torna um dos braços fortes do movimento

Por: Deise Freitas, Matheus Closs e Ulisses Miranda

O arroz é, em geral, um importante complemento nutricional, rico em fibras e minerais. Só no Rio Grande do Sul, mais de 1 milhão de hectares são destinados ao plantio comum de arroz, segundo Carlos Eduardo Martins de Souza, agrônomo do IRGA (Instituto Rio Grandense do Arroz). Contudo, outra forma de cultivo da planta gramínea é responsável por alavancar a economia de comunidades inteiras dentro do Estado: o arroz orgânico.

No MST gaúcho

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é o maior produtor gaúcho de arroz orgânico. São 400 mil sacas/ano produzidas por 616 famílias, divididas em 22 dos 327 assentamentos nos quais o MST está presente no Estado. Dentro de um desses assentamentos, a economista Indiane Witcel Rubenich, 24 anos, formada na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), se criou.

Na Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (COOPAN), de Nova Santa Rita, região Metropolitana de Porto Alegre, ela conta, vivem famílias advindas de diferentes partes do Rio Grande do Sul. A dela, por exemplo, era da região Norte, onde não se produz arroz. Em meio ao processo de adaptação dos que chegaram a área, várias culturas foram testadas nessa propriedade predominantemente formada por “banhados”.

Após algumas perdas decorrentes de enchentes, a solução encontrada pelos moradores da cooperativa foi produzir arroz. Logo no início do cultivo, um caso de intoxicação surgiu, trazendo à tona a discussão envolvendo o movimento e os produtos agroecológicos. Assim, em 1999, relata Indiane, o arroz orgânico começou a ser plantado.

A jovem destaca que se trata de uma “fácil produção”, uma vez que basta controlar o manejo da água e não é necessário muito adubo, por exemplo. “Produz um pouco menos né, porque tu não estás enchendo de produto químico, nem veneno. Produz um pouco menos, mas compensa no valor”, diz Indiane, completando que por esse motivo o arroz orgânico se torna viável economicamente.

Formada em Economia na UFFS, Indiane Rubenich conta a história do arroz orgânico dentro da COOPAN, onde foi criada — Crédito: Ulisses Miranda

Os produtos orgânicos podem ser mais indicados para aquelas pessoas que buscam uma vida mais saudável, uma vez que seu plantio é livre de aditivos tóxicos. Ele é produzido com técnicas agrícolas que garantem a conservação do meio ambiente, preservando a biodiversidade, sem uso de agrotóxicos ou adubos químicos. Proporciona, assim, mais saúde e maior qualidade de vida, tanto para o agricultor como para o consumidor.

Quem consome?

Professora de física aposentada, Lúcia da Silva, 54, é uma dessas pessoas que buscam melhor qualidade de vida. Mesmo em meio a vastas opções de lacticínios e embutidos, foi nos estandes de produtos orgânicos, na Expointer, que ela buscou o arroz — que já faz parte das refeições em sua casa. “O produto é melhor. Tudo que é orgânico é melhor, né?! Tu sente o sabor das coisas. Lá em casa a gente está mudando”, conta.

Ela ainda explica que a mudança ocorreu por influência dos filhos, uma bióloga e um gestor ambiental. Alziro Silva, 65, marido de Lúcia e também aposentado, destaca as hortaliças orgânicas que, segundo ele, são de “melhor qualidade”, comparadas às cultivadas com agrotóxicos.

Visitantes buscam informações sobre a diferença trazida pelo arroz orgânico em relação ao convencional— Crédito: Deise Freitas

Na Expointer 2017

Para o consumidor que adquiriu o arroz orgânico da COOPAN na Expointer, um dos maiores atrativos foi o preço encontrado no produto. Uma embalagem do tipo integral de um kg, por exemplo, custava R$3,50, menos da metade do valor encontrado pelo mesmo produto em redes de grandes mercados da Capital, por exemplo. O arroz do tipo cateto, especial para carreteiros e galinhadas estava R$6,50 — em lojas de orgânicos custa mais do que o dobro.

Responsável por realizar funções dentro de setores como planejamento, organização e rotina de trabalho, o secretário executivo do setor de produção da Cooperativa Central dos Assentamentos do Rio Grande do Sul (COCEARGS), Djones Roberto Zucolotto revela que as vendas realizadas nos primeiros dois dias, pelas três cooperativas presentes na feira em 2017, tiveram aumento de 20% em relação ao ano passado.

Aos poucos…

Nem sempre arroz orgânico do MST esteve presente nas prateleiras dos supermercados. Apenas em 2006 o movimento começou a discutir a industrialização desse arroz, conta Indiane. Antes o produto era vendido, em grande parte, para indústrias convencionais. Dessa forma, o movimento passou a procurar meios de aprender e capacitar as famílias a desenvolver todo o processo de produção do arroz, incluindo a embalagem e a procura por mercado para comercialização.

Hoje a COOPAN promove, via movimento, cursos e seminários através de um grupo gestor do arroz que ajuda na formação de agricultores. Quando um assentamento quer produzir arroz orgânico, explica Indiane, a cooperativa mais próxima oferece suporte técnico e apoio para que essas famílias comecem a produzir.

“Tem famílias que dependem disso, que vivem só da renda do arroz. No caso da nossa cooperativa [COOPAN], o arroz é um dos carros-chefes”, destaca Indiane.

Em meio a grande celebração da agroindústria no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, um pequeno estande expõe alternativas a forma de produção dominante. O arroz agroecológico do MST — que já é exportado para Venezuela, Uruguai e países da Europa — domina a produção do alimento e se constitui como a maior produção da América Latina.

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