Desenvolvimento econômico do alimento orgânico no Brasil

Pesquisas revelam o crescimento da produção de orgânicos em todo o país. A Região Sul apresenta os maiores índices de consumos dos alimentos produzidos sem o uso de agrotóxicos e defensivos agrícolas.

Por Gabriela Holken, Luiza Brandão e Vinícius Farias

No Brasil, a comercialização dos alimentos orgânicos cresceu 20% e o faturamento estimado foi de R$ 3 bilhões de reais em 2016. Os dados foram divulgados no primeiro semestre deste ano pelo Conselho Nacional da Produção Orgânica e Sustentável. Ainda, a perspectiva para 2017 é de chegar à taxa de crescimento entre 25% a 30%. Em 2015 e 2014, o valor arrecadado com a comercialização de alimentos orgânicos no país foi de R$ 2,5 bi e R$ 2 bilhões de reais, respectivamente.

A comercialização de alimentos orgânicos no país movimentou mais de R$ 3 bilhões de reais em 2016. Crédito: Vinícius Farias

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento apresentou o balanço da produção de alimentos orgânicos no Brasil. A análise dos dados foi realizada entre 2013 e 2017. Em apenas quatro anos, houve um crescimento na área utilizada para a produção dos alimentos, no número de produtores e nas unidade de alimentos produzidos. Em 2013, a área (em hectares) utilizada para a produção de orgânicos era de 603.206 em todo o território nacional. Em 2017, o número aumentou para 1.136.857. Em comparação com o mesmo período, o número de produtores passou de 6.719 para 15.007 e as unidades de produção de 10.064 para 16.995.

Em números, o crescimento da produção de alimentos orgânicos no Brasil. Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

De acordo com os dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), entre 2013 e 2016, o número de produtores orgânicos passou de 6,7 milhões para 15,7 milhões no Brasil. Atualmente, existem 11.084 produtores no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos. Em números, o estado do Rio Grande do Sul liderado o ranking de cadastro de produtores de alimentos orgânicos com 1.554, em seguida aparece São Paulo com 1.438, Paraná 1.414 e Santa Catarina 999. A capital gaúcha conta com 39 produtores, certificados por 7 entidades, no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

O faturamento com a comercialização dos alimentos orgânicos

De acordo com uma pesquisa divulgada, em 2015, no XXVII Salão de Iniciação Científica da Ufrgs, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o faturamento médio anual dos produtores que atuam nas feiras ecológicas de Porto Alegre é de R$ 55.021,64. A coleta dos dados foi realizada entre junho de 2014 e janeiro de 2015 e mostrou a relação entre a produção e o faturamento nas feiras ecológicas.

Atualmente, a produção orgânica tem ainda um custo muito elevado pelas exigências de Certificações e manejos de práticas culturais, apesar de trazer benefícios para o meio ambiente e para o trabalhador rural, afirmou Antônio Bertaco, vice-presidente do Sindicato Rural de Porto Alegre.

Se por um lado o faturamento com a comercialização de alimentos orgânicos vem aquecendo a economia, por outro ele não é o principal objetivo dos produtores rurais. O produtor rural Eliseu Rosa da Silva de 74 anos produz alimentos orgânicos a mais de 20 anos no bairro Lami, na zona rural de Porto Alegre. Tio Juca, como é conhecido popularmente, começou a produção de orgânicos em 1997 e hoje, é considerado o produtor antigo da capital. Para ele, a produção orgânicos não visa somente o lucro mas sim a alta qualidade dos alimentos que serão comercializados para os consumidores nas feiras ecológicas.

O meu lucro é o resultado da satisfação de fazer aquilo que eu gosto. É claro, sempre produzo orgânicos visando o bem para o consumidor e ao meio ambiente. Este é o meu lucro. — disse Tio Juca.
Eliseu Rosa da Silva de 74 anos, conhecido popularmente como Tio Juca, e a produção de alimentos orgânicos na zona rural de Porto Alegre. Crédito: Vinícius Farias.

Tio Juca comercializa produtos orgânicos aos sábados, na banca número 184 da Feira Ecológica localizada na avenida José Bonifácio, no bairro Bom Fim. Entre os alimentos, destaca-se o alface, o tomate cereja e o alho poró. O alface por exemplo, é um dos produtos oferecidos o ano todo aos consumidores pelo produtor rural. Ao todo, são plantados 1.200 pés durante o mês. O alimento é vendido a R$ 1,50. Mas na rede de hipermercados Zaffari e Bourbon, o mesmo produto é vendido a R$ 3,75. Para ele, as grandes redes de supermercados lucram utilizando as informações sobre os benefícios dos orgânicos para a saúde humana e ao meio ambiente.

As redes de supermercados que comercializam orgânicos se aproveitam dos benefícios à saúde e ao meio ambiente para aumentar o preço dos alimentos. Consequentemente, a alta no preço afasta os consumidores e prejudica os pequenos produtores rurais. — disse Tio Juca.

De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, os produtos de orgânicos, em média, são 30% mais caros comparados aos convencionais. O aumento no valor do orgânico é devido a menor escala de produção e ao alto custo para a adequação aos regulamentos e processos de reconhecimento da qualidade orgânica.

As feiras ecológicas em Porto Alegre

As Feiras Ecológicas, realizadas em espaços públicos em Porto Alegre, oferecem alimentos orgânicos produzidos pelos produtores da área rural e do interior do Estado (até 200 km da Capital). O Centro Agrícola Demonstrativo, localizado na área rural de Viamão, na região Metropolitana de Porto Alegre, presta o serviço de assessoria às propriedades rurais. O engenheiro Jorge Rucker, responsável técnico do CAD, disse que “o serviço oferecido aos produtores de orgânicos garante os critérios, a segurança e a qualidade dos alimentos”. Os produtos orgânicos comercializados nas Feiras Ecológicas precisam seguir as normas do Serviço de Inspeção Municipal.

O custo e beneficio do alimento orgânico é visível para os consumidores. Gabriela Da Cunha, estudante de Engenharia Ambiental e Sanitária consome produtos orgânicos desde que começou a cursar a faculdade. Hoje, sempre que possível, compro os produtos da Cooperativa GiraSol através do site, pois a diferença de valores dos produtos tradicionais e orgânicos é mínima, as vezes no total é de 5 a 10 reais, salienta a estudante Gabriela Da Cunha.

As rede de supermercados são os principais canais de comercialização de alimentos orgânicos. Fonte: Conselho Nacional da Produção Orgânica e Sustentável.

Os alimentos orgânicos comercializados nas Feiras Ecológicas não contêm nenhum tipo de agrotóxicos ou defensivos agrícolas. Apesar da vantagem da venda direta com o produtor rural, as feiras não são os principais locais escolhidas pelos consumidores para a compra de alimentos orgânicos. De acordo com uma pesquisa realizada, em 2016, pelo Conselho Nacional da Produção Orgânica e Sustentável, os supermercados são os principais canais para a comercialização de alimentos orgânicos. Das mais de 905 pessoas entrevistadas, 64% afirmaram que preferem comprar produtos orgânicos no varejo convencional enquanto 26% utilizam as feiras ecológicas. Ainda conforme a pesquisa, na Região Sul do país 71% dos consumidores escolhem orgânicos nos supermercados enquanto 20% preferem ir às compras nas feiras ecológicas.

Para Antônio Bertaco, o crescimento em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul também está acompanhando a prática de cultivo e compra de alimentos orgânicos, pensando na sustentabilidade ambiental com a segurança alimentar.

As Feiras Ecológicas regulamentadas pela Secretaria Municipal de Indústria e Comércio são realizadas nas terças, quartas e aos sábados no espaços públicos em Porto Alegre. Segue abaixo o mapa:

Terça-feira:

  1. Endereço: Travessa Lanceiros Negros (passagem de pedestres entre as ruas Mata Bacelar e a Coronel Bordini), bairro Auxiliadora. Horário: das 7h às 13h.

Quarta-feira:

  1. Endereço: Avenida Getúlio Vargas (no pátio da Secretaria Estadual da Agricultura), bairro Menino Deus. Horário: das 13h às 19h.
  2. Endereço: Rua General Tibúrcio, parte lateral da praça Ruy Teixeira, bairro Petrópolis. Horário: das 13h às 18h.

Sábado:

  1. Endereço: Avenida José Bonifácio , 675, bairro Bom Fim. Horário: das 7h às 13h.
  2. Endereço: Avenida Getúlio Vargas (no pátio da Secretaria Estadual da Agricultura), bairro Menino Deus. Horário: das 7h às 12h30
  3. Endereço: Rua Rômulo Telles Pessoa, ao lado da praça André Forster, bairro Petrópolis. Horário: das 07h às 13h.
  4. Endereço: Avenida Otto Niemeyer esquina com a avenida Wenceslau Escobar, bairro Tristeza. Horário: das 07h às 12h30.
  5. Endereço: Rua Cel. Armando Assis, ao lado da praça Desembargador La Hire Guerra. Horário: das 08h às 13h.
Mapa das Feiras Ecológicas realizadas em Porto Alegre. Reprodução: Google Maps.

Ganhando o mercado do consumidor

Na agricultura orgânica, a qualidade é um princípio fundamental. Nela se insere também o respeito à cultura e aos saberes locais, a preocupação com a preservação da biodiversidade, prioriza os mercados consumidores locais, a não aceitação de trabalho infantil e escravo e, principalmente, não utiliza agrotóxicos e produtos químicos solúveis e não contém Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), ou Transgênicos.

A produção orgânica engloba todos os alimentos, desde frutas, legumes, grãos e até criações. A avicultura colonial, por exemplo, está crescendo, baseada num sistema de criação em transição para o orgânico, ou seja, os animais são criados soltos e não estabulados, e há maior atenção para a densidade, que é menor do que a criação convencional de aves, segundo dados da Emater/RS-Ascar.

No brasil, no mercado interno, os orgânicos continuam em crescimento, em especial no número de unidades produtivas de agricultura orgânica e sustentável, passando para 18 mil nos últimos 12 meses, cerca de 15% de crescimento.

A agricultura familiar constitui a base econômica de 90% dos municípios brasileiros e os produtos orgânicos estão se consolidando nos mercados tradicionais e aos poucos ampliando o comércio em regiões promissoras.A produção de alimentos orgânicos cresce de forma acelerada no Brasil, e o Rio Grande do Sul é o estado produtor do Brasil, porém em volume ainda não se tem representatividade da produção de alimentos convencionais.

Para Gabriela da Cunha, a agricultura familiar é um trabalho justo e honesto, de cuidado com a terra, e precisamos consumir conscientemente esses produtos de qualidades.

O Ministério da Agricultura, em 2014, informou que a agricultura orgânica movimentou cerca de R$ 2 bilhões e em 2016, esse número ficou ao redor de R$ 2,5 bilhões, segundo o setor. Sendo que o Rio Grande do Sul detém algo em torno de 8% desse montante.

Para o economista de 54 anos, Paulo Antonio Barni, na disputa atual os orgânicos efetivamente estão em desvantagem no que tange a demanda de larga escala, ainda os produtos convencionais levam vantagem neste fluxo pois tem maior produtividade e por conseguinte menor preço, no transcurso dos tempos, para a próximos dez anos este cenário estará sistematicamente mudando, tendo o viés orgânico cada vez mais espaço no mercado.

Os métodos empregados na agricultura orgânica são aplicados e regulados em muitos países, baseados, em grande parte, nas normas estabelecidas pela Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica (IFOAM), uma organização internacional que reúne organizações de agricultores orgânicos ao redor do mundo desde 1972.

Apesar de ser mais caro que o alimento convencional, o custo benefício do alimento orgânico é imensamente maior, não somente à saúde, mas também ao meio ambiente. O plantio orgânico promove a sustentabilidade, melhora a biodiversidade local, minimiza o efeito estufa, o aquecimento global e reduz a poluição de água e do solo.

Amostras de pimentas orgânicas no Shopping Praia de Belas em Porto Alegre. Crédito: Luiza Brandão

Hoje no mundo, a agricultura orgânica cresce vertiginosamente, isso é importante, pois o mundo já observa como uma alternativa ao risco que a agricultura convencional representa. O Brasil está se consolidando, de acordo com o Sebrae, como um grande produtor e exportador de alimentos orgânicos, com mais de 15 mil propriedades certificadas e em processo de transição, 75% pertencentes a agricultores familiares

O apoio à produção orgânica está presente em diversas ações do governo brasileiro, que oferece linhas de financiamento para o setor e incentiva projetos de transição de lavouras tradicionais a produção orgânica.

A produção orgânica valoriza e incentiva o trabalho da agricultura familiar. Isso contribui para melhorar a qualidade de vida dessas famílias e previne o êxodo rural. Ela também aumenta os postos de trabalho, permitindo uma melhor geração e distribuição de renda, e respeita as normas sociais baseadas nos acordos internacionais de trabalho

Para o enólogo da Emater/RS-Ascar, Thompsson Didoné, a conscientização e motivação do agricultor são os principais fatores que conduzem a uma produção orgânica e sustentável. Mesmo que ainda não represente a maior fatia do mercado, esta forma de produção de alimentos vem crescendo representativamente nos últimos tempos pois a abordagem de produto que faz muito bem a saúde é de forte apelo junto a sociedade mundial atual. Para ele, na produção orgânica é importante observar a escolha do local, com solo e ambiente em equilíbrio, além das variedades cultivadas.

Segundo o site Greenpeace, no meio ambiente, a aplicação de veneno impacta os solos, as fontes de água, a flora e a fauna ao redor das plantações. A esterilização provocada pelos agrotóxicos causa desequilíbrios ambientais gravíssimos, que aumentam a proliferação de “pragas” e reduzem a produtividade agrícola.

Os alimentos orgânicos ainda não tem na mídia a divulgação que deveriam ter, entretanto o espaço para entendimento e divulgação dos produtos orgânicos junto aos consumidores vem progressivamente sendo ocupado, pois sendo estes produtos de grande valia para a saúde da população inevitavelmente a partir da consciência da população por hábitos mais saudáveis tem havido expansão desses espaços na programação das diversas formas de disseminação de informação atualmente disponíveis (TV, internet, rádio, jornais, etc.), diz Paulo Barni.

O consumo de produtos orgânicos não cessa de crescer no Brasil. Impulsionada pelas políticas públicas de compra de alimentos junto aos agricultores familiares e pelo surgimento de lojas especializadas e até mesmo supermercados que apostam na venda de produtos livres de qualquer agrotóxico, hormônio, remédio ou componente transgênico, a agropecuária orgânica é hoje uma realidade ao alcance de milhões de consumidores em várias cidades do país.