O Agro é para quem?

“Agro é Tech. Agro é Pop. Agro é tudo”. Assim discursa a campanha exibida pela Rede Globo durante os intervalos de sua programação. Com o objetivo de desmistificar e buscar contrapontos à essa publicidade, o Blog de Jornalismo Econômico da UniRitter ouviu diferentes opiniões.

Por Carolline Tavares, Karem Rodrigues e Sara Ortiz

Criada em agosto de 2016 a propaganda ressalta a importância do agronegócio para o país, destacando empresas agropecuárias e grandes latifúndios. Um dos mercados mais lucrativos da economia brasileira, ganha ainda mais espaço em horário nobre.

Programete “Agro: a indústria-riqueza do Brasil” do G1 na TV Globo.

O Brasil é um país com capacidade natural para o agronegócio devido às suas diversidades, não há dúvidas que o mesmo movimenta grande parte da economia do país. Porém é um dos países que mais têm desigualdade fundiária e o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Segundo o dossiê feito pela Associação Brasileira de Saúde coletiva (ABRASCO), 64% dos alimentos estão contaminados, foram registradas 34147 notificações de intoxicação por agrotóxico (MS/DataSUS) de 2007 a 2014. Produzidos por grandes corporações do agronegócio, eles também fazem parte do receituário comercial na produção de commodities agrícolas.

“A imprensa brasileira assume, com essa peça, seu papel subalterno, assume-se como braço parcial do modelo hegemônico, e não como aquela que deveria expor as diversas faces de nossos conflitos, como convém em uma democracia”, falou o jornalista Alceu Castilho ao Blog de Jornalismo Econômico da UniRitter / Foto: Reprodução youtube

Alceu Castilho, autor do livro “Partido da Terra” e coordenador do observatório jornalístico De Olho nos Ruralistas, mostrar-se contra a campanha e fala sobre o papel não só da Rede Globo, mas também da imprensa em geral em fiscalizar o setor agropecuário: “Deveriam estar fiscalizando o setor agropecuário, e não tomando posição em relação a uma das formas de se apropriar do território e dos recursos naturais. Não é papel da Globo fazer esse tipo de campanha, muito menos quando esse modelo protagoniza conflitos sociais e ambientais, expansão territorial desenfreada, uso irresponsável de agrotóxicos”. Para o jornalista, a partir do momento que os donos dos meios de comunicação são também, de um modo geral, proprietários de terra, o conflito de interesse é evidente. O escritor diz que a Globo faz parte do modelo que ela defende na campanha. E, por isso, significa não somente uma defesa própria, ou dos seus pares, mas um ataque àqueles que são vítimas dos desmandos desse modelo: camponeses, povos indígenas, no limite cada consumidor — cidadão — obrigado a ingerir alimentos definidos por uma cúpula que não preza o bem comum, mas o lucro a qualquer custo.

A exclusão dos pequenos produtores

A agricultura familiar também foi lembrada, modelo que segundo Talita Gehlen, Relações Públicas da Federação Dos Trabalhadores Na Agricultura No Rio Grande Do Sul (FETAG-RS) e Alexandre Rosa, instrutor do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), não é representado em nenhuma das peças da campanha. “O comercial está tentando mostrar que a agricultura é valorizada, só que eles mostram a parte patronal de tudo, não mostram a agricultura familiar que é o que nós enquanto entidade defendemos, mostram a agricultura que utiliza grandes maquinários para produzir em grandes escalas e vender como commodities, não a familiar que traz a sustentação das pequenas propriedades”, diz Camila.

Alexandre Rosa é guasqueiro, trabalha com coro cru, uma alternativa de utilização do coro Bovino sem tratamento químico de curtume. Foto: Tadeu Vilani

Alexandre conta que embora não tenha televisão em casa, conhece a campanha e apesar dela trazer alguns elementos importantes da atividade rural, não concorda com a exclusão dos pequenos produtores. “Me agradaria sim o tema ‘o Agro é tudo’ se trouxesse também um viés mais sustentável pois é sempre sob uma ótica de altíssima produção, atendendo um interesse baseado somente no poder de comércio, me agradaria se fosse sob uma ótica mais humana”.

De acordo com o Censo Agropecuário de 2006, 84,4% do total dos estabelecimentos agropecuários brasileiros pertencem a grupos familiares. São aproximadamente 4,4 milhões de estabelecimentos, metade deles está na Região Nordeste. A Agricultura Familiar compõe a econômica de 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes.

Foto: Divulgação da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento. Apresentação do extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário sobre agricultura familiar com dados coletados no censo de 2006

Alceu Castilho diz que prefere os termos campesinato, camponeses pois somente no Brasil e nos Estados Unidos falam em agricultura familiar, expressão imposta pelo Banco Mundial. “Os camponeses existem há milênios e são uma classe combatida diariamente pela mídia. E isso ocorre também na nomenclatura. Boa parte dos trabalhos que se propõem a criticar o modelo do agronegócio acabam caindo nessa armadilha”, elucida.

O contraponto

Luis Fernando Cavalheiro é o atual presidente da Comissão Jovem da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul). / Foto: divulgação Farsul.

Por outro lado, há quem concorde que o Agro seja realmente Pop, Luis Fernando Cavalheiro, presidente da Comissão Jovem da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), defende a campanha e acredita que com a mensagem transmitida o público urbano conseguirá observar o quanto o Agronegócio é importante. “ O superávit (termo usado para se referir ao valor médio que sobra de uma receita (dinheiro arrecadado) após a dedução dos gastos) da balança comercial só está positivo graças as exportações dos nossos produtos, então é fundamental mostrar para a sociedade isso como um todo, é fundamental esse tipo de mensagem mesmo que rápidas, porém pontuais para chamar a atenção do pessoal urbano”, explica.

Marcio Prado Farias, gerente de marketing do Canal Rural é a favor da campanha, segundo ele o Agronegócio tem um papel fundamental na economia do país e uma propaganda como esta, dá visibilidade ao trabalho que é feito por milhares de produtores Brasil a fora. Quando indagado sobre o sucesso das peças, Marcio responde que ao seu ver já deu certo a partir do momento em que existem pessoas interessadas em pesquisar sobre a mesma.

Dejalma Zimmer, engenheiro agrônomo e consultor também do Canal Rural, vê como uma retribuição da Rede Globo e da sociedade urbana a esse setor da economia brasileira que segundo o mesmo é rico e engajado e foi subjugado por décadas no país. Para ele, não existe agricultura segmentada ou classes de agricultores. O Agronegócio, segundo Dejalma, é visto pela sociedade de forma pejorativa e com preconceito, pondo os grandes produtores como ‘exploradores da natureza, do trabalho’. “ O trabalhador que vive nessas grandes propriedades é muito bem tratado, o fazendeiro está preocupado com o bem-estar dele. Então poder ter um veículo de comunicação como a Globo fazendo esse tipo de trabalho é gratificante”,comenta o consultor.

Idealizada pela gerência de marketing e comunicação Rede Globo de Comunicação, os vídeos da campanha tem cerca de 1 minuto e continuarão a ser exibidos nos intervalos de jornais, programas e novelas até junho de 2018.