O cultivo protegido já é uma realidade

⁠⁠⁠⁠⁠Estufa exposta na 40° Expointer em Esteio | Foto: Natália Silveira

A agricultura está ganhando novos formatos de cultivo e as tecnologias estão entrando no campo para auxiliar o agricultor no plantio.

Por: Gabriela Azzolini, Natália Silveira e Tainara Fazenda

As mudanças climáticas são a preocupação de muitos agricultores. A chuva intensa, o sol forte, ventanias, entre outras mudanças são fatores que contribuem para que a plantação fique danificada, e muitas vezes acabe tendo um rendimento muito inferior ao esperado pelos agricultores. Estes fatores influenciam no lucro, ou na falta dele, que é gerado pela produção.

A estratégia para que essas produções não sejam influenciadas diretamente pelo clima, é o cultivo protegido, uma forma de produzir diversos tipos de alimento em estufa. Os alimentos ficam condicionados em um ambiente próprio para seu cultivo e desta forma não sofrem a agressão do tempo.

No início, a plasticultura e o uso do plástico na agricultura era muito conhecido, porém o mercado brasileiro era suprido apenas de plásticos para estufas importadas da Europa, Estados Unidos e até Japão. Em 1987, a empresa Petroquímica de Triunfo lançou o desafio: desenvolver, no Brasil, plástico para estufas. “Começamos a produzir as primeiras estufas no modelo capela e em paralelo a isso começamos a testar o nosso produto que já estava começando a sair da planta”, conta Sérgio José Müller, ex funcionário da petroquímica e técnico agrícola.

O polímero produzido pela equipe era composto de polietileno de alta densidade aditivado com anti-UV, um protetor do plástico. Sem o anti-UV, o produto se deterioraria em três meses. “Um teste é colocar uma sacola de supermercado no varal e deixar lá por esse tempo, como não tem proteção anti-UV, vai se desmanchar, porque a ultravioleta do sol destrói o polietileno. Então começamos a aditivar este produto e colocamos em campo”, explica Sérgio.

Durante 5 anos os funcionários da empresa pioneira de plásticos para estufas do Brasil trabalhavam do campo ao laboratório, estudando e testando o produto. Ao apresentar para empresários, a criação foi recusada: vida útil de 5 anos não servia para eles. “Achamos que tínhamos feito o melhor, mas o empresário não quis. Então voltamos a trabalhar de novo e reduzimos o tempo de vida útil dele para 1 ano e meio. Chamamos os empresários e fomos aplaudidos”, diz Sérgio. E este é o produto atualmente vendido no Brasil.

Hoje no país é vendido apenas um tipo de estufa, a com uma camada e aditivada só com anti-UV. Quem adere o cultivo protegido atualmente é o produtor rural que está iniciando no ramo. Ao notar que a rentabilidade é maior, o pequeno agricultor se interessa. É o caso de Carlos Andrade, de 56 anos que participou da 40° Expointer para conhecer sobre o assunto. “Tenho horta para a família em casa porque preferimos os produtos orgânicos e essa ideia de proteger o que está sendo plantado é muito interessante porque melhora mais ainda a qualidade”, comenta.

Segundo Sérgio, é possível plantar qualquer coisa em estufas. “Posso plantar aipim, mas é uma cultura de seis meses para vender a um real o quilo. Então tenho que plantar uma hortaliça que realmente tenha um tempo de produção mais rápido e que tenha mais valor agregado”.

Além de garantir a alta produtividade este tipo de cultivo gera um alimento mais saudável para a mesa das pessoas, pois se torna dispensável o uso de agrotóxicos. “O cultivo protegido gera um tipo de alimento diferenciado, saudável e sem o uso de pesticidas, inseticidas e agrotóxicos, o que gera um alimento limpo, sem impurezas”. Constatou Pedrinho Signore, secretário geral da FETAG/RS.

O cultivo protegido traz uma série de tecnologias visando uma melhor qualidade no aspecto do produto, aumentando a produtividade, a qualidade e agregando valor no sentido de conseguir uma entrada no mercado com as mercadorias antes de suas épocas habituais de safra, além de uma produção maior e melhores condições de manejo que possibilitam uma variedade maior do que é plantado e colhido. “Se produzirmos dentro de cultivo protegido podemos oferecer um gama de produtos muito mais diversificados, assim conseguimos aumentar a oferta e o retorno”. Relatou Claudio Martins, gerente de desenvolvimento de mercado da ISLA sementes.

A agricultura familiar é o grande foco deste novo modelo de cultivo, em conversa com André Bordignon, engenheiro agrônomo e técnico do SEBRAE, foi relatado o fato de normalmente as empresas maiores que trabalham com olericultura já realizarem o cultivo em estufa, então as propostas ficam voltadas para os negócios em família. No Rio Grande do Sul mais de 90% da produção de hortaliças é fruto da agricultura familiar, produtos que sofrem muito com as intempéries do tempo, a produção de morango hoje também é quase toda feita em estufa, fazendo os agricultores considerarem cada vez mais o cultivo protegido.

Outro viés relatado pelo engenheiro é o da sucessão familiar, visando trazer os jovens para o campo usando as novas tecnologias para alcançar seus interesses. “Onde você tem uma produção com mais renda, trabalhando com tecnologia o jovem começa a se interessar mais pelo negócio, pela produção em estufa, eles estão vendo que dá mais dinheiro e estão ficando no campo ao invés de ir para cidade, isso é outra vantagem”. Conclui.

Plantação diversificada de hortaliças na estufa da Emater | Foto: Gabriela Azzolini

Porém existe um ponto controverso a todos estes benefícios, que é o custo investido para ter este tipo de equipamento, hoje o investimento médio no estado para uma estufa com as tecnologias necessárias seria de R$70 a R$100 por metro quadrado. O aconselhável para a obtenção de um retorno financeiro, possibilidade de escalonar a produção e ter todas as vantagens que a estufa oferece é trabalhar de 500, 800, até 1.000 metros quadrados para cima.

Apesar de um dos benefícios ser justamente o lucro que os agricultores têm em gerar um alimento sem danificações, trazendo benefícios tanto para o agricultor, quanto para o consumidor, o valor investido neste processo é alto, fazendo com que muitos ainda repensem o gasto. “O produtor avalia a sua mão de obra e a manutenção que isso vai gerar, tem que dar resultado para o produtor, se não eles não aderem”. Constatou Pedrinho

O fornecimento destes produtos no mercado também preocupa os investidores. Muitas vezes, por ser um produto natural, sem uso de nenhum agrotóxico, o produto pode ter algumas marcas, deixando ele menos “bonito” do que os produtos cheios de agrotóxico. “O consumidor, por não saber a procedência de alguns alimentos, acaba escolhendo pela beleza, sem saber que aquele mais ‘feinho’ pode ser na maioria das vezes muito mais saudável, e isso gera um baixo lucro para os produtores”. Disse Sandro Trevisan, agrônomo da Emater.

Alguns agricultores investem em pequenas estufas para o próprio consumo e de sua família, começando aos poucos, sem ter muito gasto, podendo avaliar os benefícios deste tipo de cultivo e o lucro que irá gerar. “Se o agricultor vê benefício a longo prazo, é claro que ele investe, mas antes eles testam e então vão expandindo os investimentos, este mercado é muito promissor”. Conclui o Secretário.

O cultivo protegido então de forma gradativa está se consolidando no campo. Os fatores naturais que comprometem os produtos e o valor agregado da mercadoria atrai a atenção das grandes empresas e da agricultura familiar. O investimento acontece do incentivo de quem já viu o resultado, de forma que o crescimento das estufas é aparente nos últimos cinco anos.

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