Barrados na grade

Elitizado e “para poucos”, espaço destinado à tietagem separa pobres de ricos e gera protesto de torcedores fora da Granja Comary


Quanto vale uma selfie com Neymar? Em Teresópolis, a chance de tentar uma foto no celular ao lado do ídolo pode custar entre 50 e 100 reais ao torcedor que não tem acesso à grade em que jogadores da seleção costumam bater ponto para dar autógrafos e atender a um seleto grupo de fãs.

A grade fica no Gleba 8, condomínio de alto padrão e reduto da classe mais abastada de Teresópolis, que faz divisa com um dos campos da Granja Comary. O Trem da Alegria, animado por personagens fantasiados, faz o trajeto do centro até a portaria. A rua está sempre engarrafada, repleta de crianças, torcedores e carros estacionados na calçada. No entanto, apenas convidados de moradores são autorizados a entrar no local. Antes incomodados com o tumulto em torno da seleção, alguns condôminos resolveram lucrar em cima do próprio privilégio e, de maneira informal, passaram a cobrar “ingresso” dos torcedores para conceder a autorização de convidados.

O capitão Thiago Silva e outros jogadores da seleção atendem ao elitizado público da grade da Granja Comary

Quem não tem dinheiro para bancar a taxa nem conhecidos no condomínio, tenta cavar uma vaga no lugar mais cobiçado do centro de treinamentos do Brasil. Estênio Gomes, o Duca, 42, que perdeu a mãe e dois sobrinhos em uma das enchentes causadas pelas chuvas de 2011, tentou dar o famoso “migué” na portaria e foi entrando sem cerimônia, bandeira verde-amarela a tiracolo.

- Ei, sou amigo do Seu Carlos, ele autorizou.

- Amigo de quem?, questionou o segurança, agarrando-o pelo ombro.

- Do Carlos, pô. Vai dizer que tu não conhece o Carlos?

Duca acabou barrado na guarita, assim como dezenas de outros torcedores que buscavam uma brecha para entrar. A dona de casa Marcilene Timóteo levou a filha e as sobrinhas pelo segundo dia consecutivo à portaria do condomínio. Sem sucesso. Desiludida, ela desistiu de apoiar a seleção. “Parei de torcer. Em 94, na época de Bebeto e Romário, eu vinha assistir aos treinos. Mas hoje a seleção fecha a porta para os pobres. Quem tem dinheiro, tem. Quem não tem, tem inveja de quem tem”, diz.

Marcilene e as filhas: sorriso no rosto antes de levar o segundo “não”

Apesar dos pedidos, a CBF não programou nenhum treino aberto na Granja Comary. A única maneira de o torcedor se aproximar da seleção é a grade do condomínio. Mas não basta cruzar a portaria que ostenta a placa imperativa “Proibida a entrada de estranhos”. Funcionários do condomínio relatam que alguns moradores têm vetado a tietagem de diaristas e prestadores de serviço. Por outro lado, há quem se vire como pode para penetrar na surdina. A namorada de um funcionário do Fox Sports, canal que alugou uma casa no condomínio para a cobertura dos treinos, por exemplo, consegue embarcar na van da emissora sem ser notada por seguranças. Na saída, gaba-se das selfies que acabara de fazer com os craques.

Raquel e Matheus bem que insistiram, mas foram impedidos de ver a seleção

Raquel Braga, 18, se desdobra para amolecer o coração do segurança apresentando o irmão Matheus, 17, que luta contra um tumor malígno no cérebro e sonha conhecer Neymar, Fred e Bernard. Nada feito. “Somos de Teresópolis, nascemos e fomos criados aqui, mas não temos o direito de chegar perto da seleção. Enquanto quem vem de fora e tem grana entra numa boa”, afirma. Matheus não se conforma com o portão fechado a torcedores locais, porém “estranhos”. “No Rio, os jogadores da Holanda tiram foto com todo mundo na praia. Na Granja, só rico mesmo.”

Publicado originalmente no especial Placar da Copa