Coração amargo: memórias de Joel Camargo

A história de Joel, um campeão mundial esquecido

Breiller Pires
May 9, 2014 · 6 min read

Solitário e debilitado, o primeiro jogador de futebol a protestar publicamente contra o racismo no Brasil vendeu sua medalha de campeão da Copa de 70 para esquecer os desenganos da bola*

Joel chegou ao Santos em 1963, aos 18 anos, após começar a carreira na Portuguesa Santista. Elegante, tinha passadas suaves e fino trato com a bola. Pelo hábito de abrir os braços ao correr em campo, ganhou o apelido de “Açucareiro”

Meu nome é Joel Camargo. Estou com 69 anos, sou viúvo há cinco e tenho uma filha. Dificilmente eu falo sobre futebol, mas vamos lá…

Eu cheguei ao Santos em 1963, com 18 anos. Joguei quase dez anos pelo clube, vi Pelé fazer mais de 1.000 gols, rodei o mundo, mas não ganhei dinheiro com futebol. Não fossem o Santos e o Pelé, eu nunca teria comido lagosta na vida. Fizemos várias excursões internacionais. Os caras queriam ver o Pelé. Só que ele não era lutador de boxe, não ganhava nada sozinho. Tinha que levar mais 10, e eu estava no meio daquele monte de crioulos.

Certa vez fomos para um amistoso na África. Aí teve o problema dos caras ficarem “vendo o lance”. Oberdan, Edu e Negreiros eram os reis de “ver o lance”. Sabe o que é “ver o lance”? Naquela época não tinha ar condicionado. Os caras ficavam de butuca nas janelas abertas do hotel pra ver mulher pelada. Nesse dia o Oberdan subiu no telhado e caiu. E os caras da segurança foram atrás dele [risos]. Isso era constante no Santos. O negócio deles era ver o lance. Ficavam satisfeitos com aquilo.

O Santos de Joel e Pelé, campeão paulista em 1967

Joguei 53 vezes com a camisa da seleção brasileira. Viajei numa excursão em 68 com o time-base da Copa de 70 e fui titular sob o comando do João Saldanha. Só que ele foi demitido e o Zagallo assumiu a seleção. Eu tive de fazer uma operação nas amígdalas. Custei a me alimentar de novo, só bebia líquido. Doía! O doutor Lídio Toledo disse que, se eu não fizesse a operação, mandaria me cortar da Copa do Mundo. Nesse interim, botaram o Piazza pra jogar de quarto zagueiro. O Zagallo escalou a equipe para o primeiro jogo e disse: “Se não houver nenhum problema, vamos com esse time até o fim”. E não teve nada mesmo.


No fim dos anos 60, o zagueiro viveu uma situação inusitada. Titular absoluto da seleção brasileira dirigida por João Saldanha, amargava a reserva no Santos. Quando Zagallo assumiu o esquadrão canarinho, ele perdeu espaço por causa de uma cirurgia nas amígdalas e acabou assistindo a Copa de 1970 do banco.


O Brasil foi campeão do mundo e eu não joguei. Dá uma tristeza, né? Eu era novo. Se eu reclamasse, ele me mandava embora. Fiquei quieto. Mas, com o título, a euforia foi geral. O prêmio que os 11 titulares receberam eu também recebi. Comprei um Opala zerinho, vermelhão.


E olha como a vida é…

Na madrugada do dia 22 de novembro de 1970, eu bati o Opala contra um poste, em Santos. Quebrei o nariz, a clavícula e a perna direita. Fiquei quase seis meses de cama. As duas pessoas que estavam comigo no carro morreram. Disseram que eu estava embriagado, mas não é verdade. O preconceito existe, e eu sempre falei disso. Na época do acidente, fui crucificado por causa da minha cor. Quando o Santos ia jogar na Bahia, tinha um preconceito do c… Na Argentina, não podiam ver a gente. Gritavam “macaco!” mesmo. E eu era o único que falava de preconceito naquela época. Meus colegas de time me chamavam de radical, mascarado, pediam pra eu deixar essas coisas pra lá, mas eu queria me expressar. Fui dar entrevista uma vez e queriam que eu dissesse que não existia preconceito no Brasil.

Porra, eu sou preto!

Joel critica ex-colegas negros por se casarem com mulheres brancas

O pessoal diz que eu sou orgulhoso, mas, hoje em dia, para um crioulo como eu ser proprietário de um apartamento em edifício a uma quadra da praia, entrar no elevador e cruzar com o vizinho, é jogo duro. O preconceito de cor é do c… Não querem saber se eu fui jogador. Até a vizinhança aqui se acostumar comigo foram anos. Só quem é preto sabe. E ainda dizem que o negro é preconceituoso. O Pelé, por exemplo, acha que fez muito na luta contra o racismo. Mas ele não fez porra nenhuma. Sempre olhou o lado dele. Imagina se o Pelé tivesse se casado com uma negra? Seria fantástico.


“Esse foi um jogo contra Portugal em Moçambique, em 68. Arquibancada lotada! Era inauguração do estádio, o Eusebio ia jogar, mas se machucou. Dei sorte. O jogo terminou 2 x 0 pra gente.”


O homem do cais

Depois do acidente, eu saí do Santos e fui jogar na França, pelo Paris Saint-Germain. Levei a patroa e minha filha, novinha. A gente não entendia a língua. Não fiquei nem seis meses por lá. Achavam que eu seria o Pelé, o salvador da pátria.

Encerrei a carreira aos 29 anos. Nunca fui santo. Eu bebia muito: whisky, conhaque, vodka. Até os 35, estava só vagabundando. Mas dinheiro não cai do céu. Tinha apartamento, sobrado, carro, casa lotérica e comecei a me desfazer dos bens. Eu ganhei muitas medalhas de ouro. Um dia, passando dificuldade, pensei: “Pra que essa porra de medalha?” Juntei a tralha e vendi tudo. Eu tava duro, cara. Não tenho fotos nem troféus guardados. A única lembrança dos tempos de jogador é um quadro da Copa de 70 que um torcedor me deu.


“Não frequento mais a Vila Belmiro. A última vez que estive lá foi na época em que o Júnior jogava pelo Flamengo, em 1992. Fui com o Edu [ex-ponta-esquerda], o único amigo que fiz no futebol. Agora só acompanho o Santos pela televisão.”


Até que a patroa me mandou tomar um jeito na vida. Eu fiz uma coisa que muito jogador de futebol não fez. Dois dos meus irmãos trabalharam no cais. Aí eu fui ser estivador. Dava de tudo: gente que estudou, que não estudou, que fumava maconha, que tinha três famílias, psicopata, ex-presidiário… E eu jogava bola com esses caras. Uns me admirava por ter sido jogador e campeão mundial. Mas outros tinham bronca de mim. Não podia ser malandro demais, muito menos trouxa, senão eles me pisavam.

Na PLACAR de maio, a história de Joel Camargo em quadrinhos, ilustrada por Alexandre de Maio

Fui estivador por mais de 20 anos, até me aposentar, aos 55. Carreguei fardo de algodão, café e açúcar nas docas do Porto. Eu gostava de jogar dominó na praça aqui em frente, mas olha só [aponta para os pés, descalçando os chinelos]. Me cortaram o dedo por causa do diabetes. Por pouco não amputaram o pé inteiro. Isso foi abuso de bebida. Parei de tomar bebida destilada, mas com a cerveja eu nunca consegui parar. Quando fui ver, não conseguia por o pé no chão. Já era tarde.

Com corpo de atleta, o Açucareiro carregou algodão, café e açúcar no cais do Porto de Santos

Ainda estou me recuperando da cirurgia. Minha filha é quem cuida de mim. No ano passado, recebi do Governo os 100.000 reais do prêmio aos campeões mundiais do Brasil. Até que ajuda a pagar as despesas com a doença. Mas, a essa altura da vida, sem poder sair de casa, o que é que eu vou fazer com esse dinheiro?

*JOEL CAMARGO morreu em Santos no dia 23 de maio de 2014, menos de um mês depois desta que seria sua última entrevista. Em seguida, o ex-jogador Júnior revelou que havia sido ele o comprador da medalha de Joel.


Em depoimento a: Breiller Pires
Ilustrações: Alexandre de Maio
Fotos: Alexandre Battibugli e Arquivo Revista Placar

Jornalismo esportivo

As grandes histórias que envolvem o esporte

Breiller Pires

Written by

jornalista, futebolista, mineiro

Jornalismo esportivo

As grandes histórias que envolvem o esporte

More From Medium

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade