Em um dos episódios mais notáveis e pitorescos do seriado infantil Chaves, a turma da Vila do Seu Zenón Barriga y Pesado vai ao cinema para assistir ao filme do Pelé. O que muita gente não sabe — ou não nasceu a tempo de ver o Rei do futebol reinar nos gramados — é que o maior jogador de todos os tempos estrelou, de fato, clássicos dos cinemas nacional e internacional. E, na maioria deles, não encarnou um personagem boleiro. “Eu não fui um bom ator, eu sou um bom ator”, diz Pelé, hoje com 73 anos, à PLACAR.
Ainda durante sua carreira como jogador, ele atuou em novelas e filmes de pouca expressão. Mas o primeiro longa de sucesso que o Rei emplacou nas telonas foi Os Trombadinhas, dirigido por Orlando Duarte e lançado em 1979, quando já havia se aposentado do futebol.
“Na época em que filmei Os Trombadinhas, tinha muita campanha de proteção aos jovens. Quando eu jogava, acontecia muito de os moleques de rua darem uma trombada nas senhoras, puxarem relógio, bolsa, coisa e tal. Uma das mensagens que o filme queria passar era essa: alertar para o problema da juventude. Meu papel era de um detetive que ia atrás dos bandidos que aliciavam os meninos. Depois que o filme foi lançado, as pessoas me paravam na rua. ‘Oh, Pelé, tem um problema de roubo ali na Vila tal, você podia ir lá resolver’.”

Pelé descreve o diálogo que mais o marcou como o justiceiro da criançada.
“Numa das últimas cenas do filme, a vigarista chefe da quadrilha deixa cair a arma no chão, eu boto o pé em cima e ela pergunta:”
— Não, eu sou o Jô Soares, sua piranha! [risos]
Em 19 de novembro de 1969, Pelé marcou o gol 1.000 de sua carreira diante do Vasco, no Maracanã, em cobrança de pênalti no canto esquerdo do argentino Andrada. Gol que dedicou aos “pobres e crianças necessitadas” por causa de um flagrante no Santos.
“Na antevéspera do jogo contra o Vasco, eu saí mais cedo do treino no Santos e vi uns garotinhos roubando objetos de um carro no estacionamento do clube. Eu gritei:”
— Ô, molecada, tá roubando o que aí?
— Não, Pelé, a gente tá roubando só do pessoal de São Paulo — respondeu um deles.
— Tá louco? Não tem que roubar nada de ninguém, não.
“Aí os moleques saíram correndo. Quando marquei o milésimo gol no Maracanã e dediquei às criancinhas, eu estava com esse negócio na cabeça. Muitos jornalistas disseram que o Pelé era demagogo, queria aparecer. Mas eu estava realmente preocupado com a situação da juventude no Brasil. Se tivessem dado educação para aquela geração de crianças, a gente não viveria em um país com tanta violência.”
Rocky Balboa na área
Em 1981, foi a vez de fazer uma incursão por Hollywood e trocar passes com Sylvester Stallone em Fuga para a vitória, de John Huston. Pelé ganhou o papel principal devido à falta de perícia de “Rocky Balboa” com a bola nos pés.

“Além do Stallone, o Michael Caine e o Bobby Moore também atuaram nesse filme. Só cobra, um grande elenco. Era um filme sobre a Segunda Guerra Mundial. Nós erámos prisioneiros aliados e iríamos disputar uma partida contra os nazistas. No meio do jogo, a gente fugia do campo de concentração. O engraçado desse filme é que o Stallone foi escalado para o papel principal e faria o gol da vitória. Pediram para marcar o gol de bicicleta, só que ele nunca tinha jogado futebol, era um perna-de-pau. Só sabia futebol americano. Não ia sair gol de forma alguma dali. Aí o diretor veio me procurar: ‘Pelé, você vai ter de fazer o gol’. No script, meu personagem era um soldado da Martinica e eu seria o goleiro. O Stallone acabou indo para o gol.”
O Rei também presenciou horrores da guerra na vida real. As excursões do Santos pelo mundo nas décadas de 60 e 70 ajudavam a amenizar, ainda que por 90 minutos, conflitos devastadores em cidades e países inteiros.
“Com tantos problemas, vários movimentos em tudo quanto é lugar hoje em dia, eu vejo o quanto o Santos fez pelo Brasil. Promovia a imagem do país no exterior e era considerado o time da paz. Nós paramos guerras civis em Moçambique, Nigéria, Congo… Como eu era novidade, chamado de Rei logo depois da primeira Copa, muita gente tinha curiosidade de ver o Pelé. Por contrato, Pelé tinha de jogar todos os jogos do Santos lá fora.”
Toco, canto e sambo

“Nasci para cantar e tocar, não para jogar futebol.”

Além do futebol, Pelé é reconhecido por pessoas próximas por seus dotes com a música, seja como compositor, cantor, instrumentista ou até mesmo dançarino. Em 2007, ele lançou Pelé Ginga, um CD com composições autorais interpretadas pelo próprio Rei, com participações especiais de Rappin’ Hood e Gilberto Gil. Pelé também mantém o antigo hobby de assistir a novelas nacionais. Em 1969, ele já havia participado de uma, Os Estranhos, contracenando com ninguém menos que Regina Duarte. Mas, em 1985, viria o momento alto de sua carreira como ator, novamente no cinema brasileiro.
Dando vida ao personagem Pedro Mico, em filme homônimo, protagonizou cenas tão picantes quanto constrangedoras com Tereza Rachel, célebre por interpretar grandes vilãs na televisão.

“Tinha uma cena de sexo no script. Não foi mole, não, rapaz [sorri, acanhado]. O Ipojuca [Pontes] dirigiu o filme. E a Tereza Rachel, que contracenava comigo, era esposa dele. Na hora da filmagem, como eu nunca tinha feito cena de sexo, fiquei inibido. E ele xingava: “Corta! Porra, Pelé, ela é sua mulher! Tem que pegar de jeito”. Mandando eu pegar a mulher dele! Com muito custo, a cena saiu.”
Pelé ainda embarcou em outras produções hollywoodianas e até fez uma ponta em filme d’Os Trapalhões. Porém, a despeito do amasso acanhado com Tereza Rachel, a carreira de ator deixou uma lacuna na filmografia real.
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