O preço do fotojornalismo

Emily Mallorca
Jul 4, 2017 · 5 min read

#FreedomForShawkan, uma campanha para libertar um fotógrafo detido no Egito. Por Emily Mallorca e Bruna Rohleder

Com marcantes traços egípcios, de olhos fundos, rosto longo e fino, o jornalista Mahmoud Aboud Zeid ou Shawkan, 29 anos, ficou conhecido por carregar sua câmera para onde estivesse. Além de sua companheira, o jornalista, levará consigo para sempre o dia 14 de agosto de 2013. Pois, foi o dia em que perdeu sua liberdade, a de expressão e a de andar livremente com sua câmera pelas ruas.

De acordo com a Anistia Internacional, Shawkan foi preso em seu país de origem, no Egito, enquanto cobria a dispersão violenta das forças de segurança do governo diante um protesto pacífico no Cairo, capital do país, na praça Rabaa Al-Adawiya.

Na prisão, Shawkan foi espancado, torturado e teve sua câmera e celular confiscados. Atualmente, o jornalista está há mais de três anos na prisão sem condenação. Ele é acusado de assassinato, pertencimento a grupo proibido (a Irmandade Muçulmana), participação em manifestação ilegal e posse de armas. Shawkan pode ser condenado à prisão perpétua ou pena de morte.

O código penal egípcio estipula um máximo de dois anos para os indivíduos presos sem julgamento. Em setembro de 2015, o caso de Shawkan foi encaminhado ao tribunal, portanto, o fotojornalista teve seu julgamento adiado sem motivos específicos.


Jornalismo

Antes de ser preso, Shawkan trabalhou para veículos como Time Magazine, Die Zeit, BILD, Media Group e agência de fotografia Demotix. As imagens do jornalista são utilizadas até hoje por organizações de direitos humanos que incluem a Index on Censorship, Anistia Internacional, Open Democracy, IFEX e Global Voices.

Foto tirada por Shawkan, quando o Egito elegeu democraticamente seu primeiro presidente em 2013.

“Sem essas fotos você não pode saber o que está acontecendo no Egito. Sem os fotógrafos e os fotojornalistas nós não saberemos nada. Tudo ficaria em branco” (trecho de carta escrita por Shawkan, em março de 2015, quando completou 600 dias atrás das grades).

O Egito

O Egito, país em que Shawkan foi preso, é dominado pelo Exército desde 1952. Mohamed Morsi foi o primeiro presidente a ser eleito democraticamente no país. Ele pertence à Irmandade Muçulmana, que é alvo de repressão por parte dos militares. Esse movimento luta para estabelecer as leis do Islamismo (“sharia”) com base para governos e unificar os países de povos muçulmanos, como nações do Oriente Média, Ásia e África.

De acordo com matéria do G1, em 2013, Morsi foi destituído do seu cargo pelo Exército e foi acusado por dirigir uma “organização ilegal” e “instaurar um governo ultra-extremista”. Ele foi condenado à morte, prisão perpétua e 20 anos de prisão em três casos distintos. No ano seguinte, Abdel Fatah al-Sissi foi eleito presidente democraticamente. Ele já fez parte do Exército e também é contra a Irmandade Muçulmana.

Em ordem, Abdel Fatah al-Sissi e Mohamed Morsi

Após a destituição de Mohamed Morsi, em 2013, o Governo tem limitado a liberdade de expressão. A Anistia Internacional ainda afirma que no Egito, qualquer um que desafia a narrativa oficial das autoridades, critica o governo ou expõe violações de direitos humanos corre o risco de ser jogado na cadeia, frequentemente com duração indefinida, sem acusação formal ou julgamento.

Dados gerais sobre o Egito

  • Dez jornalistas foram mortos desde 2011.
  • Segundo a ONG Repórter Sem Fronteiras, o país ocupa o 161º do Ranking de Liberdade de Imprensa de 2017.
  • O país se tornou uma das maiores prisões do mundo para jornalistas.
  • Desde 2013, o governo de Sissi organiza uma caça aos jornalistas suspeitos de serem próximos à Irmandade Muçulmana, assim como uma “sissização” das mídias.
  • Adotada em agosto de 2015, a lei antiterrorismo impõe aos jornalistas o respeito à versão oficial durante coberturas de atentados em nome da segurança nacional.
  • Grande parte da região do Sinai é proibida aos jornalistas e defensores dos direitos humanos.
Atual situação do Egito em relação à liberdade de informação, segundo o RSF.

“Freedom For Shawkan”

O advogado de Shawkan contou ao Comitê para Proteção dos Jornalistas que o fotojornalista, mantido na prisão de Tora, no Cairo, foi diagnosticado com hepatite C e sua saúde está se deteriorando cada vez mais, sem a presença de médicos no presídio.

A luta atrás das grades pode ser pesada para Shawkan, porém, ele não está sozinho. Amigos, família e a mídia têm se esforçado para chamar atenção de autoridades através da Campanha #FreedomForShawkan. Além do Facebook, a campanha segue no Twitter, na mídia e através de uma exposição em Nova York, em que um amigo de Shawkan apresentou as fotos tiradas pelo jornalista a fim de sensibilizar a população.

#FreedomForShawkan

Shawkan foi destaque na campanha Press Uncuffed, que aumenta a conscientização sobre os jornalistas presos, liderados por estudantes de jornalismo da Universidade de Maryland em parceria com o Comitê para Proteção dos Jornalistas (CPJ).

O Comitê de Proteção para Jornalistas (CPJ) fez parceria com a produtora Egyptian See Media para produzir um documentário, Under Threat, que entrevistou a família de Shawkan.

O caso de Shawkan e de muitos outros jornalistas servem para mostrar que o jornalismo não é fácil e, ainda existem muitos lugares que não podem contar com a liberdade de expressão. Portanto, essa luta não é só deles, é de todos os jornalistas, para que possam registrar, sem medo, os fatos. E que a maneira de se fazer jornalismo seja livre, seja solta, assim como Shawkan e outros jornalistas presos, injustamente, devem ser para seguir mostrando, aqui fora, o cotidiano do cidadão.

“A fotografia não é apenas um hobby para mim. É um modo de vida real, não é apenas como você segura uma câmera e tira uma foto, é a maneira como você vê a vida e tudo ao seu redor. Minha paixão é a fotografia, mas estou pagando o preço da minha paixão com a minha vida. Sem ela, falta uma parte de mim” (trecho de carta escrita por Shawkan, em março de 2015, quando completou 600 dias atrás das grades).

Shawkan posicionando as mãos como se estivesse prestes a tirar uma foto.

Jornalismo não é crime

Pesquisa sobre jornalistas detidos no exercício da…

Emily Mallorca

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Jornalista

Jornalismo não é  crime

Pesquisa sobre jornalistas detidos no exercício da profissão, desenvolvida para a disciplina de Jornalismo Internacional ESPM Sul. Vencedora do 34° Prêmio Direitos Humanos e Jornalismo na categoria trabalho acadêmico.

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