Em 2021, precisamos de um jornalismo para todas as pessoas LGBTs

Se até agora falamos em diversidade sem inclusão, está na hora de falar sobre pluralidade de corpos e identidades - dentro e fora das redações brasileiras

Para falar do futuro, precisamos olhar o passado e pensar no presente. Principalmente quando falamos de corpos marginalizados e ignorados como os corpos LGBT+. Olhamos para o passado para ver os erros que cometemos e para referenciar os que vieram antes. Mas como lembrar de algo que não foi registrado? Quando falamos em memórias de referências LGBTs, principalmente pessoas transvestigêneres, nos deparamos com apagamento.

É essa ausência de representação e de representatividade que impediu os nossos de se verem, desde cedo, reconhecidos e espelhados. É essa ausência midiática e falta de narrativas positivas na mídia que fazem tantas pessoas trans não saberem qual é o seu lugar no mundo. Comigo não foi diferente. Demorei 28 anos para me reconhecer trans, porque não via muitos de mim nos jornais, na televisão ou no cinema.

Olhando para o passado, o meu e dos meus, percebo a importância de pensarmos como resolver essas lacunas. A resposta é simples: o jornalismo precisa falar de gênero, da pluralidade que abarca o termo guarda-chuva conhecido como pessoas trans. Existem centenas de mulheres e homens trans, travestis, transmasculinos e transmasculines, pessoas não-binárias e não-bináries construindo um novo mundo, com real inclusão de todos os corpos, mas que não alcançam as páginas dos jornais (sejam os físicos ou os digitais) para falar de narrativas positivas.

Quando falamos em cobertura midiática de direitos LGBTs ainda falhamos muito como jornalistas. Quer um exemplo simples? Quantos jornalistas ainda usam o termo homofobia para falar da opressão de todas as pessoas LGBTs? Quantos ainda usam o termo gay para falar de mulheres? Parece coisa pouca, mas dar o nome certo para as coisas é importante. Vamos, então, dar os nomes certos. Não que haja uma régua de opressão, nunca foi sobre isso, mas sobre reconhecer que existem muitas opressões diferentes dentro da população LGBT+, que não é homogênea.

Para sermos, de fato, inclusivos precisamos entender que vivemos em uma sociedade construída em cima do sexismo, da LGBTfobia e do racismo. Só é possível fazer mudanças quando reconhecemos os nossos privilégios e enxergamos cada estrutura construída em cima deles. É preciso falar de gênero, é preciso falar de racismo, é preciso falar de elitismo fora da bolha cishétero branca burguesa que é o jornalismo.

Ainda nos dias de hoje, vemos vagas em grandes redações exclusivas para determinadas faculdades. Faculdades, essas, que são ocupadas pelos mesmos corpos: hétero, cisgênero, branco e burguês. Essa também é a cara dos grandes prêmios de jornalismo, porque as redações ainda são feitas por essas pessoas. Para mudarmos essa realidade só existe um caminho: pluralidade. É preciso colocar gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis, não-bináries, intersexo, agêneros dentro das redações. Sempre lembrando que corpos LGBTs são também corpos negros e periféricos. É preciso criar mais prêmios como o Prêmio Neusa Maria de Jornalismo, idealizado pelos jornalistas Pedro Borges, Matheus Moreira e Luís Adorno, todos negros, que reconheceu o trabalho de mais de 150 jornalistas não-brancos e trans.

De nada adianta falar em diversidade se só pensamos no homem, gay, branco e de classe média. Para falar realmente de diversidade, ou melhor, pluralidade, pensemos na travesti negra que é a maior vítima de todas as opressões. É a travesti e a mulher transexual negra, em sua maioria periféricas, os maiores alvos da transfobia que assola o nosso país. Em 2019 foram 163 casos, e 82% das vítimas eram mulheres trans ou travestis negras.

Só nos primeiros oito meses de 2020, 129 pessoas trans foram assassinadas no Brasil, que segue sendo líder desse tipo de crime no mundo nos últimos anos. Todas as 129 vítimas da transfobia eram do gênero feminino, sejam elas mulheres trans ou travestis. O número já ultrapassou todos os assassinatos de 2019, quando foram registradas 124 mortes. Quatro dessas mortes aconteceram em 28 dias no estado do Ceará, entre entre 12 de julho e 10 de agosto de 2020.

A mídia local, porém, cometeu outro assassinato quando noticiou os crimes: o assassinato das identidades. “Um corpo masculino” trazia a descrição do boletim de ocorrência que foi reproduzido pelos jornais cearenses. Esse tipo de situação é a naturalização da transfobia, estrutural e institucional. Dália Celeste, pesquisadora do Observatório da Segurança de Pernambuco, que tem como foco de pesquisa os temas gênero, raça, etnia e sexualidade, com quem conversei para noticiar esses transfeminicídios, destaca o abismo existente entre as vítimas de transfobia e os outros corpos fora da realidade cishétero. “Enquanto as outras siglas lutam pelo direito de amar, a gente luta pelo direito de existir, a gente luta para ter o nosso nome. Não deveríamos passar por isso”, me disse ela.

Não deveríamos mesmo, Dália. Mas infelizmente é muito comum abrirmos matérias jornalísticas e encontrarmos o nome de nascimento de uma pessoa trans, apagando o nome que essa pessoa escolheu para si. Também é comum ler que mulheres trans e travestis mortas eram “homens vestidos de mulheres”. Verbos como “virou” também são frequentes para explicar que se trata de uma pessoa trans. O jornalismo não sabe escrever sobre corpos trans. E sabe por quê? Por que não há pessoas trans nas redações.

O Estado brasileiro, até agora, não incluiu a transexualidade na amostragem da população no censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), então não sabemos quantas pessoas trans existem no país. Mas sabemos que 90% das mulheres trans recorrem à prostituição para sobreviver, já que as portas do mercado formal de trabalho dificilmente são abertas para corpos tranvestisgêneres. Dos assassinatos brutais, mais de 80% são contra corpos de pessoas trans negras. Por isso, a expectativa de vida de uma mulher trans ou travesti é de 35 anos. Essa é a realidade das pessoas trans em nosso país. Todos esses dados são da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), já que tais análises nunca partem do governo brasileiro.

O jornalismo em 2021 precisa entender que a diversidade só pode ser feita com mulheres e homens trans, travestis, pessoas não-binárias, intersexo e agêneras. O jornalismo em 2021 precisa entender que a diversidade só pode ser feita com pessoas negras e periféricas. Não é sobre tentativas, é sobre reconhecimento. Corpos trans, negros e periféricos estão construindo o jornalismo, mas não são vistos na hora de reconhecer a importância dessas narrativas para manutenção da nossa (tão fragilizada) democracia.

O grande problema é que esse cenário é construído bem antes dos textos jornalísticos. Estamos projetando o jornalismo para 2021 no mesmo momento em que pessoas trans estão sendo expulsas de casa por ser quem são, estão desistindo das salas de aula por não aguentarem mais enfrentar a transfobia nas escolas — dos colegas, dos professores, dos diretores e do plano de educação que proíbe que falemos de gênero. O fantasma da “ideologia de gênero” impede que pessoas trans entendam, desde a infância, que as suas existências são normais. Impede que a sociedade aprenda, desde cedo, o quanto somos plurais.

Nesse mesmo momento, uma pessoa trans está sendo impedida de usar o banheiro que condiz com a sua identidade de gênero ou está enfrentando problemas para ser chamada pelo seu verdadeiro nome (que é aquele que ela escolheu). É também nesse momento em que você está me lendo que uma pessoa trans está decidindo que precisa se prostituir para ter o que comer amanhã, já que todas as portas do mercado de trabalho foram trancadas para ela. Sem afeto, sem acesso à educação, sem o direito a um nome, sem colocação no mercado de trabalho. Quando há uma violência física ou a transfobia lhe tira a vida, o jornalismo ainda nega o direito ao nome e ao gênero.

Para começarmos essa mudança precisamos olhar para as salas de aula. Em 2019 e 2020, dei diversas palestras pelo Brasil — online ou pessoalmente. Do ensino fundamental ao curso de pós-graduação em jornalismo. Em todas as ocasiões, sempre ao final, ouvia de alguma das pessoas: “que bom ter uma pessoa LGBT+ falando abertamente sobre o assunto, sobre ser LGBT+”. Gênero e direitos LGBTs não estão nas grades oficiais das universidades, por isso os jornalistas chegam nas redações sem fazer ideia de como escrever sobre esses corpos, principalmente os corpos trans, que sempre estiveram à margem. Para projetarmos o jornalismo para 2021, precisamos pensar em cursos de formação, palestras, oficinas e rodas de conversas com pessoas trans nas universidades e redações.

E essa mudança vai começar a acontecer em 2021. Percebendo essa necessidade mais do que urgente, de falar de gênero e falar de corpos trans no jornalismo, eu e um grupo de jornalistas trans estamos montando um coletivo que pretende mudar o cis-tema do jornalismo, proteger os corpos trans que estão nas redações e os corpos que são noticiados. A mudança é agora.

Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2021. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.

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A convite do Farol Jornalismo e da Abraji, jornalistas e pesquisadores brasileiros projetam a profissão para o novo ano.

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