Bola fora do jornalismo como entretenimento

Jörg Struwe/PicselWeb

Na última sexta-feira (1/9) o jornal Extra, do Grupo Globo, publicou na primeira capa um comunicado para alertar os leitores que, em nome da precisão jornalística, eles não mais encontrão a palavra “Muralha” relacionada ao goleiro do Flamengo, Alex Muralha, por ter ele desmoralizado o vulgo (sic) ao levar um frango no jogo contra o Paraná pela Primeira Liga.

O editor de Esportes do jornal afirmou que o comunicado tinha um tom de brincadeira. O goleiro emitiu uma nota de repúdio e o clube informou que não mais irá atender o jornal Extra até que se retrate. Nos princípios editoriais descritos no site de notícias consta que “as empresas jornalísticas do Grupo Globo […] agem de acordo com princípios que as conduziram a posições de grande sucesso e que o êxito é decorrência direta do bom jornalismo que praticam”. Será?

A ligação entre imprensa e entretenimento não é recente. No Brasil, no século XIX, o folhetim fazia grande sucesso e era publicado quase diariamente no Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro. No mundo, a divisão entre informação e entretenimento tornou-se cada vez mais indistinta nas décadas de 1950 e 1960.

O gênero jornalístico que corresponde a conteúdos destinados à distração do leitor é o jornalismo diversional. Mesmo assim, neste caso, é difícil classificar em qual categoria se enquadraria o comunicado. Para considerá-lo como infotenimento seria necessário que ele informasse e divertisse. Aqui fica evidente que o trabalho com a hibridização de gêneros deve ser criterioso.

Conteúdos apelativos são ferramentas para chamar a atenção do público disperso — em atenção e entre diversos meios de comunicação. A necessidade de competir com espaços midiáticos dominados pelo entretenimento pode gerar aberrações, como o discurso ficcional mascarado pela objetividade.

Por mais que seja compreensível que a tentativa de brincadeira feita pelo Extra seja comum entre torcedores de futebol, há questões como a credibilidade que se espera do jornalismo, o peso da palavra escrita e a responsabilidade social da comunicação em massa. Esses elementos permitem entender a reação do jogador e do clube. O jornalismo não é fator isolado da sociedade e não alcança somente o público consumidor do produto jornalístico.

A escolha da expressão “precisão jornalística” foi absolutamente infeliz. De maneira geral, ela deixa de existir quando está a serviço do entretenimento e da manipulação da opinião pública. Infeliz, principalmente por ter ela pouca atenção no cotidiano da produção de conteúdo e por ter sido invocada justamente no momento em que a intenção era produzir uma anedota.

O artigo 9º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros diz que é dever do jornalista valorizar, honrar e dignificar a profissão, é difícil compreender como o comunicado do jornal Extra poderia fazer isso. Na linha tênue entre jornalismo e entretenimento a escolha foi pelo entretenimento, e nem assim conseguiu alcançar o objetivo.