Notícia sem notícia: equilibrando a audiência na corda bamba

Foto: Reprodução/RecordTV

Para que um fato se torne notícia é necessário que ele tenha relevância social, política, econômica ou cultural. Mas nem sempre isso acontece. Na quinta-feira (12/10), aproximadamente 11 minutos de transmissão do programa Cidade Alerta foram utilizados para exibir um homem se equilibrando em uma corda na zona leste de São Paulo.

Mas o que chama a atenção mesmo é o modo como o fato foi transmitido. Na parte inferior da tela é possível ler “homem põe a vida em risco”, mas a informação não é apresentada com a mesma gravidade da mensagem no texto. O que ocorre é um espetáculo que se resume a torcer para o indivíduo chegar ou não ao outro lado da travessia, cair ou não cair da corda.

Em 2min10s é possível ouvir a voz que vem do ponto eletrônico dizer “torce”, em seguida o comentarista segue o comando. Ao utilizar um helicóptero para esse tipo de transmissão, é possível questionar o quanto determinados recursos poderiam ser utilizados para se fazer jornalismo de qualidade.

Mais adiante o apresentador recebe a orientação, “vai segurando”, e em 3min25s ele responde, “eu estou segurando firme, eu não sei se o homem vai segurar, Clóvis”. Na verdade, o que está segura, provavelmente, é a audiência.

As mensagens que chegam através das redes sociais dão ao telespectador a sensação de que o público está engajado na torcida. Alguns comentários sequer são sobre a notícia, aqueles que estão transmitindo estão em maior evidência. Em 4min58s do vídeo o usuário do Twitter comenta, “#CidadeAlerta tem maluco pra tudo kkkkkkkkkkkkkkkk”.

Os que estão em frente às câmeras são atores de uma representação que não é jornalística, o fato é secundário, quando falam sobre a capacidade de se equilibrar, estão a comentar a própria habilidade de improviso.

Ela, admirada no rádio e na televisão, no caso de um programa jornalístico, deveria no mínimo ser pertinente. Para o puro e simples entretenimento existem atores e músicos que são melhores. Esse tipo de improviso feito por jornalistas torna-se apenas um espetáculo de mau gosto.

Em 7min56s, o apresentador informa que a repórter está em uma delegacia no bairro do Jardins, em São Paulo, e deveria noticiar o fato de 20 mulheres terem reconhecido um maníaco. No entanto, participa da transmissão em que um homem põe em risco a própria vida, mesmo que já tenha sido comparado com ela ao voltar de uma festa.

Em 8min43s, Clóvis interrompe o show, neste ponto provavelmente a audiência começou a cair. No final, o apresentador observa que todos erraram. Concordo.