Foto: Leandro Taques/Jornalistas Livres

31 de agosto de 2046

Por Manoel Ramires, com foto de Leandro Taques, para os Jornalistas Livres

Escrevo este texto hoje, 31 de agosto, para ser revisado daqui 10 anos. Lá poderá ser absorvido os efeitos do golpe parlamentar e confirmar as previsões pessimistas com relação ao futuro dos trabalhadores, a ampliação das desigualdades sociais, os cortes em serviços públicos, as privatizações, o aumento da pobreza e a maquiagem feita pelos vencedores que conseguiram abafar casos de corrupção contra si.

Escrevo esse texto impreciso hoje para que, após ser editado na próxima década, sirva de base para uma análise de meu filho, dos jovens e secundaristas que estarão debatendo política daqui 20 anos. A minha ideia é fornecer elementos para eles possam entender que muitos combateram esse processo apenas com o que tinham de si: suas vozes e consciências tranquilas. E também para anotar a ocorrência de que alguns fogos e buzinaços foram ouvidos a partir da proclamação do resultado: 61 a 20. Registrar que nessa data a grande maioria do povo não comemorou os votos, quiçá constrangida com o fato de os líderes desse processo serem canalhas e corruptos. É fato que muitos gritaram ensandecidos nas ruas ou registraram sua alegria em letras garrafais nas redes sociais. Grita essa contra a corrupção que contrastava com a apatia com relação a Eduardo Cunha, achacador da República, Michel Temer, traíra e acusado de receber 10 milhões de propina, e demais senadores e sociedade que utilizaram o nome de Deus em vão para condenar e não para absolver.

Esse texto, escrito agora no bloco de notas do celular, que poderá estar sendo lido em outro celular, na tela de um computador, impresso e compartilhado em uma sala de aula, editado em algum livro do futuro, cumprirá sua função social daqui 30, 40, 50 anos. Será quando um novo golpe de estado estiver sendo gestado em nosso país não por armas e tanques, tampouco por becas e togas, mas por qualquer outro mecanismo que na sua quintessência buscará cassar votos e direitos adquiridos no voto, na luta, no sangue.

Esses parágrafos são escritos com dor, mas sem lágrimas. Embora o pranto de muitos revelam o sufoco cívico da alma e a impotência coletiva diante da injustiça. Por outro lado, a sensação que nutro neste momento é de agonia. Angústia ao rememorar que momentos antes da votação observei restaurantes cheios, ruas tranquilas, pessoas a aguardarem pacificamente o coletivo no ponto de ônibus. Comportamento muito diferente de 17 de abril desse ano, quando os ânimos acirrados acompanhavam a votação na Câmara dos Deputados em nome da “família, fé e propriedade”. Onde foi parar aquela tese de que o gigante havia acordado e que o Brasil passava por uma onda cívica em que a multidão debatia política no dia a dia? Talvez o debate tenha se esgotado nas Olimpíadas, no gol da medalha de Neymar, possibilitando ao povo uma certa ressaca patriótica. Na verdade, desconfio que o que o brasileiro curte mesmo é a picuinha, é a discussão de boteco, sendo o impeachment apenas um aperitivo entre o futebol e a próxima novela das oito.

Confesso ainda, nessas linhas tortas, que além da angústia com o porvir nutro incerto ódio no presente. A afirmação pode incomodar algumas pessoas, a considerando muito forte odiar alguém ou alguns. Ora, não tenho vocação para o cinismo. Muitos que se regozijam nesta data foram movidos pelo ódio que racionalmente não admitem. Ódio ao PT. Ódio ao negro na universidade. Ódio aos programas sociais, a moradia, ao médico da família. Ódio ao se sentar ao lado de um pobre em um avião, ao ver um beijo apaixonado de duas pessoas do mesmo sexo. E toda essa raiva contida ganhou vazão na boca de falsos profetas, nos discursos de falsos moralistas, na boca de hipócritas. São esses que odeio tranquilamente. Afinal, ódio é tão natural quanto o amor. É o antônimo que também nos move. É a mola propulsora que nos retira a indiferença diante do caos. É o sentimento que faz com que não desistamos do Brasil para todos.

31 de agosto de 2016. O recomeço do passado. O dia em que as ruas foram tomadas novamente por jovens vestindo todas as cores, assim como as jornadas de 2013 sequestradas pela onda verde amarela que patrocinou o golpe. O dia em que a intervenção militar deu mais um passo, as bombas e tiros voltaram a encontrar os lombos populares. Um dia cravado feito estaca no peito dos democratas.

Foto: Leandro Taques/Jornalistas Livres
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