6 de Abril, o dia que ainda não acabou


A nova ocupação dos Trabalhadores Sem Teto, em Niterói, foi batizada o nome 06 de Abril, e sobrenome 2010. Uma data inesquecível na memória de quem luta pela moradia.

por Jornalistas Livres

Na memória dos desabrigados, o dia “6 de abril de 2010” ainda não acabou. Marcante e simbólica, a data marcou uma grande tragédia que deixou vinte mil desabrigados, centenas de mortos e milhares de histórias de perda de familiares, amigos e até mesmo da dignidade. Agora, estas mesmas histórias se reinventam em forma de luta por moradia. Para ser sempre lembrada e homenageada, ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), em Niterói, recebeu o nome de “6 de abril de 2010”.

Os Jornalistas Livres entrevistaram Marta da Silva Mendonça, 48 anos, moradora da rua Teixeira de Freitas , no bairro Fonseca — e duplamente vítima, tanto da das chuvas do dia 06 de abril de 2010, quanto do descaso do estado após a tragédia. Aqui ela narra a história do pesadelo que, infelizmente, ainda não terminou. Confira.

Teixeira de Freitas durante entrevista para os Jornalistas Livres. Foto: Mídia NINJA

“A chuva começou no dia 3 de abril, alternando momentos de pancadas fortes e outros nem tanto, mas era uma chuva contínua, que não dava trégua. Na noite do dia 04 para dia 05, eu levantei como se fosse um dia qualquer, cuidei dos meus afazeres, e a noite foi normal, como todas as outras. Entretanto, na madrugada do dia 06, por volta de 1h da manhã, eu despertei com o grito de uma criança pedindo socorro. Me levantei da cama. Estava escuro e não havia energia. Até então, não tinha dado conta do que estava acontecendo com a minha comunidade. Fui até a janela da minha sala e ouvi mais gritos de socorro daquela criança.

Um barulho no meu quintal me chamou a atenção, abri a porta e me deparei com um jovem de 18 anos, carregando um senhor nas costas. Ele gritou que era pra eu sair de casa que o morro estava descendo todo. Me desesperei e corri para o meu quarto, contei pro meu esposo, mas ele não se abalou. Me lembrei que minha filha estava no outro quarto, grávida de 8 meses, e contei pra ela o que estava acontecendo, quando e ela me disse: “Mãe eu escutei mesmo um barulho muito forte atrás da casa.” Ali, naquela escuridão, a gente ficou em dúvida, se saia ou se ficava em casa escutando aquela gritaria da rua, aquele corre corre. Por volta das 4h da manhã, começou a clarear e a gente permaneceu na porta paradas, eu e ela.

Eu pude ver que o barranco desceu e soterrou casas, árvores, postes. Foi ai então que chamei minha filha e, nós duas, resolvemos descer. Quando chegamos na rua, na beira do morro, o caminho por onde eu havia acabado de passar, desapareceu. O morro desabou inteiro. Ali eu me desesperei. Nunca tinha visto algo do tipo. Comecei a gritar para meu esposo e filho, que tinham ficado em casa, e que estava toda ilhada naquele momento. Até então, para mim, o desabamento era somente ali, naquela localidade. Às 5h30, a ex-sogra do meu filho passou por mim e eu perguntei a ela o que havia acontecido na casa dela. Ela estava vindo do morro 340 [bairro Fonseca] lá também havia descido tudo — na rua Teixeira Freitas, o morro desceu por volta de 1h, e no 340 às 24h . Foi lá que eu perdi muitos amigos, e um neto de 4 anos, soterrados.

Foto: Gazeta do Povo

Aquele resto de madrugada foi de terror para gente. Éramos somente nós, os moradores. Não aparecia Defesa Civil, bombeiro, polícia, nada. Era apenas um vizinho ajudando o outro. Quando o dia clareou, nós começamos a catar o que tinha sobrado nas casas que estavam na beira do desabamento. Entrava e tirava. Às 7h começou a chegar ajuda. Pessoas da igreja começaram a subir e ali na rua Teixeira de Freitas, eu vi cadeirantes sendo tirados de dentro das suas casas, vi pessoas idosas sendo levadas para a calçada debaixo de chuva. Passamos o dia nesse corre-corre desesperado. Só por volta das 17h que nós fomos pensar para onde iríamos — a minha filha grávida foi levada para a igreja, e eu fui para uma oficina de serralheria com meu esposo, onde fiquei 15 dias.

Pouco depois decidimos procurar um local pra almoçar, fazer uma refeição. Fomos até Alameda Boaventura. Foi neste momento que o Morro do Bumba desceu. E não apenas desceu, ele explodiu e depois desceu. Pude ver muitos carros passarem ali com pessoas que eram retiradas dos escombros e estavam sendo levadas para o hospital e também, pessoas mortas . — O corpo do meu neto acharam no morro 340 — , o morro desceu meia-noite, mas só o encontraram às 17h. O Bumba foi o que todo mundo viu, aquele desespero todo.

O Abrigo

Depois dos 30 dias na oficina chegou a notícia que iriam reunir todo mundo no colégio, na rua Teixeira de Freitas. Fomos pra lá — era 28 de abril. Falaram que tínhamos que ir para um abrigo e que não poderíamos ficar mais lá. Queríamos ficar no abrigo somente 3 meses, tempo suficiente para o prefeito preparar casas para a população. Fomos para o 3º Batalhão da Infantaria, o 3bi. Quando chegamos lá fomos recebidos com banda musical. Tinha segurança, artesanatos, esporte, bom tratamento. Com o passar do tempo tudo foi mudando. Começaram a nos tratar como bichos.

São Gonçalo (RJ) — Morador observa o que restou de sua casa depois de deslizamento, no bairro Novo México. Foto Repórter Vitor Abdala

Dentro do abrigo 3bi, eu vi mãe ter neném que, com menos de um mês, morreu, pois não tinha cuidado especial. O posto de saúde não aceitava consultar a gente, porque éramos desabrigados, não tínhamos endereço certo e esta era uma das exigências. Como a gente iria levar o endereço se não tínhamos casa? E eles ainda alegavam que o abrigo não servia como endereço. Quando saíamos na rua, os moradores nos chamavam de ladrões, de prostitutas, de mendigos. Tudo que acontecia de ruim na região era culpa do pessoal do 3bi.

Desabrigados de Niterói resistem e impedem remoção planejada pela Prefeitura, um ano depois dos deslizamentos — Foto: AFN

No primeiro Dia dos Pais dentro do abrigo nos falaram que teria refeição especial. Serviram no café da manhã: café fervido, leite azedo e pão duro. O almoço foi um macarrão grudado com arroz, feijão e isca de frango. Dentro do abrigo, no período em que fiquei lá, vi coisas que não desejo nem para o meu pior inimigo.

Hoje, eu peço a deus que nunca mais deixe isso acontecer novamente. Não só em Niterói, mas em lugar nenhum, porque o que eu vivi dentro do abrigo foi coisa de bicho.

Abrigo não foi feito para o ser humano, não foi feito para ninguém. Haviam 700 pessoas abrigadas. O que passamos dentro do 3bi, o abrigo 4g passou também. Muitas crianças nasceram e muitas crianças também morreram. Outras tiveram hepatite, tuberculose, crise de bronquite, asma, depressão, crise nervosa.

“Enquanto tiver uma família desabrigada na cidade de Niterói, enquanto eu estiver respirando em cima dessa terra, faça sol ou faça chuva, eu vou estar nessa luta, por qualquer desabrigado.”

06 de abril de 2010: o batismo

Eu acho que não pode deixar cair no esquecimento. Muita gente sofreu e passou por isso, muita gente já esqueceu o que aconteceu nessa data, mas a gente luta para que ninguém esqueça. Eu, principalmente, nunca vou me esquecer — eu sugeri o nome 06 de abril para que a data ficasse guardada na memória de todo mundo.

Eu estou escrevendo um livro sobre a chuva de 2010, porque se depender de mim essa data não vai cair no esquecimento não. A mídia, quando houve essa chuva, noticiou muita coisa, o prefeito anunciou que no Bumba foram 240 mortes. Mas isso foi o que o prefeito falou, ele se esquece que lá na Vila Oliveira, tem, até hoje, corpo soterrado, no Bumba ainda tem corpo soterrado.

Os funcionários contavam que na hora de retirar o lixo com os caminhões, eles viam muitos corpos, pernas, braços que eram despejados no lixão. Conheço família que até hoje não achou corpo de parente. Na Curva da Onça houve morte, na Vila Odoro houve morte, no Beltrão houve morte, no Bumba houve morte, na Teixeira de Freitas houve morte, na São José houve morte. E como o prefeito diz que foram 240 pessoas mortas? Se separar e somar teve muito mais morte na cidade de Niterói. Ele só contabilizou o Bumba, mas não foi só lá que pessoas morreram.

Acho muito justa essa ocupação ser homenageada com o nome “6 de abril de 2010”. E espero que isso não caia nunca no esquecimento da população, não só na população de classe média, mas na população de classe alta, como o prefeito, o governador, a presidente. E que isso chegue até lá, em Brasília.

“Se depender de mim, essa data não vai ser esquecida nunca. Se depender de mim, ninguém em Niterói vai esquecer essa data”.

Foto: Mídia NINJA