A baiana que virou cozinheira, visitou o Palácio do Planalto e se tornou amiga de Lula

Tia Zélia conquistou o ex-presidente pelo paladar. Preocupa-se com o futuro da população mais pobre mas não se abate: “Torço por Lula com unhas e dentes. Defendo ele até no tapa. Me deu trabalho, me deu dignidade. Por isso eu luto por ele.”

Por Maria Carolina Trevisan, de Brasília, para Revista Brasileiros e Jornalistas Livres

A baiana Maria de Jesus Oliveira Costa, 62 anos, conhecida como “Tia Zélia”, sempre foi admiradora do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Nunca votei em outro”, atesta. A simpatia da baiana por Lula data dos tempos em que ele era sindicalista, “usava calça branca de boca larga e cabelão grande”. “Vi ele defendendo o povo e sendo preso, arrastado pela calçada”, lembra, em alusão ao sequestro de Lula pelo DOPS, a polícia política do regime militar, em abril de 1980.

Tia Zélia não imaginava que, 28 anos depois, encontraria Lula pessoalmente no Palácio do Planalto, e que trocaria recados com o ex-presidente até hoje.

Foi em 1972 que Tia Zélia subiu em um pau-de-arara e atravessou o sertão da Bahia para chegar a Brasília. Saiu de Buritirama (BA) com dois de seus cinco filhos, aos 18 anos, para reencontrar o marido, que fora trabalhar no Distrito Federal. A viagem durou 28 dias. Ela fugia também da miséria. Ainda hoje Buritirama tem Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) de 0,565, um dos piores do país, ocupando a 4.941o posição entre os 5.570 municípios brasileiros.

O pequeno José ainda mamava no peito quando embarcou para Brasília. A família tinha um único cobertor para embrulhar as duas crianças. Tia Zélia se hospedou em uma pensão e trabalhou com o que aparecia: lavou e passou roupas, fez faxina, cuidou de criança, foi vendedora de uma loja de sapatos. Ganhava Cr$ 70 por mês. “Passei fome tanto em Brasília quanto na Bahia”, recorda. Diz que a situação só foi melhorar depois que o ex-presidente Lula implantou o programa Fome Zero.

Tia Zélia

Dois anos depois de aportar no Distrito Federal, a sorte de Tia Zélia começou a mudar. Já separada, e com os cinco filhos por perto (as duas caçulas nascidas em Brasília), passou a cozinhar — um dom até então desconhecido. Fincou pé na Vila Planalto, bairro de acampamentos onde viviam os trabalhadores que ergueram Brasília, considerado local histórico. De localização privilegiada — fica entre o Palácio da Alvorada e o Palácio do Planalto -, é até hoje um lugar simples que guarda jóias gastronômicas. O cozinheiro de Juscelino Kubitschek, Rosental, também vivia na Vila Planalto.

Com a coragem de quem está acostumada a trabalhar desde criança e a garra inerente às mulheres negras, Tia Zélia aceitou a encomenda de amigos que queriam provar os pratos da culinária baiana. “Eu tinha um fogãozinho de quatro bocas, duas panelas e quatro pratos. Com Cr$50 comprei um frango, dois quilos de costela, uma lata de óleo, duas cabeças de alho, quatro tomates, dois pés de alface, e ainda sobrou Cr$1,50”, recorda. A empreitada foi um grande sucesso. “Pensa num povo que ficou apaixonado!”.

Conforme foi prosperando, Tia Zélia passou a equipar a cozinha com panela de pressão, um fogão maior e um grande freezer. Trocou o telhado de zinco por um de telhas para suportar o calor e criou o carro chefe do Restaurante Tia Zélia: a feijoada às sextas-feiras, que chega a receber 250 pessoas. Nos outros dias da semana, Tia Zélia serve pratos como bisteca de porco, feijão tropeiro, frango com quiabo ou bife acebolado. O banquete baiano custa R$30 por pessoa.

Encontro com Lula

Aos poucos, o restaurante foi agregando clientela e ficou conhecido pela deliciosa comida baiana. Em 2008, Tia Zélia participou de uma feira gastronômica e foi elogiada por um grande chefe de cozinha. Ele prometeu lhe ajudar a encaminhar uma carta ao então presidente Lula. Tia Zélia queria contar sua história e dizer de sua admiração.

Durante o segundo mandato de Lula, um de seus assessores esteve no restaurante. A cada vez que visitava o local, puxava conversa sobre política. Ele queria saber qual era a preferência política de Tia Zélia. Disse que a levaria para conhecer o presidente.

Alguns meses depois, um carro foi buscar a cozinheira para levá-la ao Palácio do Planalto. “Fui no carro dele, entrei no elevador dele e fui diretamente ao gabinete dele, recebida por ele pessoalmente”, lembra, orgulhosa. Ao escutar a história da cozinheira, Lula se emocionou e se abraçaram. Ele emprestou um lenço para ela secar as lágrimas. Perguntou se ela sabia fazer rabada porque desde a morte da mãe nunca mais tinha provado uma boa rabada. “Pois o senhor vai comer”, prometeu Tia Zélia.

Semanas depois, o assessor do ex-presidente apareceu no restaurante. Lula queria a rabada e uma sobremesa. Tia Zélia preparou o prato encomendado acompanhado de “arroz de mulher preguiçosa” (feito na água fervente) e feijão, além de musse de tamarindo para finalizar. Lula adorou. Pediu um novo prato: buchada, uma das iguarias preferidas do ex-presidente. Tia Zélia fez e enviou. No dia seguinte, recebeu o assessor do presidente com um rádio. Era Lula no aparelho. “Ele me disse que tinha gostado muito e que eu sabia cozinhar”, diz.

No dia 27 de outubro, aniversário do ex-presidente petista, um carro foi buscar Tia Zélia para levá-la à comemoração no Palácio. “Em matéria de ser humano, não existe igual a ele.” A partir daí, Tia Zélia e Lula nunca deixaram de se falar. A amizade ficou conhecida e o restaurante passou a ser frequentado por membros do governo, senadores, deputados e ministros de partidos de esquerda.

Impeachment

Na sexta-feira (15/4) que antecedeu a votação da admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, o restaurante de Tia Zélia estava cheio. Entre os que degustavam a feijoada no jardim diante da casa estavam Juca Ferreira, ministro das Comunicações, e a senadora Fátima Bezerra (PT-RN). As conversas giravam em torno da apreensão diante do eminente golpe posto em marcha na Câmara.

Tia Zélia estava reclusa. A labirintite foi atacada pelo nervoso que a acometia. A cozinheira apareceu rapidamente para cumprimentar os freqüentadores. Queixou-se de tontura, mas não tirou o sorriso e a simpatia do rosto. A fisionomia só muda quando fazem piada sobre Lula ou Dilma. “Eu não levo desaforo para casa. Se me falar uma coisa que eu não gosto, respondo na hora, não tem dois minutos pro outro pensar.”

No dia seguinte, havia a possibilidade de o ex-presidente almoçar no restaurante da Tia Zélia. Com o tumulto em torno do processo de impeachment, a visita teve de ser adiada. Mas Lula mandou um recado para a amiga. “Ele disse que está na luta, que é para eu acreditar. Estou acreditando. Pode vir o empecilho que vier”, relata. “O Lula é o único que pode dar um jeito no Brasil. Mas estou preocupada com ele, com a Dilma, comigo mesma.” Fica doente com a possibilidade de injustiça contra Lula. “Se isso acontecer, tenho medo até de eu morrer de tristeza.”

Domingo o restaurante de Tia Zélia abriu excepcionalmente e fechou na hora da votação. Ficou lotado de militantes do PT, PCdoB e PSOL, ministros, deputados e senadores que passaram pelo “restaurante da resistência”. Mas a dona do estabelecimento não se sentiu bem. Amanheceu passando mal, teve dor de barriga, não conseguiu comer nem dormir.

Religiosa, Tia Zélia se indignou com o uso do nome de Deus em vão. “Se o impeachment acontecer, não vai ser fácil para os mais pobres”, alerta. Afinal, foi no governo Lula que chegou luz elétrica em sua cidadezinha no sertão baiano, assim como as cisternas. “Antes, na minha terra não tinha esperança.”

Políticas sociais

No dia seguinte à votação, Tia Zélia estava acamada. Não conseguiu trabalhar. Uma de suas filhas, a brasiliense Márcia, 37 anos, que toca o restaurante com a mãe, contou que assistiram juntas a cada voto dos deputados. “Eles não têm moral para julgar uma pessoa como a Dilma, que não cometeu nenhum crime de corrupção até este momento”, diz Márcia, a única dos cinco filhos de Tia Zélia que conseguiu terminar o segundo grau.

Parede do restaurante Tia Zélia

Para ela, os grandes prejudicados por uma mudança de governo serão os pobres e os trabalhadores. Antecipando a crise de políticas sociais que pode acometer um eventual governo Temer-Cunha, Márcia escutou da filha de 17 anos: “minha mãe, e agora? Como eu vou entrar na UnB?”.

A filha de Márcia tem razão. A população negra com ensino superior cresceu de 9,3% (1980) para 24,7% (2010), segundo o estudo “Desiguadades raciais no Brasil: um desafio persistente”, dos sociólogos Márcia Lima e Ian Prates. A causa desse acesso é a política de cotas raciais. “Quando minha filha disse isso, meu coração se despedaçou por inteiro. É o futuro dela. Se ela não puder fazer a faculdade, assim como outras meninas negras, como vai ser a vida dela?”

A família de Tia Zélia, apesar do sofrimento, tenta não se abater. Para quem desconfia que ela obteve algum tipo de vantagem pela proximidade com o ex-presidente, a dona do restaurante é enfática. “Torço por Lula com unhas e dentes. Defendo ele até no tapa. Mas ele nunca me deu um palito de fósforo. Me deu trabalho, me deu dignidade. Por isso eu luto por ele.”

Dentro do restaurante, na parede pintada de vermelho, há quadros com fotos de Lula e de Dilma dedicadas à Tia Zélia. Teve gente que sugeriu que elas tirassem os enfeites da parede para evitar serem achincalhadas. Mas são homenagens, significam muito mais que simples fotos.

“Quem quiser vir aqui, que venha. Mas eu não vou me acovardar. A gente tem todo o direito de gostar de quem a gente quiser”, fala Márcia. “Quem quiser vir aqui comer, será muito bem atendido. Mas as minhas fotos não vão sair dali. Podem se passar 50 anos que minhas fotos estarão ali. A gente não tem que ser covarde.”


Serviço
Restaurante Tia Zélia

Endereço: Avenida Rabelo, casa 8 — Vila Planalto — Brasília — DF
Telefone: (61) 3306 1526
De segunda a sábado 12h — 15h / Domingo fechado

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