Foto: Lula Marques

A Dama da democracia

Por Manoel Ramires, especial para os Jornalistas Livres

Se Dilma Vana Rousseff já tinha seu nome gravado na história política do Brasil como a primeira presidenta eleita e reeleita, ontem (29) ela entrou para a história da democracia. Seu depoimento superior a doze horas demonstrou o quanto ela valoriza esse regime e a sua lealdade ao povo e a valores universais de honra e coragem. Sua postura é radicalmente contrária a de políticos que fogem do combate, articulam por debaixo dos panos, traem e ainda temem o crivo da população. Fogem das vaias. Já Dilma, não se suicidou, não renunciou, não fugiu para outro país. Ela encarou. E ao enfrentar seus algozes de forma serena, entrou para a galeria dos mártires da humanidade. Se cair, será em pé.

A lucidez com que a Dama da Democracia entende sobre seu papel na história é impressionante. Não à toa, disse que enfrentou a morte duas vezes. Uma nas mãos da ditadura, torturada por Ustra, que impunha a “Revolução de 1964”. Outra no colo do câncer, doença traiçoeira e dura, agravada pela cafajeste perseguição de setores políticos e midiáticos que torciam pela lápide. Ela, guerreira, sobreviveu. Após essa explanação, no depoimento, Dilma cravou bem que o alvo dessa vez não é ela, mas os votos e as conquistas sociais que devem ser executados em um projeto neoliberal que se avizinha. Dilma, ao apontar o golpe, podia apenas deixar mais claro que a justiça condena inocentes também, embora o rito pretensamente racional esconda vontades odiosas. Nesse ínterim, poderia listar personalidades queimadas no calor do momento que foram posteriormente absolvidas pelo juízo da história.

Foto: Lula Marques

Aliás, como não introduzir Jorge Luís Borges, que certa vez cravou: “A paternidade e os espelhos são abomináveis porque multiplicam o número de homens”. Trazendo para o domínio popular é como se dissesse que a história trágica se repete como farsa. Por outro lado, mais do que isso, o julgamento de Dilma Vana Rousseff, Dama Dilma, criou as condições para se vivenciar em duas dimensões paralelas. E são poucas as vezes que essas situações são percebidas tão bem claramente. Nessas ocasiões se observa a construção dos fatos momentâneos sendo tragado no futuro pela onipotência. É como se fôssemos contemporâneos de Jesus Cristo, em que sabemos ser a sua crucificação tida como derrota naquele instante e uma vitória para futuras gerações. Ou sofrer com a 2ª Guerra Mundial e ter a certeza de que o inimigo hoje herói será derrotado, entrando para os anais como vilão.

É com essas dimensões que Dilma e aqueles que apontam o golpe convivem. Mesmo conscientes de que a conjuntura é propícia para o rompimento dos valores democráticos, têm a fé de que foi justamente essa batalha que reestabelecerá a verdade dos fatos. Afinal, demonstrar arrependimento 30 anos depois de defender e compactuar com opressores pode ser apenas mais um sinal de covardia.

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