Foto: Leandro Taques/Jornalistas Livres

A imprensa é a direção política do golpe, diz João Pedro Stédile em Curitiba

Texto de Gibran Mendes com fotos de Isabella Lanave e Leandro Taques, especial para os Jornalistas Livres

Em um pequeno auditório, com capacidade para aproximadamente 70 ouvintes, estavam pouco mais de 10 pessoas. Alguns militantes dividiam o espaço vazio com jornalistas de coletivos de comunicação e da imprensa sindical. Naquele local, sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, foi marcada uma entrevista coletiva com o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), João Pedro Stédile. Ele dividia a mesa com o presidente da APP-Sindicato, Hermes Leão e a presidente da CUT Paraná, Regina Cruz.

Foto: Isabella Lanave/Jornalistas Livres

Há poucos metros dali, no outro lado da Praça Carlos Gomes, fica a sede do jornal Gazeta do Povo. O periódico é de propriedade do Grupo Paranaense de Comunicação (GRPcom), praticamente detentor do monopólio da comunicação. Além de possuir emissoras de rádio e os dois principais jornais da capital, a empresa é proprietária das retransmissoras da Rede Globo no Paraná. Apenas um fotógrafo passou rapidamente para registrar a coletiva. O problema não era a distância física entre Stédile e os grupos de comunicação, mas a diferença ideológica.

Foto: Gibran Mendes/Jornalistas Livres

Para Stédile, a imprensa é a direção política do golpe em curso no Brasil e faz parte dos três pilares de sustentação dos movimentos que tentam arpear a presidenta Dilma Rousseff da chefia do executivo nacional. “A grande imprensa não só se assumiu como golpista como ela é direção política do golpe. Por isso que um dos nossos alvos é a Globo, porque ela dirige as outras. É como se a Globo fosse o Messi de qualquer seleção, ela dirige os outros jogadores”, comparou Stédile.

Mas a vida do maior grupo de comunicação do Brasil parece não ser tão fácil como eles próprios poderiam imaginar. Diferentemente do que aconteceu em 1954 e em 1964 hoje há um contraponto: a internet, as redes sociais e coletivos livres de comunicação que fazem o contraponto ao oligopólio da comunicação brasileira. Mais: Stédile projeta que este cenário pode estar perto do fim. Em sua análise dois pontos devem surgir após o turbilhão político pelo qual passa o Brasil.

O primeiro deles será a reforma política para, logo em seguida, a democratização dos meios de comunicação e a sua regulação entrarem na pauta da sociedade brasileira. “É para quebrar de uma vez por todas esse monopólio da Globo que age, não como quinto poder, como se dizia nas escolas de jornalismo, age como primeiro poder por que ela está dirigindo, por meio da ideologia, da manipulação ideológica, o comportamento da sociedade”, avalia.

Contudo, esse poder de manipulação tornou-se menor com o avanço da internet e outros meios de informação. Com uma curva descendente nos índices do Ibope, a Vênus Platinada hoje é ameaçada de forma como nunca foi por veículos alternativos e as redes sociais.

“Eles não tem como controlar todos e, evidentemente, por mais que haja uma direita organizada, um poder econômico inclusive mais forte que 54 e 64, a sociedade, a civilização como um todo vai evoluindo”, respondeu Stédile quando questionado se acreditava que a diferença entre as tentativas de golpe em 1954, 1964 e 2016 residia nas redes sociais e na Internet. “De fato, eles não vão conseguir manipular todo mundo o tempo todo”, completou.

O dirigente ainda comentou a onda de violência contra movimentos sociais e progressistas. Para ele, este cenário é fruto de uma hegemonia construída pela direita. “Formou-se uma coalização no País composta por três componentes: poder econômico que deseja a volta do neoliberalismo, os parlamentares conservadores em um centrão com todos os partidos oportunistas e mais esse centro ideológico que é a globo e alguns setores do judiciário”, comentou.

Para Stédile, eles sentem-se donos do estado e essa hegemonia libera as forças mais atrasadas da sociedade. “É como se estivessem impunes”, analisa. “Isso é que gera motivação para que um pequeno burguês qualquer se dê ao luxo de fazer um boneco contra o MST e de agredir, por exemplo, a senadora Gleisi. Mais que uma articulação é o clima de hegemonia na direita que libera suas forças mais atrasadas. Como combater isso? Devemos denunciar em todos os fóruns das instituições públicas para recuperar o direito, a democracia e o republicanismo. Mas só tem uma maneira de realmente barrá-los: fazer mobilização de massas”, projeta a liderança que em Curitiba participou de uma plenária com movimentos sociais pela manhã e a noite do lançamento de um livro sobre o Massacre do Dia 29 de Abril.

Fotos: Leandro Taques/Jornalistas Livres

Estas mobilizações de massas, segundo Stédile, foram as responsáveis sem intencionalidade pela não comemoração excessiva com a primeira vitória da direita na votação do impeachment, no último dia 17 de abril. “Acho que eles acabaram com os estoques de foguetes no Brasil inteiro, mas não tiveram coragem de soltá-los. Isso porque nas ruas a maioria do povo era contra o golpe, inclusive em Brasília. Então, com a expressão do povo nas ruas e a mobilização, isso brecou a ofensiva que viria da direita. Se nós não tivéssemos ido para as ruas eles teriam transformado aquelas cenas patéticas que vimos pela televisão num grande carnaval, com dois ou três dias de festa”, analisou pouco antes de encerrar a entrevista coletiva.

Entrevista que passou ao largo da grande mídia do Paraná, ausente de uma pauta para ouvir, independente de orientação ideológica, uma das principais lideranças brasileiras. A exceção do repórter fotográfico do jornal Gazeta do Povo, que passou rapidamente pela sede do seu sindicato, apenas para registrar. Assim como faria um gandula buscando a bola para a grande liderança do seu time, Leo Messi, para usar a mesma analogia de João Pedro Stédile. Mas neste caso, talvez, a diferença que separe o ídolo do Barcelona do gandula seja infinitamente menor do que a que distancia os grandes meios de comunicação dos movimentos populares, mesmo que eles estejam apenas alguns passos do local onde eles tenham algo a dizer.

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