Ricardo Stuckert/ Fotos Públicas

A Super Lua nos desajustou

Por Manoel Ramires, para os Jornalistas Livres

Não sou dado a astrologia, muito menos tenho o mínimo conhecimento de astronomia, mas, quem sabe, trago em mim uma superstição bem brasileira. Dessas coisas de dizer não ter crendices e fazer o sinal da cruz de vez em quando para afastar um mau pensamento ou um eventual calafrio. E é com base nessas alucinações, eu acredito que a nossa nação sofreu bem mais com a passagem da Super Lua do que o resto do mundo. Parece-me que os demônios pularam para fora dos corpos e se materializaram no nosso cotidiano sem mais nenhum pudor. Eles andam livres e soltos a confundir mentes e corações. Da vinda da Super Lua se ouve uivos e gargalhadas bestiais diante da desgraça do povo. Rezo, se me é permitido um terço, que a próxima lua venha sombreada por um pouco de juízo coletivo. Sei, todavia, que essas crateras ainda têm muitos tinhosos a fecundar.

A Super Lua desregulou as marés, os ventos e a ética jornalística. Ela foi duramente golpeada duas vezes em menos de 72 horas. A começar pelo convescote exibido na TV Cultura, reproduzido na TV Brasil, e ampliado nos grandes veículos de imprensa nacional. A entrevista de Temer, o sanguessuga do poder, é o que ele definiu em seu final: “uma grande propaganda”. Um programa inteiro de bajulação e protojornalismo com uma figura que até alhos e cebolas têm medo, mas que, ardilosamente, enche as burras midiáticas de dinheiro. É incrível o aparelhamento que a imprensa brasileira vive, em que o governo controla os veículos estatais com a força de decretos, mídias estaduais com cargos ministeriais e mídia comercial com parrudas verbas publicitárias. A grande imprensa brasileira, no sentido de volume, consolida sua pequenez no momento em que demonstra total dependência ao governo usurpador. Por outro lado, se no conforto da entrevista coletiva presidencial, tudo ocorreu com risos e dentaduras, no calor das ruas, a massa raivosa está sempre pronta a queimar bruxas erradas. Esse é o caso da agressão ao jornalista Caco Barcellos, trabalhador da Rede Globo. A ira da plebe há que se entender, jamais relativizar. O sangue quente não pode ser utilizado por pessoas de cuca fresca para justificar a agressão. Imagino que é ela, a Super Lua, tenha provocado em algumas pessoas de bom senso um pequeno lapso moral ao acharem justo uma ‘conada’ aqui e outro sopapo ali em Caco. Não. Não se muda a rotação da lua apenas girando o próprio corpo em sentido contrário.

Falando em corpo, um jovem idealista padeceu na semana passada. Morto, talvez, por um velho conformista. Tudo na semana da grande lua em que o pai mata o filho e se suicida. É bárbaro e trágico. Não apenas as mortes, mas também a tentativa de associar a tragédia pura e simplesmente ao momento político nacional. Se de um lado se repudia a morte de um adolescente em uma escola ocupada há pouco mais de um mês e, principalmente, a tentativa direitista de uso político da tragédia, de outro, não se distancia nas práticas quem escolhe abrir mão do luto familiar para apontar fascismo como estopim para o causo. Ora, em ambos os casos, estamos diante de mais gente uivando e clamando por sangue da matilha rival do que pessoas se guiando pela luz lunar em busca de um norte.

Mas a semana da Super Lua também encontrou muita gente sem rumo achando estar no caminho certo. É uma turma que olha para as estrelas e encontra Cruzeiro do Sul em poeira cósmica. Vê um corpo branco tão próximo e acredita ser um meteoro prestes a se chocar com a Terra. Estou falando dos lunáticos que invadiram a Câmara dos Deputados para pedir intervenção militar e combater o comunismo. Nem o maior sanatório é capaz de dar conta de tanta gente tão desvairada, capaz de ver na lua vermelha da bandeira do Japão a ameaça bolchevique. Realmente é de se ficar preocupado com essa gravidade que é capaz de atrair tantos insanos. Pior, o que assusta é ver sãos dando voz e autenticidade a balbucios intelectuais.

Por fim, mesmo tendo a Lua diminuída seu brilho e intensidade, seus abalos permanecem surtindo grandes efeitos nas autoridades e nos autoritários. É o caso das prisões de Garotinho e Cabral. Na semana de votação do ajuste fiscal fluminense, o xilindró deles veio a calhar para as forças obscuras que habitam e orbitam o poder no Rio de Janeiro. De certo que ambos os políticos de cabeça raspada (Cabral) e arrastado na ambulância (Garotinho) não são lebres. Mesmo assim, numa sociedade equilibrada, eles não podem ser jogados como refeição aos leões por serem nossos desafetos. Porque um dia a gente pode ser surpreendido e não perceber que aqueles que marchavam ao nosso lado hoje estão fechando o cadeado nas nossas costas enquanto o rugido se aproxima — com ou sem Super Lua.

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